Sou apenas uma casa velha


Retrato de uma casa antiga e decadente
Foto de Robbie Down (Unsplash)
Atenção: essa história contém assuntos delicados que podem desencadear gatilhos.

Me chamam de cantinho, lar, moradia e entre outros nomes, embora eu prefira ser chamada apenas de casa. Já fui de muitas pessoas, umas viveram felizes em mim, outras nem tanto, já fui incendiada, quebrada, inundada, abandonada, consertada, varrida, alugada e vendida. Em mim ocorreram belíssimas histórias umas mais emocionantes do que outras. Cada morador tinha um jeito diferente de cuidar de mim, tinha uma personalidade diferente, mas a história que mais chamou a minha atenção foi a da senhora Clara, filha única do senhor Antônio, que era um velho muito doente do coração, e mãe da pequena Mina que, de acordo com o médico, não era muito saudável.

Dona Clara aparentava ser jovem e era muito bonita, as pessoas costumavam não acreditar que ela era mãe de uma garotinha de sete anos. Seu marido, nem ela e nem ninguém saberá o que lhe tinha sucedido, foi lutar pelos seus direitos e nunca mais voltou para o desespero da senhora Clara, que teve que lidar com dois doentes, um emprego que ela descrevia como o pior do mundo e talvez do universo, eu para limpar e os vizinhos que fofocavam de sua vida e falavam coisas que não eram verdadeiras. Quanta pena eu tive dela, tanto que fazia o possível para não ser suja e dar menos trabalho para ela, só queria vê-la feliz. Não vou me alongar contando detalhes que não serão importantes para a compreensão da história.

Na madrugada de um dia qualquer o senhor Antônio acordou com dores no peito e foi até a cozinha beber um copo com água, mas acabou tropeçando em um dos meus tapetes e caiu degrau por degrau, eu tentei segurá-lo, mas foi uma tentativa falha. Dona Clara apareceu, estava assustada e parecia exausta, ainda estava com as roupas do trabalho, suponho que cochilava em frente ao amontanhado de papéis do seu trabalho e acordou assustada. Ela foi até seu pai verificou se tinha batimentos, ele tinha, começou os primeiros socorros, a pequenina Mina apareceu na hora, a mãe falou para ela por um casaco e calçar os pezinhos porque eles iriam ao hospital. O senhor Antônio acordou, apesar de não parecer nada bem pelo menos estava vivo, meio atordoado, a Dona Clara deu um suspiro aliviada e abraçou o seu pai. Eles pegaram seus utensílios de sair, só voltei a ver a senhora Clara e a Mina quando já não havia mais brilhos no céu, as famosas estrelas. Uma vez o senhor Antônio comparou o brilho nos olhos da pequena Mina ao brilho das estrelas, que falta fez o silêncio do senhor Antônio naquela noite.

Enquanto a pequena Mina dormia, a Dona Clara começou a chorar. O que vale pontuar aqui é que ela raramente chorava. A princípio perguntei-me o motivo desse ato e então me pus no lugar dela e se eu fosse uma mulher solteira apaixonada por alguém que não sei onde está, que pode estar vivo ou morto, sem uma mãe ou amigas para dar-me conselhos e ajudar-me a criar a Mina, com um pai doente e supondo que eu o amasse tanto que não queria perde-lo, e só tinha ele com quem conversar, mas eu saberia que a vida não o mais queria como eu, e ainda eu tivesse um trabalho que não suporto… Acho que no fim, eu acabaria chorando também. Eu fechei as janelas para ela, mas sei que ela dará os créditos ao vento, por alguma razão o ser humano acha mais sensato supor que as portas e janelas são fechadas por algo que nunca viram, em vez de achar que nós, as casas, os estamos protegendo.

Dona Clara acordou mais cedo com os gritos do carteiro, ela pegou os envelopes e a cada um deles ela dizia conta, conta, conta, ... Quando subitamente uma lhe chamou a atenção, era um envelope diferente, ela abriu com muita curiosidade e ansiedade como uma criança abrindo um presente no natal. Ela começou a ler a carta em voz alta e foi lentamente levantando a mão que nada segurava até o rosto como um gesto de tristeza, ela sentou-se muito desacreditada no que acabara de ler. Seu marido que antes foi dado só como desaparecido, agora está morto, uma testemunha o viu sendo torturado até a morte, pobre coitado, apenas lutava pelos seus ideais, não só dele, mas o da sua família e do seu próprio país, que tanto o amava que o matou, nada de ordem e progresso eu consigo ver nisso. Queria poder ser uma pessoa para dar um abraço na senhora Clara, os humanos quando se abraçam, sempre melhoram, não consigo ver como isso melhora, mas parece funcionar. Eu acordei a Mina, batendo uma das minhas janelas que fica no quarto dela. A pequena desceu as escadas ainda um pouco assustada com o susto que levou, a pequenina viu sua mãe daquele jeito e foi abraça-la e assim ficaram por um tempo.

Doma Clara e sua filha agora tinham que ir buscar o senhor Antônio e contar que o seu genro foi morto. Sinto falta de ter donos, agora estou velha e abandonada outra vez. Em uma tarde qualquer de um mês tão qualquer como a data, foi o dia em que a vida da Dona Clara ficou pior. Assim que elas saíram, quatro homens estranhos entraram em mim, eu nunca tinha os vistos aqui antes. Eles começaram a falar em procurar coisa valiosas e comida, dois ficaram no andar debaixo e dois no de cima, todos apressando um ao outro. Dona Clara, seu pai e a sua filha chegaram e os homens, que eu temia serem perigosos, ainda estavam em mim e eu tentei de tudo para a senhora Clara não entrar, mas não houve jeito, ela conseguiu e deparou-se com o meu interior todo revirado. Ela nem teve tempo de sair, pois um dos homens os viu e apontou uma arma para eles ordenando que a senhora fechasse a porta e ela o fez.

Nos minutos seguintes ocorreram súplicas por parte da Dona Clara para permitir que eles libertassem o pai e a filha dela e um dos homens riu e disse que não era trouxa mandando eles ficarem quietos. Depois ordenou para Dona Clara mostrar o que ela possuía de valor e ela foi com uma arma apontada em sua têmpora, ela dizia que tudo ia ficar bem. Esses homens eram perversos e abusivos com a senhora. Então um deles viu um cofre muito pesado, desceu e chamou os comparsas, eles pegaram o cofre em que continha dinheiro para o tratamento que a pobre Mina fazia, e a Dona Clara explicou isso alterando-se e um deles atirou em um canto na parede ao lado do senhor Antônio, que começou a passar mal e colocava as mãos sobre o peito, Dona Clara suplicou para chamar uma ambulância, mas um dos homens disse que cuidaria disso e atirou no peito do senhor Antônio que faleceu na hora, ele tinha os olhos marejados e não merecia ter morrido daquele jeito.

Dona Clara ficou incrédula, começou a desesperar-se ainda mais porque a pequena Mina estava tendo uma das crises que sempre tinha, enquanto a sua mãe tentava ajudá-la os homens estavam dando altas gargalhadas, eu bati as janelas para chamar a atenção de alguém de fora, mas foi em vão. Um outro homem chegou perto da Dona Clara e da Mina e alisou a senhora, passou a arma em sua cabeça, agarrou-a e atirou na cabeça da Mina e ainda disse que era um favor que estava fazendo a uma linda mulher como ela e que eles gostavam de um cenário de filme em seus assaltos. Eu fiquei incrédula com tanta barbárie, a pobre Mina, tão pequena, tinha tanto o que aprender, sentir e fazer. Dona Clara perdeu o controle e começou a gritar, eu nunca a vi desse jeito, mas eu tentei entendê-la, senti junto com ela.

Os outros dois pegaram a Dona Clara e a levaram para cima enquanto os outros dois continuaram o saque. Os homens a levaram para o quarto dela e eu não quis ver aquilo que sucedera ali, era agoniante vê-la com uma vida tão sofrida gritando e pedindo que parassem, enquanto aqueles homens faziam barbaridades com ela e por que ninguém apareceu para salvá-la? Minutos depois todos os quatros foram embora pelos fundos. Agora a Dona Clara estava sozinha e arrasada, ela os ouviu saindo e desceu as escadas, era deplorável o estado em que se encontrava, como eu queria poder ajudá-la. Ela parou em frente a porta, poderia chamar a polícia, mas não acreditariam nela, porque todos a achavam louca e extremamente esquisita. Por um momento ela ficou em pé parada, acho que ela estava pensando no que fazer, suponho que ela pensou que a morte a perseguia, perdera os avós aos 10 anos, a mãe aos 13, depois o marido, o pai, a filha, a dignidade, a integridade, os bens materiais, a lucidez, a coragem, a si. Ela beijou os corpos e fechou os olhos dos dois, disse que os amava e que logo iria vê-los, ela pegou uma corda subiu até seu quarto e perdeu a vida ali mesmo junto com sua honra que apodrecia há tempos.

Agora ela veria a todos que perdeu. Na manhã seguinte eu fui invadida por vizinhos fuxiqueiros e policiais, a perícia recolheu os corpos, os objetos que disse que investigaria, mas nada fez além de enterrar os corpos juntos. Os fofoqueiros disseram à polícia todas as mentiras possíveis sobre a Dona Clara, disseram que ela forjou tudo aquilo, bagunçou a casa atrás do dinheiro que o pai escondia, achou, matou o pai doente, matou a filha que também era mal de saúde para ficar com o dinheiro e que também fez a cabeça do marido para ir vadiar alegando que ele foi lutar por direitos. Disseram que ela ia fugir com todo o dinheiro e não queria fardos com ela, porém, sabia que ia ser pega, então ela como louca que era resolveu se matar para tudo parecer um crime. Como puderam achar que ela faria algo insano desse jeito. Coitada, sofreu até depois que faleceu.

Eu continue aqui, sentindo saudades dessa família, fiquei aqui vendo a mudança na vizinhança e agora que não sirvo mais, deixarei de ser casa e virarei um supermercado, embora eu preferisse ser um parque ou jardim, mas os seres humanos de nada pensam, possuem um cérebro e nem sabem usar.

Porém, o que sei? Sou apenas uma velha casa cheia de histórias tão antigas quanto eu e minhas rachaduras.

Sobre a Autora:

Autora baiana, Kananda Gomes começou a escrever quando criança e não parou mais. Além de escritora também é estudante de Museologia na UFBA e criadora da página no Instagram @eu.e.minhas.ironias onde compartilha diversos textos com seus seguidores leitores.


Revisão: Carol Vieira

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