As horas de Porcina


Foto de Tim Mossholder (unsplash)

Já parou para pensar como seria o dia essencialmente seu? Se fosse possível viver um dia dedicado inteiramente a si mesma? Sem se entregar a ninguém para se sentir completa. Sem precisar de uma opinião para ter que decidir qualquer coisa? Eu, Porcina, 29 anos, casada com o Eduardo de 32 anos, mãe da Sabrina de 09 anos, me reservei o direito de viver esse dia. Um dia inteiro. Vinte e quatro horas inteiramente minhas e não seriam divididas com nenhum ser vivo além de mim. Eu seria a minha própria companhia.

Planejei tudo friamente. Sem me preocupar com marido, filha, mãe, irmãos; ninguém da família. Separei alguns pertences pessoais, de higiene, roupas, dentro de uma mochila. Deitei-me no horário habitual, às 22h. Meu marido roncava como um trator, de barriga para cima, os braços abertos. Aquela cama era pouco para ele, comigo junto? Coitada de mim. Como sofria. É melhor não entrar nessas questões de lamentações agora. Faria o leitor perder o interesse desde o início. Eu levantei e saí com o meu carro pela garagem, de onde poderia ativar o alarme novamente e deixar todos em segurança. Eduardo tinha o sono pesado. Poderia ficar a noite inteira batendo panelas em seus ouvidos e ele não despertaria.

Peguei a estrada na primeira saída da cidade. Não queria que ninguém me visse naquele lugarzinho mequetrefe onde todo mundo se mete na vida de todo mundo. Acelerar o carro na rodovia estadual é uma sensação ótima. O seu corpo se energiza como uma bateria e se recarrega com o combustível da liberdade, da felicidade. Ali iniciou a metamorfose. A lagarta começava a sair do casulo. Parei em um posto de gasolina. Abasteci, comprei cervejas, cigarros e salgadinhos. Andei mais dez quilômetros, até encontrar um hotel de beira de estrada e me hospedar.

00h00 – Comecei o dia, deitada nua na cama, tomando cerveja e comendo salgadinhos, assistindo a tevê. Ali, pensando no que eu estava fazendo, me dei conta, pela primeira vez, que não precisava fazer nada de ilegal ou imoral para me sentir livre. Só precisava agir como se eu voltasse a ser criança. Andar descalça na grama, comer doces antes do jantar, correr pela chuva. Coisas boas, das quais nos privamos com o tempo. Abri a cortina e dei uma olhada no tempo lá fora. O clima estava abafado e não havia sinal de chuva. Tudo bem. Não se pode ganhar sempre. Tomei um banho demorado. Olhei-me no espelho, sem maquiagem, nem disfarces. A beleza e a feiura brutas. Sejam ambas. Aceite-as. Mas eu me sentia bela. Eu tinha uma mancha escura embaixo do queixo, causada por uma queimadura quando criança. Sempre me incomodava com ela. Cobria de base até desaparecer. Agora estava ali, me desafiando a odiá-la, a extirpá-la, arrancá-la de mim e eu sorria para ela. Como para as rugas, as quais eu não tinha, claro, mas achava que tinha. A olheira, os defeitos, o fato de encucar com os olhos muito juntos e a testa alta. Será mesmo? Eu tinha medo de perguntar a alguém e receber a dura confirmação, ou pior, a falsidade. Jamais teria certeza.

O dia amanheceu e eu deixei o hotel cedinho. Tomei meu café num desses postos de gasolina de rodovias. Parada principalmente de caminhoneiros. Tomei um café da manhã daqueles. Um café preto num copo americano. Um bolinho de carne no pão francês que eu tacava o bom e velho molho de pimenta. Alguns caminhoneiros ali olhavam - me estranhamente Mas me deixaram quieta. Ninguém me perturbou. Senti-me como um deles. Na boleia de um caminhão, dirigindo por essas estradas desse Brasilzão. Foi bom pensar nisso. Minha mente viajou de verdade e nem percebi o garçom, que teve que me chamar três vezes, perguntando se eu queria mais alguma coisa. No banheiro do posto eu me troquei para me adequar ao que eu queria fazer a seguir: caminhar no parque. Legging, camiseta e um tênis confortável. Enchi minha garrafa d’água no bebedouro do parque e segui pela calçada do entorno. As pessoas pareciam tão mais felizes em parques. Elas riam, se descontraíam, se soltavam. Liberação de endorfina causa isso, é o que a ciência diz. Eu gostava de acreditar, olhando para cada rosto daqueles, que elas poderiam ser felizes se se dessem um tempo de vez em quando. Mandassem tudo se foder e só se dessem um tempo. Era exagero meu levar isso de um modo tão obstinado.

Deitada na grama, protegendo os olhos com óculos de sol, eu recobrava o fôlego e controlava a respiração. A conclusão daquele passeio, porém, foi desapontadora. Cansei-me de rostos despreocupados e joviais tão logo me encantei por eles e os deixei enojada.

Almocei no shopping e depois fui ao cinema, numa matinê. Parece esquisito e meio fora de época eu sei. Mas acreditem, aqui na minha cidade ainda fazem matinês. Em cartaz um filme antigo chamado “As Horas”. A tristeza da Nicole Kidman irreconhecível como Virginia Wolf e a sua loucura, seus surtos. Tudo tão belo e triste. Porque será que a beleza é tão mais irresistível quando é triste? E a Clarice? Que, como eu, queria fugir? Trancada num quarto de hotel com o seu livro. Lendo e se enchendo de amargura, como a inundação do quarto. A água que a cobria literalmente era antes toda a angústia que transbordava nela. Mas eu entendi que ela fugia e era fraca. E me perguntei, ao final do filme, em prantos, se eu não estaria fazendo o mesmo.

Dirigi de volta, mais rápido do que quando parti para a minha aventura. Cheguei em casa e peguei a Sabrina no colo e a beijei. Beijei tanto que gastei seu rostinho delicado de tanto beijo. O Eduardo, se eu pudesse e como eu queria ver ele com outros olhos, ficou parado perto da geladeira me olhando. Sério. Eu voltei ao carro para buscar uma flor e lhe entreguei. . Ele fez uma cara de desentendido e virou as costas, levando a flor consigo. Um minuto depois retornou com um buquê de tulipas roxas e uma caixa de chocolates. Eu olhei e sorri.

– Flores e chocolates. Tão clichê.

– E porque o clichê tem que estar fora de moda? Feliz dia das mulheres. E da próxima vez que quiser sumir, ao invés de deixar um bilhete na porta da geladeira, faz igual a todo mundo e manda um whats. E vê se não demora tanto. Ficamos com saudades.



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