A Aldeia dos Magos Escondidos XII


Cecília retornara à sua casa.

Anna estava ansiosa.

A mãe ficara estranha com o relato do encontro do Ferreiro com o Forasteiro, mudara de semblante, pegara uma vara de cedro emendada em uma empunhadura de ébano; juntas, as partes distintas formavam uma peça do tamanho de seu antebraço; e dissera que a ensinaria a usar.

Anna sabia que certos objetos eram canalizadores de energia. Tais objetos eram manipulados por iniciantes na magia. Alguns limitavam o poder do mago, outros ampliavam. Havia uma infinidade de objetos assim. Desde armas, roupas, colares, pulseiras, instrumentos musicais, etc. Cecília se referia a tais coisas como artefatos, cheia de cerimônias. Anna não era dada a esses rituais ou cerimônias da palavra, da eloquência. Esse era o momento onde Cecília ficava nervosa com a filha. A expressão era tudo. A manifestação do pensamento por meio da fala ou do gesto era tudo. Sendo assim, a razão da magia era o som, o movimento. Mas essa lição nunca era ensinada. Há muitos anos Cecília adiava a lição mais importante: A manipulação do Poder. Mas a hora chegara. Cecília presenteara Anna com a varinha de cedro e ébano. E cerimoniosamente, ao entregar a varinha, Anna notara que o momento estava próximo.

Finalmente Cecília voltara.

– Onde esteve, Mãe? Estava quase saindo ao seu encontro – disse Anna com notável preocupação.

– Fui à forja. – Cecília disse seca, intencionando terminar logo com possíveis perguntas. Mas não obteve sucesso.

– Fazer o quê? Não me disse nada. Saiu como se fosse salvar alguém. O que houve?

– Ainda não sei o que houve – disse Cecília, com olhares perdidos, de quem estava com a mente longe dali. – Acho que devemos conversar. – já com mais decisão na voz, falou.

Anna assustou-se com o modo que sua mãe pronunciara as palavras. Havia uma solene reverência quanto ao assunto que deveria ser tratado e que Anna fazia conjecturas.

– Sobre? – disse tentando obter a resposta à sua previsão.

– Magia. Nosso passado e a verdade sobre nossa família e seu propósito.

– Sabia. Já sentia algo assim.

– Previra ou leu minha mente? – Cecília pergunta com medo da resposta da filha.

– Não sei. É como se uma nuvem tomasse forma. Pensamentos que me chegam como lembranças disformes de sonhos que tive. Ainda não entendo. – disse olhando para o chão, desviando os olhos do olhar da mãe, quando, sem entender como, levantou a mão e aparou uma bofetada que a mãe intencionou, rapidamente, dar-lhe no rosto. Ambas se assustaram.

– Pelo visto você tem premonições. Antecipou o golpe. É uma boa habilidade. Esquivar sempre é bom. Mas se pode prever o golpe, é melhor que assim seja.

– Podemos adiantar nossa conversa sobre passado, família e afins? Já sou mocinha o suficiente? – Anna carregava na ironia. Apesar de ter duas décadas de idade, a mãe lhe tratava como criança.

– Após comermos. Estou com fome. – Cecília queria ganhar tempo para organizar seus pensamentos.

Mãe e filha prepararam a refeição como sempre. Felizes, conversando sobre amenidades. Anna tentando disfarçar a ansiedade. Cecília tentando não demonstrar preocupação. Finalmente, após juntarem todas as vasilhas e utensílios usados durante a refeição sobre a pia, para juntas lavarem e guardarem como sempre faziam, Cecília iniciou a conversa:

– Esperava ter mais tempo, ensinar você mais sobre a magia que se move no mundo. Mas o destino nunca nos é como queremos. Ele parece ter gosto em decepcionar alguns. E me vejo nessa posição. Mas vamos lá. Como resumir dois mil anos de história?

– Prefiro saber em detalhes. – disse Anna tentando animar a visível tristeza que crescia no rosto de Cecília. – Não me poupe.

– Foi isso que tentei minha vida toda. Mas não posso blindar você para sempre. Haverá a hora que notará uma característica que afeta a nós.

– Coisas de menina?

– Não. Antes fosse tão simples. Imortalidade.

Um prato cai e se parte em muitos cacos de louça branca.

– Bom. Sua reação foi melhor que a minha. Eu desmaiei. Você só largou um prato.

– Mas isso é impossível? – questionou Anna, assustada.

– Ser de uma família de magos imortais? – a pergunta foi retórica.

– A imortalidade em si. Só sete famílias, segundo o que você me ensinou são imortais. – Anna balançava a cabeça, olhava para vários lugares na casa. Como se o movimento negasse a verdade ou como se seus olhos pudessem encontrar alguma resposta. Olhava para vários lugares, menos para os olhos da mãe. Olhos que estavam fixos nela.

– Não procure respostas. Sinta. Elas virão. E aceite. Temos muito que conversar sobre. Além de preparar você e recuperar o tempo perdido. Deveria ter treinado suas habilidades antes. – lamentou Cecília.

– Mas... A senhora fala como se eu fosse aprender uma lição de matemática ou uma maneira nova de cozinhar um pedaço de carne. Pelo que já me ensinou, não funciona assim.

– Para os que não são natos, não. Para eles o caminho é mais longo, teórico. Você é diferente. Nós somos diferentes. Em nós a magia flui sem artifícios exteriores. Somos condutores natos.

– Então a varinha é desnecessária?

– Não. Você irá usá-la. Ele vai limitar seu poder e assim não destruiremos a aldeia.

– O quê?

– Vamos descansar e dormir um pouco. Amanhã bem cedo iniciaremos seu treinamento.

– Dormir como? Mãe? Eu não entendo. Isso sempre me pareceu histórias fantasiosas para crianças.

– Não entende, mas sente. Vejo pela sua reação. Está tentando ver lógica. Achar o sentido. Outra pessoa teria ridicularizado ou se desesperado. Mas você sente que há algo.

Anna não respondeu. A fala de sua mãe não era a típica situação onde a mãe que conhece amplamente o filho, lhe relata análises certas sobre amenidade, como a chuva que cairá ou a solução de algum problema banal. Cecília possuía um tom diferente. De quem já passara por aquilo. Havia mais empatia em sua voz que normalmente havia quando falava sobre esse assunto. E magia era assunto recorrente naquele lar.

Após limparem juntos os cacos que antes eram parte de um prato, foram para o quarto de Cecília. Anna pedira para dormir com a mãe. A casa tinha três quartos. Um para a Cecília, outro para Anna e o terceiro para os livros. Anna era educada pela mãe. Ao passarem pelo quarto de estudos, Anna disparou:

– Sempre estranhei você me ensinar sem abrir um livro sequer. Queria saber como guardava tanto conhecimento histórico, geográfico, religioso...

– E arcano...

– Principalmente. Nunca imaginei que fosse somente uma questão de possuir uma boa memória. Um dia falei que era preciso de duas vidas para aprender tudo e você riu. Agora faz sentido.

– Eu queria dizer que eram dez vidas. Mas não era hora. Se soubesse que você teria a reação que teve, não teria medo de dizer.

– Mas... Mãe... Há em mim uma mansidão que nunca senti. Uma emoção diferente. Como se nossa ligação fosse espiritual. Minha calma vem disso. Desde há primeira hora após o crepúsculo, fui tomada dessa sensação de repouso. Mas sinto em meu íntimo. Não é o torpor do vinho ou de bebidas de ervas. Nem nada físico. É na alma.

– Houve uma abertura no véu. Isso que lhe fez e faz sentir assim. Isso também aconteceu há dois mil anos. Mas com outros propósitos e amplitude de energia. Não posso mais esconder nada. Vou lhe falar tudo. Vamos, pelo menos, conversar deitadas. Assim quem sabe descansamos. À noite será a teoria. E, pela manhã, a prática.

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