Calma


Retrato de uma abelha diante de flores
Foto de Viajero (Pexels)

Ora, porra! Esse filho da puta vem logo morar na frente da minha casa! Ainda passa aqui na frente com um sorriso no rosto, fazendo graça, querendo fazer amizade. Amizade é o caralho! Não faço amizade com assassinos. Principalmente desse tipinho aí!

Ele pensa o quê? Que é chegar aqui, fingir que nada aconteceu, que vou sorrir, abraçar, chamar pra tomar café aqui em casa? Que vou esquecer as lágrimas que derramei? Uma porra! Eu só vou conseguir descansar direito quando a justiça for feita e esse filho da puta tiver estirado em um caixão!

Sabe o que eu quero mesmo?

Eu quero é matar! Meter uma bala na testa dele. Ver o povo gritando, a mulher dele desmaiando, enquanto os miolos dele mancham a calçada nova que o prefeito fez!

Queria voltar a fumar, que assim eu poderia acender o tambor de gasolina bem embaixo da cama dele. Poder espancá-lo até a morte e depois dizer que ele reagiu. Não foi assim que ele disse que meu filho fez? Algemado, atrás de um camburão, e mesmo assim ele disse que ele ainda atentou contra a vida dos policiais. E adivinha em quem a justiça acreditou? No cadáver de um preto ou nesses filhos da puta?

Calma? Calma é o caralho! Não me venha pedir calma! O que a calma faz por mim? Ela vai trazer meu filho de volta? Vai pelo menos meter uma bala nesse assassino que mora na frente da minha casa? Não? Então vá a merda com sua calma!

Você não sabe o que é perder um filho! O vazio que é ver a porta se abrindo e não escutar um “mãe, cheguei”, de entrar no quarto do filho e ainda ver a bolsa dele manchada de sangue.

Você não sabe o que é isso! Então não me peça pra ter calma. Aliás, a calma está proibida! Como toda essa baboseira que todos vêm me dizer! Entenda, eu não vou esquecer de matar esse infeliz!

Só vou descansar quando pegar uma peixeira que tenho aqui em casa e empurrar ela no bucho desse viado! E ainda faço questão de fazer picadinho das tripas dele, de colocar a cabeça na ponta de uma estaca com uma placa escrita “ASSASINO DE SONHOS”.

Queria tanto ver meu filho formado, ver ele sendo doutor, construindo sua família, casando, tendo filhos e eu sendo avó.

Mas não! Pobre não pode sonhar! Não pode nem pensar que vem alguém e mata!

E essa raiva consumindo meu corpo que começa a esquentar meu juízo, dando aquela queimação no bucho.

A vontade que dá é de ser uma mulher bomba, sabe?! Pegar um carro lotado de dinamite e ir com tudo pra dentro da casa dele. Ver tudo indo pros ares, pra assim dele não sobrar nem merda pra fazer exame. Aí sim! Aí eu iria me acalmar! Mas como não posso, fico eu aqui, lavando minha roupa e amaldiçoando esse filho da puta.

Onde já se viu isso? Eu aqui penando pelo meu filho, e ele indo almoçar com a mãe no domingo?! E meu domingo, quem almoça comigo? O fantasma do meu filho? A justiça? A calma? Quem?

Ninguém!

Já se foram três longos dias das mães que tô agarrada com a foto dele, e ele se divertindo com os filhos no parque de diversões.

Cadê a justiça? Ela deve ser cega mesmo, ou é da família dele. Porque comigo ela não está e nunca esteve. Cadê os direitos humanos brigando pelo meu filho? Passeatas não trouxeram meu filho de volta e também não fizeram os culpados pagarem. Mas eu tenho uma certeza: eu ainda vou me vingar, vou matar esse filho de uma puta! E se você não parar com essa de eu ter calma, vou te matar também...

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor, Luiz Alladin escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.

Revisão: Tatiana Iegoroff

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