A Aldeia dos Magos Escondidos XIV

– Nossos Deuses são estrangeiros.

– Isso explica a diferença entre nossos nomes e os nomes santos. – associou Anna.

– Apesar de sermos um povo com costumes próprios: tradições, lendas, folclore, etc. Herdamos nossos deuses das crenças dos antigos guerreiros que conquistaram nossas terras. Por isso os nomes estranhos em nossa língua. Apesar de que o tempo fez que adotássemos algumas coisas e as modificássemos. Como erigir, por exemplo. Termo que vem do nome de nosso Deus: Eretor.

– Mamãe, quando disse que teríamos teoria durante a noite, eu pensei que falaríamos de magia e não de religião. – Anna não poderia deixar de protestar. Cecília prometera falar de teoria à noite. Anna imaginou que eram teorias sobre artes mágicas e não ciências políticas e religião.

– Isso está muito mais ligado que imagina. Tudo é baseado na religião. Política, guerras, costumes, lendas, tudo. Principalmente quando nos faltam respostas. Antes de o Primeiro Despertar era diferente. Cada povo professava uma fé. Cada povo tinha uma história de criação do mundo. Estudiosos chamavam isso de cosmogonia. Apesar de diferentes em um primeiro olhar, elas eram muito parecidas em sua essência. Um grande mestre (que não me lembro do nome) dissertou sobre essas semelhanças. Escreveu muitos tomos sobre as semelhanças e também visitou povos isolados que mesmo sem conhecerem as lendas de criação uns dos outros ou a catequese imposta por povos colonizadores, contavam as mesmas histórias, como se todos os povos possuíssem um ancestral comum.

– Adão e Eva? – disse irônica, a dublê de aprendiza e filha.

– Quase isso. As cosmogonias se assemelham. Todas têm alguma narrativa onde há pontos em comum. Desde inundações; Deuses que ofertam sua vida em sacrifício; guerras entre os que estão ao lado de Deus e os caídos, guerras no mundo espiritual onde a recompensa seria nossas almas. Uma que sempre li – e se repete – é a do deus que morre e, no lugar de seu sepulcro, brotam plantas divinas que alimentam seu povo em tempos difíceis. Isso ocorre em povos distintos que habitam a ilhazinha mais longínqua ou nas montanhas mais isoladas. Sem diferenças de tempos e com distâncias imensas.

– Tempos e distâncias?

– Sim. Ficou vago, né? Ocorrem ao mesmo tempo, mas as aldeias são tão distantes que seria impossível uma imitação na narrativa. O que leva a crer que tais eventos aconteceram realmente. Imagine uma civilização tão isolada que a escrita e a língua são tão únicas que apenas poucos nomes são foneticamente parecidos com os de outros povos. Não seria estranho se dissesse que esses nomes são sonoramente parecidos com nomes de deuses?

– Sim. Uma chance em um milhão, mas é só coincidência. Pura sorte talvez?

– Seria se nos relatos os homens não descrevessem elfos, anjos, seres iluminados, criaturas aladas, personagens etéreos, demônios, adoradores de Orco, etc.

– Assim muda de figura realmente...

– E o que foi o Primeiro Despertar?

– Temia que perguntasse isso, mas não tenho mais como lhe proteger mais. – Cecília demonstrava muita apreensão ao falar, era um assunto que lhe custava muito – Houve um tempo onde cada povo tinha sua religião e vivia bem com isso. Como lhe disse, nossos deuses são estrangeiros, pois somos parte do Conquistados. Reis antigos faziam questão de manter-nos sob essa alcunha para que nunca esquecêssemos que estávamos vivos por sua misericórdia e clemência. Isso foi assim até que um mago poderosíssimo, que se comunicava com espíritos, resolveu subverter as regras naturais e trouxe, à nossa realidade, espíritos malignos do submundo. Há que diga que ele fez um pacto com Orco. Quem pode lhe falar mais sobre isso é Silas. Ele estudou e morou durante boa parte da vida em monastérios.

– Isso é verdade? O ferreiro é um monge?

– Clérigo guerreiro. Monges só rezam e estudam. Se o chamar assim, despertará uma fera.

– Obrigada por avisar. Ele acabou de chegar. – disse olhando pela janela e concluiu baixinho – justo na hora mais interessante. Pelo menos ele pode continuar de onde a senhora parou.

– Não conte com isso.

Silas e Antônio encaminhavam-se em direção ao armazém, Anna os vira da janela da sala que se localizava acima, no andar superior do prédio. Cecília adiou a conversa e desceu para abrir a porta.

– Obrigado pelo chá. – agradeceu Silas, após se acomodarem na sala de estar. – Antônio retornará para a sua hospedagem na estalagem e amanhã tudo voltará ao normal, refeições na taverna do Urso Albino, conversas procurando trabalho. Nada que chame a atenção para nós. Tenho que contatar alguns conhecidos e preciso de alguns dias para preparar a viagem. Precisamos de mais informações.

– O que pretende? – perguntou Cecília. Com aparente medo da resposta que imaginava ser pronunciada pelo ferreiro.

– Irei atrás dos cinco mestres. Reunir a Ordem Mística. O de sempre. Nesses milênios ainda não desenvolveram muitas possibilidades em termos de estratégia de guerra. Precisamos aumentar nossas fileiras. Mesmo que com apenas cinco magos velhos.

– Você não pode conceber uma insanidade dessas?

– Insanidade?

– Combater com membros da Ordem apenas. Se quiser perder, não lute. Poupe tempo. –Cecília mostrava-se bem irritada. Conhecia bem o amigo. Sabia que ele envolveria o menor número de pessoas em qualquer ação onde mostrar sua verdadeira face fosse necessária. Silas manteria para sempre a promessa de não revelar a Mística Ordem a não iniciados.

– Cecília! Não podemos ainda nos revelar. Isso provocaria uma sucessão de eventos que destruiria a nossa sociedade. Mitos e lendas caminhando sobre a terra? Isso despedaçaria toda estrutura que existe. Há muitos corrompidos que se bandeariam para as hostes do mal. O mundo não é como antes.

– Você fala de um mundo que há dois mil anos está adormecido e quase na seara do esquecimento. Não podemos pensar que nossa maldição... – Cecília é interrompida por Silas:

– Nascer com um dom não é maldição. Isso é somente um ponto de vista. Ferramentas comuns em mãos erradas são armas. Não é o nosso caso. Nem das famílias que formam a Mística Ordem.

– Se a ti nossa verdade é um dom, então é hora de usá-lo.

– Você está treinando sua filha? – Silas disse com os olhos arregalados. Olhando surpreso e assustado para Cecília.

– Não leia minha mente. Se for para quebrar essa promessa, quebre todas.

– Não, mamãe. Eu que usei de telepatia.

Silas olhou atentamente Anna. Olhos dúbios: espantados e orgulhosos.

– Há quanto tempo está treinando? Isso necessita de um grau alto de estudo.

– Em verdade não fiz tantas aulas. – Anna estava sendo sincera. Sua mãe gastava mais tempo dizendo o que não fazer do que ensinando lições efetivas.

– Ela não se aliará a nós. Nem tente propor nada.

– Não, Cecília. Não farei isso... – Silas sentiu uma emanação de energia e não pode conter a leitura mental. A menina era rápida e intensa em suas habilidades. Ela sem que ele sequer terminasse a frase, previu e revelou o que leu na mente do ferreiro.

– À nossa filha? – disse Anna.

9 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
 
  • Facebook
  • Instagram
  • YouTube
  • Tumblr

©2020, Literatura Errante®, por Instituto dos Artistas Errantes.