A Aldeia dos Magos Escondidos XVI


– Tenha cuidado, meu caro. Cuidarei de sua família, se me permite chamá-las assim.

– Elas são tudo que tenho. Tomarei cuidado. – disse Silas, sombrio, ajustando seus pertences, tentando ao máximo esconder a espada. Ambos estavam em frente à estalagem. Era noite, ninguém andando nas ruas de Vila do Morro do Vinhedo Velho.

– Sorte a sua ela não chamar muita atenção.

– Visualmente ela não tem nada que desperte interesse, realmente. Mas a essência do aço arcano vai atrair muita gente. Espero que atraia as certas. – Silas deixou escapar um resquício de preocupação em sua voz. Mesmo não temendo possíveis brigas, assaltantes, mercenários e ou qualquer tipo de criminosos que pudesse encontrar no caminho que iria percorrer até encontrar Faldang, não queria chamar a atenção de feiticeiros, tanto os do Bem quanto os do Mal.

– Tem ideia de onde ele pode se encontrar? O tal mago?

– Apenas rumores.

– E como vai se virar durante a viagem? Comida, lugares para dormir? Você irá atravessar rios, planícies, vales, Não será uma viagem fácil.

– No caminho posso trocar trabalho por comida, sou ferreiro lembra? Talvez funcione bem como disfarce. Nunca relacionam trabalhos brutos braçais com alguém que faça qualquer magia. Assim serei mais um na paisagem. Espero...

– Se não visse com meus próprios olhos o que é capaz de realizar, não acreditaria também. Seus talentos podem ser sentidos, mas não a intensidade de sua força.

– Me esconderei bem. Até mais. Voltarei. Ou você sentirá forças negras lhe atormentando caso falhe.

– Não falhará. Até breve. Que a Luz de Erethir ilumine seu caminho.

– Serei guiado por ela.

E se foi...

Antônio olhou ao longe o vulto de Silas sumir na escuridão que abrangia a estrada em direção ao leste. Ao lugar do Sol Nascente.

– Que ele encontre luz e traga paz. – Antônio recolheu-se à estalagem e iniciou uma série de preces. Suas memórias de Guardião estavam voltando. E baixinho pronunciava as ordens de proteção que conhecia de cor.

“Sou um teórico da magia, um sensitivo, mas as preces místicas servem a todos.”

Era uma questão de fé. Rezar as preces e deixar que as forças místicas realizassem seu trabalho.

Antes de se dirigir ao quarto pediu ao atendente que estava trabalhando no período noturno para lhe preparar um café forte. A noite seria longa e em claro.

“Que todos os Santos Magos o protejam.”


Silas caminhava com firmeza. Conhecia bem o caminho.

A estrada que subia o morro, tal uma cobra que se enrola em um tronco de árvore, era o único acesso à vila possível de transpor a pé ou de carroça, tanto para pessoas quanto animais. Uma boa característica desse relevo era, tal caminho, ser a única maneira de chegar à aldeia. Outros caminhos eram perigosos: pedras soltas, inclinações severas, árvores ou arbustos que se soltavam da terra quando forçados ligeiramente em tentativas de usá-los para escalar. Quem fundou a Vila - ou Aldeia como carinhosamente seus moradores a chamavam -, pensou em protegê-la de possíveis invasores ou sem querer fez que ela se criasse em um lugar protegido pelas muralhas naturais que a cercavam. Será que o destino quis assim? Ou a escolha de seu fundador foi proposital? Duas perguntas que o ferreiro sempre se fazia. E esse era o motivo de ter escolhido aquele lugar para morar: Proteção.

Quando estava a quase uma légua da última construção sentiu atravessar uma barreira de proteção.

“Cecília.”

Silas sorriu e caminhou mais confiante. Ela preparara as proteções que ele pediu. E essa primeira era muito espessa.

“Irei até o Vale das Brumas Eternas. Lá encontrarei abrigo.”


Anna tinha a mente fervilhando. Ainda não tinha processado todas as memórias de Silas. “Meu pai.” Pensava com uma alegria no coração e um sorriso no rosto. Ela ria mais ainda quando percebia que ele esteve ali o tempo todo. Olhando por elas, cuidando, um pouco distante é verdade, mas pronto para atendê-las quando qualquer problema aparecia. Mesmo que o problema fosse uma faca sem fio. “Como fui boba. Deveria pelo menos perceber que no mínimo ele queria algo com minha mãe. Nunca a deixava um dia sem vê-lo.” Claro que Cecília ser dona de um armazém e comercializar produtos que ele sempre necessitava era uma ótima desculpa para ir lá sempre. Mas os olhares, as longas conversas, e eterna disposição em ajudar. “Boba demais. Como nunca percebi?”. Anna divertia-se com esses pensamentos. Estava com o coração leve, aliviado realmente. Mas Cecília não. Anna não deixara de notar a desmedida preocupação que pairava sobre sua mãe desde a partida de Silas, esse que agora deveria se acostumar a chamar de pai.

“Preciso ficar mais próxima dela.” Considerava Anna.

– Mamãe! – chamou com o máximo de doçura que pode imprimir à voz.

– Estou na cozinha. – respondeu automaticamente e demonstrando que seu ânimo estava oscilando.

Anna vai à cozinha e ao passar pelo corredor de acesso pega um vaso de flores para aguar e tentar fazer sua mãe se animar. Flores eram coisas que ela amava.

– Esta está com sede. – disse, colocando o vaso sobre a pia; em seguida, pegou um vasilhame com água e despejou seu conteúdo, com calma, sobre o flor.

– Sim, filha. Esqueci-me de fazer isso.

– Não há problemas. Posso cuidar de todas as tarefas desde que a senhora não se apague. Silas... – corrigiu a tempo – Meu pai. – continuou com um meio sorriu, colocando o vasilhame sobre a pia. – Me pai vai voltar. Tenho certeza.

– Ele é um turrão. – havia uma repreensão no tom de Cecília quanto a essa qualidade de Silas. – Ele não ouve ninguém. Algumas vezes eu conseguia convencê-lo de algo, mas ele é turrão. Um teimoso impetuoso.

– Mamãe. Eu compartilhei todas as lembranças dele. Sei do que está falando. – Anna queria dar razão à Cecília na esperança de confortá-la. – Por outro lado, ele é poderoso. Um mago sem rival à altura.

– Conhecimentos de magia antiga e poder não o tornam invulnerável. Nossa imortalidade não nos protege da destruição. Apenas a morte natural nos foi tirada.

– Mas quem poderia ser páreo ao meu pai?

– Um traidor com uma faca durante o sono.

A resposta de Cecília fez Anna gelar. Morrer pelas mãos de um traidor Anna não contabilizara em suas expectativas. Talvez pela pouca idade.

– Compartilhei as memórias de meu pai, mas não sua sabedoria. Saber é uma coisa, entender o que fazer com o saber ainda me parece que é a grande questão. – Anna falou como se a frase fosse uma anotação de quem não quer deixar no esquecimento informação valiosa. Cecília não perdeu a oportunidade de ensinar mais uma lição à filha:

– Experiência você terá com o tempo. Se tudo fosse simples, leríamos livros e estaríamos prontos para a vida. Mas em tudo a experiência não pode ser deixada de lado. Mesmo que as descrições nos tomos lhe ensinem tudo. Ver, tocar, ouvir, degustar, cheirar: são as melhores opções para aprender. Nunca deixe de ler, mas não se esqueça de vivenciar. Alie teoria e prática sempre.

– Sim, mamãe. Eu compreendo.

– Preciso que aprendo os feitiços de proteção e que consiga projetar um escudo místico para proteger seu pai. Vamos para o quintal. Lá teremos espaço. Traga a varinha.

– Agora mesmo. – Anna notara que o sono não era mais possível dado ao intenso momento que tiveram há pouco.

– Mamãe, como vocês se conheceram? Algumas coisas meu pai bloqueou. Não entendo. Achei que ele não me esconderia coisas assim... Ele compartilhou tudo, mas agora sinto que há mais lembranças.

– Na guerra. Melhor você não ter detalhes sobre isso. – Cecília deu as costas para a filha e foi para o quintal.

Anna analisou todas as memórias compartilhadas e notou que sim, ele compartilhara tudo. Mas tudo que se referia ao tempo que passou com ela desde seu nascimento. Antes disso, não havia nada, só escuridão.

“Realmente ele é mais poderoso que eu imaginava. Controlou até o que deveria ver.”

Orgulhosa de seu pai foi ao encontro de sua mãe. Precisava treinar e aprender.







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