A Aldeia dos Magos Escondidos IV

Atualizado: Nov 10

Os ouvidos ainda sentiam o impacto das ondas sonoras produzidas pela última pancada que o aço recebera. Silas sabia que aquele era o momento onde o aço se tornara arma de dois mundos. Tanto alma e carne seriam rasgadas, pela lâmina fria e azulada do aço arcano moldado pelas vigorosas pancadas produzidas pelo malho bárbaro.

O ferreiro precisaria continuar o trabalho com novas sagrações murmuradas em baixa voz, pronunciadas em língua antiga, só ouvida em claustros monásticos. Palavras com capacidade de invocar magias intensas, com potencial para destruir rochas, monstros, ou o que a pessoa que a empunhasse quisesse. Mas a grande valia era a força etérea, aquela capaz de destroçar espíritos. O problema é que a espada não faz distinção de quem mata. Isso é infortúnio de quem a desfere sobre o alvo nomeado. Em mãos dignas faria o bem, em mãos funestas o mal. Era isso que incomodava o ferreiro. O aceite da tarefa de forjá-la não implicava em escolher o destino da arma. Mesmo arma de tal poder. As responsabilidades seriam de Antônio. Silas acreditava que não haveria muitas pessoas capazes de invocar as forças dominadas pela espada. Esse pensamento o fez continuar o serviço. E queria ver-se livre o mais rápido possível daquela visita indesejada.

Não houve diálogo. Desde o som não natural que rompera o tedioso trabalho, ninguém ousou falar mais nada. Uma notável e crescente seriedade tomou conta de ambos. Cessaram as ironias, as palavras ásperas, o tom beligerante. Cessou a disputa. Só o desejo de ver a espada terminada tomava conta do coração daqueles homens.

Silas deu-se por satisfeito em relação ao comprimento da lâmina e escolheu uma empunhadura para duas mãos. Prendeu a peça à lâmina e a testou. Fez movimento para avaliar o peso, a velocidade em que cortava o ar, a lâmina longa era leve, característica do aço que trabalhara, outra teria muito mais peso. O ângulo da lâmina afiada como uma navalha promovia uma velocidade maior que outras espadas do mesmo molde. Era uma arma mortal. Reunia as qualidades de armas distintas. O fio de uma navalha, a velocidade de uma rapineira, a destruição de um montante e a leveza de uma adaga. Em mãos treinadas o possuidor seria praticamente imbatível. De todas as qualidades, Silas só não pensava se, as de origem arcana, seriam usadas, canalizar energia, principalmente.

Um som chamou a atenção de Silas. Leves passos ao longe. Leves, porém firmes. A noite era comum, sem outros sons para confundir-lhe os ouvidos, mas aqueles passos não o enganariam nem em tempestade. Era ela, a dona do armazém.

Silas imaginava o motivo da visita incomum e via tempos nebulosos se aproximando.

O som dos passos cresce em volume, embora sem acelerar o ritmo. E assim que a mata permite o vulto da mulher surge no caminho que levava à forja.

Há uma troca de olhares entre os homens.

Antônio tenta contato mental, mas é rechaçado. Silas era uma muralha. E naquele momento o ferreiro se preocupava com outra coisa.

– Cheguei tarde. – disse a mulher, chamada Cecília. – Quando senti o acúmulo de quintessência demorei em sentir a origem. Agora é tarde. Já está feita.

Cecília terminou a frase com a voz resignada, perdida em pensamentos tentando prever quem era o responsável por aquela irresponsável demanda. Virou-se para Antônio e, com um leve mover de olhos, fez flutuar a adaga terminada há pouco frente aos olhos de Antônio. Quando o forasteiro tentou se mexer não pode. Um campo de energia invisível o mantinha imobilizado. Nem falar podia. Tão forte era a magia usada pela mulher.

– Não o machuque, Cecília. Ele não nos fará mal algum. Já vasculhei a mente desse imbecil. E suas habilidades em magia são fracas.

– Mas como ele chegou até aqui? E como ele achou metal arcano?

– Aço.

– Que seja. Como ele fez isso? Vir aqui e com esse pedaço de vileza?

– Ainda não sei, mas já tomei as medidas necessárias.

– Quais?

– Lhe contarei, mas não com ele por aqui. Deixe-o aí. Vamos para minha casa. Lá lhe conto.

Cecília não permitia que Silas entrasse em sua mente. Tinha coisas que não queria revelar. E não conhecia a extensão do poder mental de Silas. Mesmo preparando defesas, uma vez em sua mente, tudo era possível. E Silas como antigo homem de costumes monásticos não achava que entrar na mente de uma maga poderosa como Cecília poderia ser sem consequências.

– A espada é só uma peça bonita e comum em mãos que não sejam as de quem entenda o que ela pode fazer. – disse assim que entraram na casa ao lado da forja.

– Sim. Mas ainda há magos poderosos por aí. E muito ambiciosos e abomináveis. Não sei se você fez bem em forjá-la.

– Ela só responderá a quem atender o chamado.

Cecília arregalou os olhos.

– Durante a forja ela foi imbuída com fogo santo. As lascas que usei para alimentar a fornalha são de carvalho regado com sangue de monges enclausurados. Durante todo o tempo fiz as sagrações, só há uma pessoa que reúne os atributos para empunhá-la e não ser queimada pela chama de Erethir. Só quem controla o fogo dos deuses pode usá-la.

Cecília calou-se. Olhou nos olhos de Silas e disse, pausadamente:

– Não conte comigo.

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