A Aldeia dos Magos Escondidos XV

Atualizado: Fev 19

Silas ficara boquiaberto com a fala de Anna. Olhara para Cecília em um explícito pedido de auxílio, que lhe fora negado com um leve balançar negativo de cabeça.

– Eu sou filha de magos. – Anna vasculhara a mente de Silas por informações e obteve mais que o esperado. Não apenas a confirmação da paternidade, mas várias lembranças tristes de noites passadas em claro, nas quais Silas chorava não poder acompanhar o crescimento da filha, seus primeiros passos, palavras, descobertas, a dor de não poder sustentar a filha em momentos de frustração, perdas, dúvidas. Essas emoções amainaram qualquer sentimento ruim que pudesse ter. Afastou a frustração, a sensação de abandono, correra e abraçara Silas tão forte que ele não fez nada a não ser retribuir o abraço.

– Me perdoe... Por favor, foi necessário.

– Eu sei... Consegui ver seu sofrimento. Na verdade, senti seu sofrimento. – Anna meio sem jeito aproximou-se de Silas e o abraçou com força e lágrimas nos olhos.

– Mamãe sempre disse que meu pai fora um grande e honrado homem e que deveria me orgulhar muito dele. Agora entendo o que ela queria dizer.

Silas não encontrou palavra alguma para responder à filha. Apenas retribuiu o abraço. Cecília olhava ambos. Sem reação. O mundo em que vivera até aquele momento não existira mais.

– Cecília... – Silas olhava para a feiticeira, em claros pedidos de socorro. – Você sabe o que isso significa?

“Não. Não quero acreditar.” Pensou, avaliando as consequências.

– Silas. Não acredito que isso possa ser um novo despertar.

– Se não for. Nossa filha é poderosíssima.

– Também não quero pensar nisso. – a feiticeira tinha muitos motivos para não querer um antecipado alvorecer de magia em sua filha. Eventos assim não são naturais. E ela temia as causas desse afloramento de dons.

– Cecília, precisamos conversar sobre isso. Está acontecendo alguma coisa e não podemos fechar os olhos para isso somente porque não queremos enfrentar nossa missão.

Antônio olhava tudo e sem pensar se era o momento certo para formular qualquer questão, perguntou:

– Isso tem a ver com os planos de Bento? Despertar os mortos como ele planeja pode provocar um despertar mágico em usuários de magia? Mas e os anos de treinamento? Exercícios e prática?

– O equilíbrio nunca é quebrado na natureza. – disse Cecília, notando que Anna estava prestes a fazer pergunta parecida – Isso é como uma lei. Já notou que o número de presas e predadores sempre tem algo em comum? Nunca o número de gazelas vai ser maior que o de capacidade da natureza alimentar. E nunca haverá tantos leões ou lobos para dizimar uma população de zebras. Há um equilíbrio.

– Achava que isso era apenas uma questão de força do predador e sorte da caça. Até nisso o destino se intromete?

– Administra seria uma palavra mais correta. Há animais que mudam de sexo para manter a população se perpetuando. A luta é sempre contra a extinção de qualquer grupo.

– Bento não pensa assim. – disse Antônio, um pouco para parar a aula de Cecília e um pouco para voltarem a discutir os problemas que se aproximavam.

– Cecília. – chamou Silas com gravidade. – Não posso mais adiar minha jornada. Preciso visitar os lugares onde sei que há a possibilidade de encontrar um dos cinco mestres. – olhando para Anna. – Mas voltarei para você minha querida.

Anna olhou o Ferreiro, mas sem os olhos de filha de uma amiga, olhava agora com os olhos curiosos de uma filha que queria recuperar de certa forma o tempo perdido.

– Não há como você declinar de suas obrigações? Estamos aqui, longe de tudo... – apesar de conhecer parte dos relatos históricos e a gravidade da situação, Anna acabara de descobrir o paradeiro de seu pai. Não era em um barco mercante, não era em tavernas à beira de estradas, nem em hospedagens, muito menos no Além. Ele estava ali, de pé à sua frente. E estivera por perto todos os dias de sua vida, isso de certa maneira diminuía a dor. – Não nos abandone. Acabei de ter conhecimento da melhor notícia de minha vida.

– Justamente por isso tenho que ir. Para lhe proteger. Antes lutei por outros motivos. Agora, mesmo não dando tanta importância para esses mesmos motivos, preciso tentar impedir Bento. É o certo a se fazer e agora há você. Há dois mil anos eu estava sozinho, lutei pela glória, mas paguei um preço caro pela vaidade. Agora lutarei pelo que é certo. Não posso, mesmo que eu queira muito, abandonar minha missão.

Anna chorou, com medo.

– Não há outra maneira, minha filha. – disse em consolo, Cecília. – Silas precisa fazer alguma coisa para parar o Mal. Ele e eu fizemos um juramento. Nossa imortalidade é uma das causas desse juramento. Se um de nós descumprir nossa missão, o equilíbrio se quebrará e tudo será perdido. E você leu minhas memórias. Foi fundo em minhas lembranças. Sentiu todo o amor que sinto por você e reviveu todos os momentos que estive ao seu lado. Não estava tão próximo fisicamente, mas sempre estive aqui. Foi testemunha da minha apreensão quando Antônio chegou à nossa aldeia. Ali eu senti que a calmaria de nossas vidas poderia ser ameaçada. Deixo você, mas prometo que será breve. – olhando para Cecília que estava muito emocionada. – Irei atrás de Faldang. Ele deve ter sentido alguma coisa. Tenho que descobrir mais informações sobre o que está acontecendo.

– Mas, Silas! Só a viagem até Harion levaria semanas. – Cecília já demonstrava que não concordava com a ideia.

– Sim. Mas não há muitas alternativas. Ele é o único em quem eu confio. Ele, dos cinco que restam, é o único que nunca se dobrou ao vento de opiniões contrárias. Desafiou os poderosos. Sempre esteve com um alvo nas costas. Tenho que procurá-lo.

– Mas como será essa jornada? – Finalmente Antônio encontrara uma brecha para falar. Enquanto eles tratavam de assuntos de família ele ficara constrangido, embora muito feliz pela descoberta da garota.

– Sozinho, à noite e por caminhos pouco usados.

– E as provisões? Mesmo em rotas de comércio ou caminhos mais rápidos, não caberia tudo em um bornal! Como você irá percorrer todo esse trajeto?

– Não se preocupe. Há lugares que ainda recebem pessoas como eu?

– Um mago?

– Ainda há pessoas que possuem boa índole. Conto com isso e um pouco de sorte.

– Além da espada que fizera com aço arcano. – disse Cecília apontando a espada embrulhada em um pano e amarrada com corda fina de sisal.

– Sim, Cecília. Ela não terá a mesma força que teria em suas mãos, mas acho que mesmo velho ainda tenho alguns truques. – Antônio respondeu dando tapinhas no pacote que continha a espada, e continuou:

– Nunca é demais ser precavido.

– Prometa que voltará. Por todos os Deuses desde os omissos e os adormecidos, prometa, por favor. – as lágrimas eram visíveis nos olhos de Anna. – Fique aqui conosco essa noite. Preparo um jantar para o senhor. Fique. Amanhã inicie a viagem. Mas fique essa noite.

– Ah, minha querida. Como eu gostaria de ficar, Mas seria um atraso que não posso me permitir. Ficarei em seu coração e você me acompanhará em todos os minutos. Voltarei, prometo. Mas tenho, infelizmente, que carregar esse fardo. Nenhum sacrifício será em vão. Guarde essas palavras. Nenhum sacrifício é em vão. E não são deuses. Há um só Deus. E ele guiará meus passos e minhas mãos. Como sempre o fez.

Abraçaram-se com ternura e amor jamais vistos. Cecília, já sem ter que esconder a verdade dos que estavam em sua casa, ao perceber que Anna afrouxara o abraço, agarrou o Ferreiro e o beijou violentamente.

– Eu vou deixar você partir, mas... Eu mesma ressuscitarei você em rituais negros para lhe matar novamente se não voltar.

– Não se preocupe. Eu prometo. – Virou o rosto para Antônio e disse:

– Vamos embora, amigo. Vá para a estalagem e fique lá. Proteja as duas e crie alguma coisa para fazer. Talvez seja uma boa ideia ir vez ou outra na forja para fingir que pedi que tomasse conta para mim enquanto faço uma viagem para comprar insumos. Invente o que achar melhor. E fique atento aos forasteiros eles nunca chegam aqui com boas intenções. Sem ofensas, claro. – mesmo na tormenta, Silas, tentava manter a atmosfera leve.

– Sou um guardião em essência e treinamento. Não deixarei que nada aconteça a elas. Vá em paz.

– Cecília, crie todos os feitiços de proteção que puder. Crie muralhas psíquicas para que viajantes sejam confundidos em todas as estradas que conduzem a esse lugar. A Vila do Morro do Vinhedo Velho deve desaparecer, pelo menos por um tempo. As fronteiras de nosso país já devem ter informantes. Preciso ir.

As despedidas, como todas foram regadas por lágrimas e promessas. Antônio sentiu-se mal testemunhando tudo aquilo. Queria ajudar de alguma forma e no caminho para a estalagem, não se conteve e perguntou:

– Tem certeza que quer ir sozinho? No caminho para a casa de Cecília você não me disse que esse mago estava em outro país. – Antônio sentia-se forçado a oferecer mais ajuda. Possuía uma dívida de vida para com o ferreiro. Precisava, sentia-se impelido fortemente a retribuir o bem que Silas fez a ele. – Como ira percorrer todo esse caminho?

– Eu preciso que fique aqui. Elas não precisam de muita proteção, mas não quero que sejam pegas de surpresa. Mesmo uma feiticeira poderosa como Cecília não é infalível ou desprovida de fraquezas. Ela precisa de alguém que seja como um posto avançado, alguém que possa prever ou detectar alguma ameaça e sei que você tem essa competência. Confio em você. E sozinho viajarei mais rápido. Se sente que há alguma obrigação entre nós e deseja quitar essa conta, cuide delas.

– Com a minha vida. Com a minha vida. Quanto a isso não se preocupe. Mas como vai chegar até Harion? E se precisarmos ir até você?

– Ouça os relatos. Tenho certeza que os ventos carregarão todas as histórias mais rápido que pombos, corvos ou corujas. Quando a morte soprar seu hálito sobre os homens, você saberá onde me encontrar.


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