A Aldeia dos Magos Escondidos VI

Atualizado: Nov 21

– E os outros? Eles já sabem de Antônio?

– Não, Silas. O seu primeiro encontro com ele não teve nenhuma consequência. Ninguém além de nós sabe das intenções dele. E acho que só sabemos por que você leu a mente do idiota.

– Ele não tem muitas habilidades. Só conhece o básico. É um teórico. Como já lhe disse.

– Silas, temos que alertar os outros.

– Ainda não. Temos que saber quais as reais intenções dele estar aqui.

– Então descobriremos isso agora.

Cecília termina a frase levantando-se e caminhando ao encontro de Antônio que ainda estava paralisado na forja. Silas, assustado com a atitude da amiga, não fez nada além de segui-la.

A feiticeira, além de muito instruída nas artes mágicas, conseguia lançar feitiços sem preparações prévias. Ela e o ferreiro eram raros entre os usuários de magia. Muitos precisavam de tempo para criar poções, feitiços, usar varinhas, espadas, ou qualquer coisa que canalizasse poder.

Com um movimento de mão, Cecília, desfaz o feitiço imobilizante. A adaga que ainda flutuava, cai. Antes de a arma branca tocar o solo, Cecília diz:

– O que você quer? Acho que já entendeu que não sou tão paciente quanto meu amigo produtor de espadas.

Antônio depois de alguns momentos conferindo se seus movimentos realmente estavam livres, responde:

– Achei que não voltariam mais. Se quiserem saber mesmo, não me importo em dizer.

– Então, fale tudo.

– Acredito que Silas já leu isso em minha mente... Mas a verdade é que todos estão em perigo. Bento encontrou os Tomos Santos de Interon. Deseja matar magos ou sensitivos da magia. Incitar um levante civil e depois uma guerra etérea.

– Não é possível. Eles estão guardados e protegidos por monges feiticeiros no Monastério de Anteria. Ninguém pode tirá-los de lá. – disse incrédula, a Feiticeira.

– Ele conseguiu.

– Isso não importa. – Silas, não queria dar crédito às palavras de Antônio, mas também não duvidava dos poderes e da influência política de Bento. E se Antônio dissesse a verdade, teriam que ganhar tempo e não perdê-lo insistindo em conjecturas. – A menor possibilidade de alguém liberar almas e usá-las novamente tem que ser investigada e contida.

– Então, forasteiro, conte-nos mais. – Cecília, ao falar, não parecia alguém acostumada a receber não como respostas. Antônio, rapidamente, respondeu:

– Bento quer usar as almas dos mortos em uma guerra etérea.

– Já disse isso. – falou Silas, demonstrando certa raiva. – Queremos saber o que quer de nós.

– Quero ajuda. Não vou deixar Bento conseguir avançar em seus propósitos. E, em meus estudos, descobri como encontrar pessoas como vocês. Nascidos com a energia antiga correndo nas veias. Eu sou apenas um diletante, um apaixonado que venera as artes ensinadas aos escolhidos enclausurados em monastérios. Meu alcance é limitado. Não posso conter os avanços de Bento. Não posso sozinho. Tenho que arregimentar o máximo de pessoas dispostas a me ajudar.

– Quer um exército? – perguntou de modo áspero, Cecília.

– Não. Quero avisar os que podem lutar. Não quero...

– Quando você fala arregimentar, não criamos muitas possibilidades de interpretação à sua fala. Esse termo é beligerante. Se não é o líder do exército, o que quer?

– Não quero que sejam pegos de surpresa. Se agirmos rápido, nós não precisaremos lutar.

– Quais as opções? – disse Silas. – Seja claro.

– Perdão. Mas é difícil ordenar pensamentos com dois magos poderosos me acuando.

– Depois tomaremos um chá. – disse ironicamente. – Tenho certeza que Silas não se importaria em preparar.

– Sim, mas depois que nosso amigo desembuchar tudo que sabe.

– Silas... O aço é um presente para você. Sei que sabe empunhar uma espada como ninguém. E as características mágicas serão impressionantes. Sei de sua liderança nata. Já fez muito e sua reputação chega a todos os lugares que já ouviram histórias da guerra. A guerra se aproxima e você é a chave. Sei que lhe seguirão. Não a mim, mas a você. Cecília é a maior heroína que caminhou sobre a terra.

– Aff... Já começou a adulação. Fatos corriqueiros que se transformaram em mitos, lendas, histórias para entreter. Só quem viveu o terror da Guerra entende o que houve realmente.

– Vocês são imortais. Foi o preço que pagaram pela Trégua.

– E você veio cobrar. – disse Silas, lembrando-se do antigo juramento feito à luz da lua no cume da Montanha das Almas Perdidas.

– Não. Não tenho condições para isso. Só quero alertá-los. Para que não seja tarde.

– Sim. Sim. Mas se não quer lutar o quer? Pare de enrolação. – Cecília já estava demonstrando a diminuição contínua de sua paciência.

– Quero o Livro dos Feitiços de Marla.

– Sem chance.

– Sim, Silas. Há uma chance. Vocês são os protetores dele. Ele está...

– Não importa. Não há como.

– Mas vocês...

– Nós apenas estamos aqui para equilibrar a energia. Há demônios alados o protegendo. A floresta inteira que circunda as ruínas do templo é consagrada ao Mal. Não há força humana que possa entrar lá sem romper o equilíbrio. Mas usar almas é preocupante. Isso que me incomoda. Entendo que o livro de feitiços é uma saída. Mas essas forças são poderosas, quase incontroláveis. O que o livro versa não é para qualquer mago.

– E simplesmente não podemos confiar no que você fala apenas em função de uma coisa que não pode provar. Bento possuir os livros em si não é um problema. Ele não tem como conjurar nada. Precisa de sangue antigo, derramando em batalha. Poucos o possuem. A maioria está presa ao juramento da Trégua. Os desejos dele não se realizarão, a não ser que...

– Um imortal conspire contra e desperte o poder sagrado da Mística Ordem dos Magos Arcanos. – Antônio interrompe a fala de Cecília, que aturdida, aos berros, retoma a fala:

– Como ousa ofender um dos sete membros da Ordem? Silas! – disse Cecília, fazendo a adaga novamente pairar frente ao rosto de Antônio – permita-me matá-lo para defender a honra de sua Ordem.

– Não se apresse em derramar sangue. Ele deve dizer quem é a pessoa que nos traiu.

Antônio, suspira, franzi os olhos e, pesaroso, diz:

– Quem se uniu a Bento foi Clarice.

– Minha irmã? – Cecília diz, desfazendo o feitiço que conduzia a adaga e caindo de joelhos.

– Se cumpre a primeira profecia. O sangue será clamado e derramado por um dos seus irmãos. Os sete mestres agora são seis.

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