Brinquedologia - Parte 1

Atualizado: Nov 9

— Muito bem, pessoal — dizia o nosso líder. — Nós recebemos um pedido de um novo cliente. A bola da vez é o concorrente da Brinquedologia; todos nós sabemos de quem e de qual empresa se trata, mas ele preferiu que não mencionássemos o seu nome entre o nosso meio. Portanto, vamos chamá-lo de incógnita.

Ele foi até o canto da nossa sala de reuniões velha e conectou um pen drive no laptop que estava em cima da mesinha ancestral. O projetor jogou na tela uma imagem do que parecia ser uma casa de classe alta, vista de cima; o chefe continuou:

— O incógnita tirou esta foto e diz ter certeza de que esta é a atual localização não só do dono da Brinquedologia, mas do seu escritório. — Em seguida, ele pressionou a tecla com a seta para a direita e outra imagem apareceu, desta vez da frente da casa, com portão automático, cerca elétrica, cancela, porteiro e guardas pesadamente armados. Ele prosseguiu com a explicação:

— O dono comprou um pedaço de terra inteiro, de 10 hectares, no meio do Bosque das Traças, mas construiu sua casa neste único quarteirão, para que pudesse manter a sua localização em segredo, exceto para os seus principais contatos; a casa, estará de frente para a colina pela qual desceremos, e entraremos pelo Bosque justamente para não levantar suspeitas ou derrubar testemunhas. Vejam bem, temos uma foto do alto e da frente, mas tudo o que temos da parte de trás é isto... — E pressionou novamente a tecla, fazendo a imagem na tela mudar para uma porteira velha e abandonada, com o trinco de cima arrebentado, formando uma diagonal caindo aos pedaços, do umbral da direita para o da esquerda, em vez de uma linha reta. Para além dela, toda uma viela de terra de dois metros de largura entre os pinheiros, mas que se perdia de vista, de tão longa que era. A dissertação se seguiu:

— Dá-se a concluir que o dono não quer estranhos bisbilhotando a sua propriedade. Nosso cliente nos deu esta filmagem do que parece ser a quantidade de curvas que a rota assume até dar na propriedade, vejam. — Ele pressionou a seta e nos foi mostrado um vídeo de 3 minutos. Aquele drone usado no vídeo... Eu não sei quem o produziu, mas fez eu me perguntar por que diabos o nosso cliente não fez todo o trabalho ele mesmo, pois a maquininha que foi filmando toda a estrada de terra era rápida, tinha a contagem da distância no canto inferior direito do seu visor e chegou ao final da rua de terra em questão de meio minuto, marcando exatamente 10km. Cheguei a xingar baixinho quando vi aquilo. Eu nem sabia que drones agora podiam se afastar tanto do usuário e não dar nem um pique de queda de quadros na tela, quanto mais a ponto de contabilizar a distância precisa num lugar em que até os celulares mais avançados ficavam sem sinal! O final da ruela dava numa espécie de parede de cimento malfeita, como se os pedreiros tivessem se cansado de amassar o cimento. — Bom, — concluiu o chefe — como vocês podem ver, nada de curvas.

Dava para ver as falhas em todos os lados da parede, como as rugas da pele de um velho. Amontoados de cimento aqui, tufos de mato ali, linhas desajustadas lá, furos acolá... Até mesmo partes secas, sem cimento nenhum, revelando puro tijolo. O drone, então, direcionou-se (ou melhor, foi direcionado) para a esquerda, até atingir o fim do perímetro da parede que, segundo seu visor, era de 15 metros, e virou para a direita, seguindo reto por uma extensão também de puro cimento e de quinze metros. Feito isso, nosso chefe pausou o vídeo e disse:

— Este é o lado esquerdo do edifício, sendo assim, já sabemos o que esperar do lado direito, mas mesmo assim, vou deixar o vídeo rolar. — E assim o fez.

O drone voltou à posição inicial, na parede de trás, e contornou a parede da direita, dando exatamente a mesma distância. Dava para ver que, assim como a estrada de terra inicial, a que cercava os quatro lados era de terra; o dono não se deu ao trabalho de cimentá-la ou de finalizar a argamassa da parede, afinal, pensava eu, o que importava era o interior do local e, para quem fosse até o final da rua de terra para bisbilhotar, teria sua curiosidade esvaída pelo aspecto descuidado e abandonado do edifício. Agora, quem se atrevesse a dar a volta até a frente, certamente seria expulso do lugar. Nós já sabíamos que a parte da frente era composta por vigilância paranoica e tínhamos uma noção das armas carregadas, mas eu, em particular, esperava que o drone nos desse uma amostra com mais detalhes sobre os guardas, como quantos eram e que armas carregavam. Considerei que, se sua velocidade era incrível, assim seria sua inibição acústica, devido à tecnologia da máquina. Mas, para o meu descontentamento, o vídeo foi finalizado ali. O chefe nos disse:

— De acordo com o incógnita, a área comprada era antes uma fazenda que lucrava pouco, portanto o dono a vendeu para o... — e fez uma pausa. — Esqueci de mencionar o nome do atual dono da Brinquedologia, certo? Bem, seu nome é Arthur Cortês Solene da Silva. Sei que... — Isso levantou risinhos de todos, fazendo-o se interromper novamente. — Sei que vocês — disse ele lenta e seriamente — já sabiam, mas quero que mantenham o nome nítido como cristal em suas mentes, pois este cara é o nosso alvo. E quanto ao fazendeiro que vendeu as terras para ele, acredito que vocês também o conheçam bem, ou pelo menos tenham ouvido falar dele. Ficou rico com as terras vendidas e tornou-se dono da principal madeireira subordinada à fábrica. O incógnita disse, no e-mail que continha a filmagem, que pagaria R$ 30.000.000,00 pelo “acidente” do dono da Brinquedologia e um bônus de R$ 3.000.000,00 por um outro ”acidente”, neste caso referindo-se ao tal fazendeiro conhecido como Netinho. É dito também, no e-mail, que Netinho é um dos poucos contatos permitidos a entrar no edifício, sendo assim, temos uma alta chance de o encontrarmos por lá. Caso contrário, teremos que pegá-lo desprevenido. Aqui está a foto dele.

Ele pressionou a tecla e uma imagem de três amigos bebendo num bar apareceu na tela, com um círculo vermelho ao redor do rosto de um deles. Era um homem de aparência bronzeada, cabelo preto e raso, um bigode pequeno e várias intempéries no rosto.

Uma das nossas comparsas fez um sinal de joinha enquanto estourava uma bola de chiclete na boca. Os outros estavam distraídos demais, querendo ser aquele chiclete, para fazer qualquer sinal.

Ele apertou de novo a tecla e a imagem que nos foi mostrada foi a de um homem extremamente excêntrico, parecia coisa saída de livros ou filmes de fantasia. Bigode branco, longo e ondulado, uma barbicha da mesma cor e também longa e sobrancelhas tão brancas quanto o resto. Seus olhos eram de um verde vivaz. Usava uma cartola roxa que continha uma faixa de tonalidade um pouco mais escura. Ele trajava um terno roxo, com babado branco e tinha um broche na forma de um coração dourado na esquerda do seu peitoral. Naquela foto ele estava perto da câmera, como se estivesse tirando uma foto para sua carteira de identidade. Na seguinte, ele estava no centro da Praça do Monte Tênue, bem em cima do coreto que lá havia, e acenava para todos os que estavam ao redor dele, era uma multidão de dimensão carnavalesca. Nesta foto, podia-se ver que a cor das suas calças e sapatos de bico fino também era roxa.

— Este será o nosso alvo: Arthur Cortês Solene da Silva.

Finalmente, o chefe apontou com todos os dedos na minha direção:

— Quero que dêem as boas-vindas ao nosso novo integrante, ele será o caçula de vocês, tratem-no como um membro da família, se é que podemos considerar isto que fazemos como família. — E todos olharam para mim. — Como bem sabem — continuou o chefe —, nenhum de nós temos nomes reais aqui, mas também não somos apenas números numa tabela, por este motivo cada um tem direito a escolher um apelido. Já pensou no seu?

— Erres — eu disse. — Meu apelido é Erres.

Um cara careca da nossa equipe soltou um único som risonho e seco de zombaria. — Muito fácil de decifrar — disse ele. — Escolhe um outro apelido aí! É óbvio que o seu significa várias letras erres.

Eu apenas fiquei quieto, olhando para o chefe. Ou para a tela. Não lembro ao certo. Só sei que um outro maluco, que parecia estar no topo de uma floresta, com o cabelo desgrenhado e usando uma boina vermelha virada para trás, disse: — Não, gente, Erres é a uma das conjugações verbais do verbo errar. Sabe? Erres. Tipo, “que tu erres”. — E fez um C com o indicador e o polegar direitos subindo e descendo alternadamente.

Até que, por fim, a moça mulata, que alguns segundos antes explodira uma bola de chiclete na boca, disse:

— Gente, se liga, é só um apelido. Nada demais. Meu Deus, meu apelido é Xila e ninguém ficou se perguntando se isso significa “xilascar” ou algo assim.

Isso despertou a risada de todo mundo, até mesmo do chefe, então todos retornaram aos seus semblantes originais.

Falando nisso, chamávamos o chefe ou de “Chefe” ou de “Capitão”, geralmente de “Capitão”. E, embora ele tenha dito que eu era o caçula da família e que não éramos apenas números em uma tabela, nós não passávamos disso: números numa tabela. Mas a verdadeira caçula, julgava eu, era a moça mulata, a tal da Xila. Vejam bem, é da natureza de todo homem sentir que deva proteger uma mulher e tratá-la bem, mesmo que essa mulher seja uma megera histérica destituída de massa encefálica... Isso, na minha opinião. Mas acredito que todos lá só queriam uma coisa dela, e vocês, que estão lendo isto, talvez já saibam o que essa “uma coisa” era.

Enfim, começamos a nos preparar para invadir o local marcado às 16h. Entraríamos pelo estacionamento de um supermercado, com a desculpa de uma varredura no bosque, à procura de suspeitos de tráfico de drogas. Não podíamos entrar às escondidas, lá pelas três da madrugada, como verdadeiros assassinos de aluguel, não era o nosso estilo e também não tínhamos habilidade para isso, portanto, uníamos o útil ao agradável. Estaríamos disfarçados de PM’s, mas obviamente não haveria qualquer contato com o departamento — a operação era apenas de infiltração e execução, nada de envolvimento de terceiros. A infiltração seria pela cerca do estacionamento do supermercado local. No entanto, é claro que precisaríamos de uma estratégia um pouco mais invasiva no que se referia à entrada com sucesso no escritório em si...

— E, para isso, carregaremos bagagens conosco, bagagens essas que conterão uniformes e distintivos forjados da Polícia Civil. Nós realizaremos a troca quando estivermos dentro do Bosque das Traças.

Panela levantou a mão, ele era o cara com a boina no topo do cabelo bagunçado.

— Mas Capitão, e se a imprensa aparecer para cobrir a “varredura”? — perguntou ele.

— Não haverá imprensa porque não contatamos ninguém — respondeu o chefe. — A não ser — acrescentou ele, olhando para cada um de nós — que alguém aqui tenha nos entregado, pensando em grana extra. Espero, para o bem de todos, que ninguém aqui tenha feito isso. — Depois, quando viu que todos ficaram quietos e nem um pouco tensos, disse: — Mais alguma pergunta?

Beta, o cara careca (chamávamos ele de beta porque a parte de trás da sua cabeça tinha duas marcas de nascença circulares que a deixavam parecendo com o número 8 com uma perninha atrás), perguntou:

— Não acharão estranho que oito PM’s apareçam, tirem alicates das bolsas e cortem uma cerca que tecnicamente faz parte da propriedade do supermercado?

— Sim, você tem razão. Mas é para isso que temos o nosso Malandro. Ele inventa qualquer merda e o povo cai na dele — disse o Capitão, apontando para um cara branco e com cabelo que chegava até as orelhas, penteado com diligência para trás. Malandro andava sempre com um palito na boca e um chapéu palheta com faixa vermelha na cabeça, talvez para fazer jus ao seu apelido ou só porque era o seu estilo mesmo. Ele assentiu com a cabeça e moveu um pouco o bigodinho. Era bem a praia dele fazer isso.

Vejam bem, eu já estava há uma semana no grupo, conhecendo todos os integrantes, mas só agora seria a minha primeira operação de fato, e eu tinha me familiarizado com todos os rostos o suficiente para saber as características de cada um. Nosso grupo tinha 9 integrantes, todos com apelidos, mas irei contando sobre eles à medida que prossigo com este relato.

Finalmente seguimos para o ponto marcado. Como previsto, o trânsito estava calmo, mas o estacionamento do supermercado estava cheio, o que era de se estranhar para uma tarde de sábado, numa cidade pequena e pacata de Minas Gerais como Milho Dourado. Estacionamos o carro no quarteirão mais próximo e prosseguimos para o estacionamento a pé, com as bagagens em mãos. O Malandro foi o primeiro a chegar lá e a dispersar as atenções. Toda vez que alguém, colocando as sacolas de compras no porta-malas, parava para nos observar, ele levantava uma mão ao alto e dizia calmamente: “Está tudo bem, pessoal. Continuem fazendo as suas coisas aí, só estamos fazendo uma vistoria de praxe”. Após chegarmos à cerca do lado direito do supermercado, que era por onde entraríamos, o chefe olhou ao redor e não aparentou estar satisfeito.

— Ainda estão curiosos — disse. — Dá outro jeito de fazê-los... — ele se interrompeu, pois o gerente do supermercado apareceu por entre as portas deslizantes e veio até nós, com os braços abertos e com uma expressão indignada no rosto.

— Que qui é isso aqui? Que qui cês tão fazendo?

O chefe dirigiu um olhar furioso para o Malandro.

— Você se esqueceu de dar um jeito nisso? Que porcaria! Agora vai dar merda pra gente — sussurrou ele.

Assim que o gerente se aproximou de nós, seu semblante mudou um pouco. Ele pareceu assumir uma posição que estava mais para um homem disposto a negociar, mas com as mãos ainda levantadas, como se tivessem resíduos do fluxo irritadiço dentro dele.

— E aí? — perguntou com a voz baixa, quase sussurrando e arregalando os olhos, nos cobrando uma resposta. — Vocês vão dar conta disso?

Percebi, então, que o Malandro, como sempre, havia dado o seu jeito e lidado com a situação antes que pudéssemos prever. De alguma forma, ele havia contatado o gerente do supermercado antes de chegarmos lá.

— Porque eu não quero vagabundo invadindo esta propriedade — continuou o gerente, apontando para o supermercado com uma das mãos, a outra ainda esticada ao máximo, fazendo-o parecer um relógio marcando uma hora e cinquenta minutos. — Este lugar pode não ser meu, mas tá na minha responsabilidade e se alguma coisa acontecer, sou eu que vou levar uma comida de rabo. Cês entenderam?

— Claro que entendemos, chefia — disse Malandro, saindo do meio de nós e depositando três notas de cem reais no bolso da frente da camisa polo laranja e branca do homem franzino. Fez isso com discrição, enquanto dava uns tapinhas no lado esquerdo dele, onde ficavam as costelas. — Fica tranquilo que está tudo nos conformes. — Então ele pegou a sua mão e a apertou, como se selasse um contrato falado. — E vai ficar tudo melhor ainda se o senhor conseguir manter a ordem por aqui. Tipo, não deixar que liguem para os nossos superiores reclamando da nossa operação ou para a mídia. Só isso. — Ele deu uma piscadela. — Sr. Antônio.

— Como assim, melhor ainda?

— Duzentinho.

— Uai, fechado então, parça. — Desta vez foi ele quem apertou a mão do Malandro.

Vimos o homem pequeno apaziguar a população enquanto retirávamos o alicate e começávamos a cortar a cerca num semicírculo. Passamos um por um, e o chefe foi o último, pois precisou ficar segurando a cerca para que todos passassem. Ao chegarmos com as bagagens do outro lado, onde a grama era alta, ele puxou o Malandro de lado pelo braço.

— O que você fez? — perguntou.

— Fiz o meu trabalho — respondeu o Malandro, livrando-se da mão dele.

— Como da última vez?

— É, cara, como da última vez. Usei o meu celular e liguei para cá. Não precisa se preocupar, aquilo tudo foi só uma ceninha que tínhamos planejado durante a ligação. Afinal, nós já éramos conhecidos e ele precisava de uma pequena taxa pela cooperação dele.

— E o que disse para ele? Quero que me conte!

— Eu só falei que eu tinha entrado para a polícia e que nossa equipe iria fazer uma limpeza avulsa, tá ligado? Sem que o departamento soubesse, porque desta forma poderíamos cobrar pela soltura do vagabundo, em vez de prendê-lo e ganhar o mesmo salário merda que ganhamos. Quer dizer, que supostamente ganhamos, se você for na onda deste papo furado.

— Cobrar pela soltura dele? Cê perdeu a noção? Aqui não é a sua terra, cara. Não é o Rio. Esse tipo de prosa não funciona por aqui.

— Funcionou com ele — disse Malandro, olhando-o solenemente.

Dito isso, o chefe se acalmou e respirou fundo.

— Tudo bem, mas, da próxima vez, avise-nos.

Podexá, chefe — disse Malandro. — Podexá.

Continuamos nosso trajeto pelo início do Bosque das Traças. O mato no qual pisávamos era denso, bastante verde, ficava mais alto à medida que prosseguíamos e muitas vezes batia no nosso rosto e sentíamos a textura áspera dele, por isso precisávamos colocar o braço na frente para nos proteger. Os pinheiros tinham troncos grossos, não sei ao certo o diâmetro, mas observando-os dava para imaginar que alguém poderia fazer uma morada dentro de um deles, tranquilamente. E, até onde minha memória não me engana sobre aquele lugar, cada pinheiro daquele media pelo menos 70 metros de altura.

Um pássaro cantarolou em algum lugar, e o primeiro a dizer alguma coisa a esse respeito foi o próprio Pia. Nós o chamávamos assim porque ele não só sabia muito sobre aves, mas também era responsável por nos dar um sinal, fosse de perigo, advertência ou para que esperássemos, cada um sendo de um pássaro diferente. Seu cabelo era exatamente como a plumagem eriçada de uma ave, mas o quepe de policial militar que ele usava naquele dia conseguia esconder isso. Ele disse: “Grimpeiro”. Simples assim. Como um soldado explorando locais não-mapeados.

Vez ou outra, víamos buracos nos troncos e aves aparecendo momentaneamente de dentro deles, e a cada vez o Pia dizia seus nomes: “Papagaio!”, “Tucano!”, “Pica-pau!”, “Coruja!”, até que alguém o mandasse calar a boca. Outras vezes nos deparávamos com clareiras do tamanho de um ou mais corpos humanos. Quando enfim atravessamos 3,7 quilômetros, sentimos o nível do chão começar a se inclinar para baixo. Sabíamos que tínhamos atingido a tal colina e, logo abaixo dela, conseguiríamos ver a propriedade.

— Muito bem, já sabem o que fazer. Peguem seus disfarces e os vistam. Espero que todos tenham ensaiado o protocolo, pois não temos mais tempo para perguntas.

Nós tiramos nossos uniformes de PM’s e vestimos os da Polícia Civil; obviamente Xila foi a última a se trocar e tivemos que desviar o olhar, mas aposto que todos os homens lá queriam dar aquela olhadinha básica. Porra, até eu queria!

Assim que terminamos de nos vestir, o chefe disse: “Controle, é com você”, e apontou para o cara da nossa equipe que era responsável por quebrar a segurança eletrônica dos locais que invadíamos. Controle tirou de sua bolsa um laptop, ligou-o e começou o seu trabalho de digitação. Nós sempre éramos pacientes nesta parte, pois os códigos não eram quebrados com simplicidade. Todos nós nos escondemos detrás de troncos que estavam a uns 100 metros do início do declive para que não fossemos avistados e, enquanto Controle fazia o seu trabalho de causar uma pane na segurança do edifício, eu fiquei batendo um papo com Panela, pois estávamos encostados no mesmo tronco.

Ele geralmente falava de um jeito alegre, aliás, exageradamente alegre, ria por qualquer motivo, relembrava coisas de semanas, meses, anos atrás e ria com a maior espontaneidade do mundo, o que me fazia questionar sua sanidade... Pensando bem, acho que todos do nosso time questionavam sua sanidade. No nosso meio não há motivo de risos, a não ser vez ou outra.

Mas ele. Simplesmente. Não. Parava. De rir.

É claro que ria baixo, considerando que estávamos de espreita, mas mesmo assim, pelo amor de Deus, uma coisa não se encaixava na outra! Os outros membros da equipe não falavam entre si, ficavam apenas esperando. Até que eu, num momento de pura estática, falei uma coisa que fez Panela ficar um pouco surpreso.

— Pode parecer meio grosseiro de minha parte, mas talvez você devesse considerar raspar essa juba.

Ele ficou realmente confuso.

— Quer dizer a minha barba? — perguntou ele, ainda com ar de confusão.

— Não só a barba, o seu cabelo também. Quero dizer, raspar a barba e cortar o cabelo bem baixo.

Ele tirou o quepe de policial civil e passou a mão pelo cabelo.

— O que tem de errado com o meu cabelo?

— É gigante, cara. Não sei nem como você consegue fazer qualquer quepe caber na sua cabeça de tão grande que o seu cabelo é.

— Ah, entendi — disse ele, desfazendo aquela expressão de surpresa e substituindo-a por um sorriso genuíno. Ele colocou o quepe de volta. — Obrigado por avisar.

— Se quiser ter um cabelo grande, pode ter, a decisão é sua, mas, sabe, pelo menos o penteie. Não o deixe desgrenhado desse jeito. Digo isso porque uma vez eu já tive um afro, mas deixei de penteá-lo, até que um dia nem se parecia mais com um afro, era só uma moita na minha cabeça. Estava até pior que a sua. E um camarada meu me deu o mesmo conselho que estou te dando. Ele me disse: “Cara, ou tu raspa o cabelo, ou corta bem baixo, ou penteia”. E desde então eu me acostumei a deixar o meu baixo.

— Você tinha um afro? Sempre quis ter um. Mas não dá.

— Por quê? — perguntei, arqueando uma sobrancelha e franzindo a outra.

— Porque eu não sou negro — disse ele, apontando para mim com certo embaraço.

Isso foi seguido de um silêncio e, então, eu disse:

— Mas, cara, isso não tem nada a ver. Afro fica bem em qualquer um, na minha opinião.

— É, pode ser. Seu sotaque é de carioca — disse ele, mudando de assunto. — Acho que você já reparou que também sou de lá. Sei que nosso passado não vem ao caso neste trabalho, mas em qual cidade você morava?

— Itaboraí. É um nome de origem tupi-guarani que significa...

— Pedra Bonita — disse, interrompendo-me. — É. Eu também morava lá. Sabe, acho que se tivéssemos nos conhecido antes, nos tornaríamos bons amigos.

— E por que não podemos ser agora?

! — disse ele, coçando a cabeça. — Pois é, né.

Passou-se mais meia hora, já eram cinco e meia, quando finalmente Controle terminou o processo. Ele fez um sinal para nós.

— Agora é só esperar — disse ele.

Tiramos nossos binóculos das bolsas e observamos, por detrás das árvores, enquanto os guardas recebiam um alerta pelos seus pequenos fones de que algo estava errado. Vimos o porteiro sair de sua cabine e falar alguma coisa para eles, então o portão automático começou a deslizar para a direita, o que os fez ficar de prontidão. As armas que eles carregavam eram fuzis. Um deles pegou uma escada, a armou, subiu e verificou a cerca elétrica. Depois assentiu aos outros, balançando a cabeça da esquerda para a direita. Nós pudemos observar os guardas e vimos que trajavam terno e gravata e também usavam óculos escuros. Pareciam sair daquele filme “Homens de Preto”.

O chefe fez o sinal para avançarmos e nós nos movemos para a direita por alguns metros, para que quando aparecêssemos, não ficasse óbvio que queríamos invadir, mas sim que tínhamos sido informados pelo próprio dono de algum defeito na central de segurança do seu refúgio. Assim que ficamos fora do raio do campo de visão dos guardas, descemos a colina e nos posicionamos na parede da esquerda.

— Ok, pessoal, já sabem o protocolo, certo? Nós aparecemos, mostramos nossos distintivos caso seja necessário e nos infiltramos. Alguém tem alguma pergunta?

Fumaça, um dos nossos integrantes, levantou a mão. Ele tinha esse apelido porque conseguia escapar de situações das quais ninguém mais conseguiria, como passar num interrogatório. Até mesmo num teste de mentiras, a máquina sempre dava como verdade tudo o que ele dizia. Também conseguia se esgueirar furtivamente para pegar algum alvo desprevenido, além de ter uma estratégia veloz em casos de tiroteio. Ele conseguia planejar uma rota de fuga para qualquer situação. Ou seja, o cara era exatamente como uma nuvem de fumaça. Não dava para pegá-lo.

— E caso perguntem onde está a nossa viatura? — perguntou ele.

— É só dizer que a deixamos estacionada perto da porteira e que viemos andando.

— E se perguntarem mais alguma coisa?

— Aí pode deixar que eu invento algo — disse Malandro.

Fumaça assentiu com a cabeça.

— E então? Alguém tem mais alguma pergunta?

Ninguém falou nada.

— Certo — prosseguiu ele. — Esquadrão, qual é o nosso lema?

— Nós ladramos e mordemos! — dissemos todos juntos.

— Ótimo. Agora vamos.

Nós começamos a andar pela parede da frente e chegamos ao portão que ainda estava aberto. Os guardas estavam com suas armas em mãos. Quando nos viram, foram logo apontando elas para nós, mas ao perceberem que éramos (supostamente) da polícia civil, baixaram-nas imediatamente.

— Quem chamou vocês? — perguntou um deles.

— Fomos chamados pelo dono daqui — disse o capitão. — Arthur Cortês Solene da Silva. Ele disse que aconteceu alguma pane no sistema de segurança daqui e que queria que investigássemos.

— E por que ele não nos avisou antes? — perguntou outro segurança. — Nós somos a principal comunicação dele.

— Acredito que, se o sistema de segurança falhou, também tenham falhados seus dispositivos de comunicação.

O segurança colocou a mão no seu fone e tentou falar com o dono, mas sem sucesso. Ao perceber que não havia o que fazer, deixou que entrássemos. Pelo menos eles não estavam usando walkie-talkies, pensei. Seria desastroso, pois tal modelo de comunicação não necessita de rede.

Assim que passamos da linha do portão, vimos que havia duas portas à nossa direita, ou melhor, um balcão enorme e uma porta à esquerda deste. Havia um carro estacionado no balcão, um Maverick V8, então concluí que fosse a garagem, mas quando olhei para cima vi coisas que me lembraram histórias de terror que eu costumava ler e assistir quando era jovem. Essas coisas eram marionetes de madeira penduradas no teto. Pendiam dele como cadáveres. Mas o que mais me espantou foi a expressão delas. Sorriam. Um sorriso que se estendia até onde supostamente ficariam as orelhas. Olhos com a parte branca enorme e uma pupila minúscula no meio. Era como se estivessem gostando de estar penduradas. O que as segurava eram ganchos colocados com a mesma distância de um metro entre eles. Era grotesca a forma com que pareciam estar felizes, e havia várias delas. Eu comecei a contar, mas a mão pesada do capitão no meu ombro interrompeu o meu pensamento.

— Foco — disse ele. — Não viemos aqui para ficar admirando as coisas.

Bom, foi o que ele disse, mas parecia que todo o esquadrão estava hipnotizado pela visão.

— Muito bem, vamos averiguar o que houve. Onde fica a central do sistema? — perguntou ele.

— Fica no décimo andar — disse um dos guardas.

O capitão olhou meio confuso para ele e disse:

— Perdão, mas eu só vejo um andar aqui.

— Vá por aquela porta branca ali — disse o guarda, e apontou para a porta à esquerda do balcão. — Vocês vão encontrar uma escada para o segundo andar. Há dez no total e o centro do sistema está no décimo.

— Então os andares vão de cima para baixo?

— Precisamente.

— Está certo — disse o capitão, parecendo surpreso. — Pelotão, vamos!

Prosseguimos para a porta branca e quando a abrimos vimos uma estante também branca, como aquelas que contêm roupas com desconto em lojas, cheia de ursinhos e macaquinhos de pelúcia; no meio do local e bem à esquerda dela, a escada que o guarda havia mencionado. Na parede da direita havia outra porta, que dava para o balcão. Bem quando íamos prosseguir pela escada, ouvimos um dos guardas falar “Eles não são da Polícia Civil. Rápido, cerquem eles!”, e então foi quando tudo começou a dar errado para o nosso lado.

O primeiro a tomar alguma atitude foi o Malandro, que saiu com as mãos para o alto, falando “Quem disse o quê?” e, em resposta, um dos guardas disse “Sabemos que vocês não são da Polícia Civil. Identifiquem-se agora mesmo!”. Foi então que o Fumaça se juntou ao Malandro, dizendo “Nós somos da Polícia Civil. Vocês viram nossos distintivos”. Por um breve momento, os guardas pareceram hesitar, mas então ergueram as armas de novo para os nossos dois comparsas.

Estávamos em uma situação complicada. Só tínhamos a parede da direita e a parede da porta pela qual entramos para usar como cobertura. Então eu fiz a coisa mais estúpida que poderia ocorrer à mente sã de um homem: girei a maçaneta da porta que dava para o balcão (e que, por sorte, estava destrancada), a abri, retirei uma das balas da minha pistola e arremessei na direção do portão principal. Ao ouvir o tilintar, todos os guardas se viraram tensos, mas não atiraram. Foi aí que eu aproveitei a oportunidade e fiz sinal para que todos saíssemos e acabássemos com eles. Fomos eu, o Capitão, o Malandro, o Fumaça, a Xila, o Pia, o Panela, o Controle e o Beta, cada um com sua respectiva arma. Eu carregava uma pistola, o Capitão usava uma submetralhadora, o Malandro tinha um revólver calibre 38 de cano longo, o Fumaça foi com sua UZI, a Xila tinha uma metralhadora, o Pia transportava um fuzil, o Panela tinha em mãos sua escopeta, o Controle tinha um rifle de repetição e Beta carregava consigo uma Magnum.

Como éramos altamente treinados, não precisamos de muitas balas para eliminar os seguranças, embora eles tenham nos dado muito trabalho. Precisamos nos esconder na sala dos brinquedos de pelúcia várias vezes para pegar cobertura. As balas disparadas na nossa direção, cada vez que saíamos da cobertura para atirar, quase nos acertavam, e em uma dessas vezes eu senti uma bala passar de raspão na minha mão esquerda. Tive que lutar contra a sensação ardente que isso me causou. Mirei novamente para fora da cobertura e acertei um dos seguranças na cabeça. Depois, Xila acertou outro bem no meio da testa. Ao todo eram cinco guardas, conseguimos reduzir o seu número a três. Quatro, se contar o porteiro. Rendemos todos e eliminamos cada um deles.

Quando olhei para a cabine do porteiro, não consegui vê-lo, mas escutei-o cochichando alguma coisa. Entrei para checar e ele estava virado de costas para mim, sentado no chão, dizendo “Atende logo, atende logo!” para um celular. Percebi que ele estava ligando para a polícia, então tirei o celular da mão dele e o arremessei no chão, depois pisei nele. O Capitão veio logo depois de mim e analisou o que estava acontecendo. Ele segurou o porteiro pelo cabelo, o fez ficar de joelhos e de frente para mim e disse “Atira nele!”. Pela primeira vez naquele dia, eu senti pena do meu alvo. Não só por ele estar chorando desesperadamente e dizendo que tinha família, que só estava cumprindo ordens, mas também porque a posição na qual ele estava era extremamente vergonhosa. Um homem segurando o seu cabelo, fazendo-o ficar de frente para outro homem. Nenhuma pessoa neste planeta iria querer sua família vendo-a deste jeito. O chefe, de novo, disse “Atira!”, e eu comecei a levantar a pistola. Apontei para a testa do indivíduo, mas ainda hesitei. Então o chefe disse “Atira logo!”, eu sussurrei “Me desculpe” e puxei o gatilho.

Foi algo rápido, mas sofrível de se ver. O porteiro nem sequer fechou os olhos. Ficou com uma eterna expressão de angústia, com o seu olhar desesperado. O sangue escorrendo entre os seus olhos e pingando das bochechas. O cenário fora da cabine era pior ainda, mas nada comparado ao ato covarde que eu havia cometido. O porteiro que eu matara era um pai de família que não representava nenhuma ameaça a nós, no entanto, era uma testemunha do massacre que acabara de acontecer e poderia facilmente nos colocar detrás das grades. Foi um ato necessário, mas covarde.

— Qual é o seu problema? — perguntou o Capitão

— Nenhum — respondi. — Por quê?

— Eu ouvi direito o que você disse? “Me desculpe”?

— Foi impressão sua.

— Escute, Erres, se pensa que esta não é a profissão certa para você, é melhor deixar o esquadrão e ir viver como empregado.

— Já falei, foi impressão sua — insisti.

— Enfim — disse, fazendo um sinal de desdém com a mão. — Vamos continuar com a missão. Controle, venha cá.

— Sim, Chefe.

— Achei que você tinha burlado o sistema.

— E eu burlei, ué.

— Então me explica como que eles foram informados de que não éramos da Polícia Civil, sendo que toda a comunicação deles estava hackeada?

— Provavelmente eles têm um hacker aqui dentro. Quando eu hackeei o sistema, fiz com que tudo parasse de funcionar até que eu fizesse voltar ao normal.

— Mas os guardas não nos informaram de nenhum hacker.

— Pode ser que quisessem mantê-lo em segredo — disse Controle, tirando o quepe forjado de Polícia Civil e coçando a cabeça. Ele era paulistano, então a próxima coisa que falou foi: — merda! — Saiu com aquele “r” puxado que todos devem conhecer.

— Tá legal, que se dane — disse o Chefe, olhando para os corpos ao nosso redor e para o sangue derramado, que fazia o ar ficar impregnado com o cheiro de ferro. — A gente cuida desta bagunça mais tarde. Por hora temos que focar no objetivo.

Pablo Vieira Neves nasceu Rio de Janeiro, onde viveu até os 14 anos. Vive em Varginha-MG, desde então. ​Inspirado em um jogo de videogame chamado Alan Wake, passou a escrever. Escreve desde então por diversão. Publicou em no Wattpad (conta deletada, atualmente), no Recanto das Letras e também publicou em uma feira literária, em Varginha.

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