Casa do machado

Já era quase meia-noite. E o açoite que a solidão dava em meu peito. Era o mesmo que a faca quente deslizando a barra de manteiga. Escuridão, minha inimiga ou velha amiga? Não sei mais! Se for aos tempos ancestrais verás a morte em seu terrível carteado, blefando com seu às. E nas apostas do conhaque, o diabo levava minha paz.

Mas se fosse só a bebida. Que carregou pelo fim da partida. Que terrivelmente chamamos de vida. Já quase esquecida. Jogadas aos sete palmos do túmulo. Minha amada, minha querida.

Bang! Bang! Bang! O relógio anuncia a chegada da madrugada! A jornada nos meus tormentos! O replay dos momentos. Do teu corpo caído na escada. Tua cabeça desfigurada. Teu semblante feliz, não existia mais nada. O rastro de sangue, a arma do crime sinalizava. Um machado velho, que nem cortava. No desespero que comigo ali caminhava. E ao ver o machado que em minha mão estava. E a cada minuto que se passava o diabo abria sua gargalhada.

Bang! Bang! Bang! O relógio anuncia do tempo, sua nova passada. E meu copo cheio de demônios. Puxam meu pé pra o fim da minha estrada. Agora teu corpo apodrece. No alicerce desta humilde morada.

A cada vez que o tempo passa, mais outra garrafa esvazia. Que mais dia menos dia mais alguém aqui vai aparecer. E como irei eu, esconder o cheiro da putrefação? Ou até mesmo o rastro de sangue em tua direção? Irei ter que esconder mais outro cadáver? Ou será que a minha inocência vão ver? Os outros amontoados ao teu lado. Não entenderam que o demônio era o culpado.

Bang! Bang! Bang! O relógio anuncia que os demônios abriram outro buraco ao teu lado. Será que é nesse que irei ter que terei de habitar? Será que, com isso, outros eles irão culpar? Devo ir? Ao me molhar com minha última garrafa de conhaque, devo me deitar. E com um fósforo que acendi meu último cigarro. Devo em meu corpo apagar? Será que assim, enfim poderei descansar? Se meu suicídio for meu último ato de bondade. Salvarei dos demônios a minha humanidade. Aos céus poderei entrar?

Bang! Bang! Bang! Agora não é o relógio que a essa hora bate, que nem o cão mais late. Quem será que tarde da hora bate em minha porta. Abro a porta. É uma senhora de andar meio torto. Sem fisionomia, reconheço, é a morte apontando a vala pronta. Agora não há mais dúvida. Não serei eu mais o culpado da morte. Agora essa sorte é tua! Senhora morte!

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor, Luiz Alladin escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.

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