A Aldeia dos Magos Escondidos VIII

Silas, percebendo que a garganta ficaria seca com a conversa futura, resolve acender o fogão à lenha e preparar chá, mas não um chá qualquer.

– Melhor seria um barril de vinho. – deixou escapar seu desejo de beber outra bebida, menos saudável.

– Deixe esses prazeres para depois, não turve sua mente, precisará dela. – alertou Cecília, já antecipando o que a bebida preparada por Silas provocaria.

– Então vamos lá. Primeiro vou deixar claro que não mudou nada em relação ao que penso de você. Vou apenas investigar a marca e entender realmente suas intenções. – disse sério e com pitadas de agressividade.

Mentalmente, durante o preparo do chá, Silas e Cecília definiram uma estratégia: Averiguar a cicatriz e vasculhar a mente de Antônio. Somente depois iriam definir o próximo passo.

– Beba isso. – Silas entrega uma caneca com as ervas imersas em água fumegante.

– Quente desse jeito?

– Não está quente. As folhas são de uma planta que não conhece. Irá sentir os efeitos assim que as propriedades atingirem sua mente. E ficará em condições para o feitiço que abrirá a sua mente. Caso ela tenha sido enfeitiçada.

– Um soro da verdade?

– Beba logo.

Silas estava prestes a perder a pouca paciência que possuía. A infusão era feita de plantas que ativavam fisicamente caminhos para as profundezas da mente. Tal poção era proibida. Despertava memórias enterradas na escuridão da alma. Enlouquecia mentes fracas. Se fosse o caso, Antônio, não sairia sem sequelas da experiência.

“Tem certeza do uso dessa poção?”

“Caso ele seja um guardião, sairá ileso.”

As mentes dos magos dialogavam sem parar.

Após sorver a última gota da caneca. Antônio já não sabia descrever o sabor da bebida ou se a temperatura era alta ou baixa. Seus sentidos se perderam. Sentiu a luz oscilar e aos poucos a escuridão tomar conta de sua visão. Quando voltou a si, não estava mais no mundo material.

– Você me envenenou e estou morto?

– Não. Estamos no limbo. No limiar da fronteira entre a matéria e o espírito.

– Eu sabia. Você é um necromante.

– Não viemos aqui falar de mim. Agora que não há máscaras deixe-me guiá-lo. Feche os olhos. Olhe para dentro de si. E limpe sua mente.

Antônio percebeu seus sentidos ampliarem. Sentia que seus olhos eram mais aguçados, seu olfato mais descritivo, sua audição direcionada aos mínimos detalhes sonoros. O paladar, majorado ao ponto de descrever quais bebidas passaram pela caneca antes de o chá de erva mágica, estar ali, só era comparado ao tato que sentia texturas nas tramas do tecido de suas vestes que jamais imaginou que pudessem existir.

Fechou os olhos como pedira Silas e mergulhou em um turbilhão de sensações. Imagens de acontecimentos, passados, presentes. Eventos que não sabia se vividos por ele ou por outra pessoa. Viajou por lugares desconhecidos, terras estranhas. Até se perceber acorrentado em um calabouço e sentir o cheiro de carne queimada. Urrou de dor.

Um estrondo trouxe-os novamente à matéria. Abriu os olhos e desmaiou.

– Ele é um Guardião. – Silas segurava os ombros de Antônio para impedir a queda iminente. – Mas levarei dias para recuperar a mente devastada. Há barreiras mágicas, feitiços fortes criando obstáculos nas memórias dele. E muitas memórias falsas. Talvez seu nome nem seja Antônio. – disse Silas à Cecília, sem guardar segredos de Antônio. Esse em instantes passou de inimigo a um possível aliado. Vítima era certo que era.

O desmaio não durou muito tempo. Antônio resistiu bem ao chá que potencializava as energias mentais. Só quem era iniciado aguentava os efeitos da bebida. Assim, Silas e Cecília, já tinham mais elementos para acreditar que as cicatrizes eram verdadeiras e não algum tipo de despiste.

– Podem parar de falar como se eu não estivesse aqui e me explicar o que está acontecendo? – disse Antônio, com dificuldades para abrir os olhos e sentindo o estômago embrulhando.

– Sim. Agora teremos uma longa conversa. – falou Silas, resignado.

Cecília que testemunhava tudo calada. Resolveu iniciar a discussão.

– Há certas portas que deveriam ser intocadas. Vedadas. Até mesmo destruídas. Mas as marcas de fogo que carrega em sua pele são provas que o Mal não adormece por muito tempo.

– Sim. Esse provérbio é antigo. Mas o que são minhas marcas. Durante minha permanência na fronteira tive uma visão. Estava preso, acorrentado e me queimaram. Aí acordei e tudo escureceu. Antes dessa visão vivenciei outras menos reais. Pareciam lembranças.

Ao terminar de explicar sua experiência, foi a vez de Silas falar:

– Você é um Guardião da Chama de Erethir. O que viu são lembranças suas. Ocultas em sua mente. Você deve ter sido capturado, torturado e implantaram memórias novas, porém falsas. Talvez seu nome nem seja esse. Há maneiras de descobrir o que aconteceu a você, mas adianto que não será confortável. Entretanto, vendo sua recuperação após a beberagem, contrafeitiços não lhe farão mal. A muralha é grande, mas não intransponível. – Silas termina a frase, olhando para Cecília. Já não lhe transmitia mensagens mentais. Antônio, ainda permanecendo uma incógnita, já não era uma ameaça. Silas estava mais tranquilo. Apesar das notícias trazidas por Antônio não serem digeridas facilmente.

– Silas. – disse Cecília com tom pesaroso. – Não há muita facilidade me destruir ocultamentos mentais. Feitiços assim podem consumi-lo. Precisamos ter cuidado. – voltando-se para o Forasteiro, Cecília, fala docemente:

– Desculpe nossas atitudes. Entenderá em breve nossos motivos, assim que entendermos o que o trouxe aqui. Não acredito que seus motivos sejam tão nobres. Se há bloqueios mentais, e está marcado com o Sinal da Penitência da Guilda, você pode ser um espião. Você pode carregar algum feitiço que mais cedo ou mais tarde o fará se voltar contra nós. Tudo está muito nublado. Não vemos sentido em nada. Por favor, nos perdoe.

Antes que pudesse perguntar o que deveria perdoar, Antônio sentiu um baque no peito. Era a mão de Cecília em estado etéreo adentrando seu peito e apertando seu coração.

Silas, pego de surpresa pela atitude arriscada de Cecília, arregalou os olhos e começou as sagrações protetivas. Balbuciava palavras em língua antiga, repetia frases de poder, alimentava a energia de Cecília para que o ritual não a consumisse e assim não concluísse a tarefa.

Uma onda de choque oriunda do peito de Antônio varreu toda a dimensão do cômodo. Objetos caíram. Móveis estremeceram. O Mal estava expulso. Cecília esgotada. Silas embasbacado.

– Nunca mais tente um exorcismo sem minha autorização.

– Peguei o maldito de surpresa.

– Obrigado, amigos. Agora estou livre.

As palavras de Antônio aliviaram os corações dos magos.

O semblante do forasteiro era outro. Renovado. Reluzente.

– Agora podemos, enfim, traçar as estratégias.

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