Cicatrizes


Retrato de um canavial
Foto de Hồ Ngọc Hải (Unsplash)

A minha sina? É a sina de tantos e tantos que como eu, teve que corta cana, pele, corta dedos, jogar no canto e cortar mais, depois jogar tudo nas costas e levar pro caminhão. Sempre foi assim, dia sim e no outro dia também, de três da manhã até quando a luz acaba-se ou não aguenta-se e cai-se desmaiado no meio do canavial.

Oí, meu primo! Eu trabalhei vissi! Pense no trabalho ruim da desgraça! Oí, Tá vendo essas cicatrizes aqui? Então pronto, foi tudo lá! Essa aqui foi um pedaço de cana! Eu tava andando, me distrai, com que peste foi não me lembro, mas quando virei, a cara foi certinho num toco de cana. Eita dor do cranco! Eu vi foi é estrela na hora! Oí, eu pulava tanto de dor, que o povo tudinho lá ficou assustado! A sorte foi que pegou aqui em cima, se tivesse sido um pouco mais em baixo, tinha cegado na hora.

Graças a Deus, nosso todo poderoso, que quando eu sair de lá arrumei trabalho ligeiro! Lá perto na fazenda do doutor Alencar, o senhor conhece? Pronto, é lá mesmo! Lá o trabalho era pouco, fazia a ração, limpava as baias, dava banho nos cavalos e só, ali era um filé da porra, tai doido! E eu feito menino buchudo fui inventar de fazer mininagem, fui posto pra fora e ainda levei uma pisa do capataz! Na moral, viu! O fi de rapariga me deu uma pisa de jucá fino e ainda jogou água com sal em cima! Dá agonia só de lembrar! Rasgou minha costa toda! Nera pra aquilo tudo não! Eu só tinha 12 anos, era um menino, e só por que peguei o cavalo pra andar ele tinha que ter feito isso? Brigava, mandava embora e pronto! Precisava bater não! Mas também chegou de noite, meti pedra na casa dele, quebrei as janelas todinha! Eu era meio ranheto!

Aí meu fi, eu fui ganhar o mundo! Oí, meu sonho era conhecer o mar! Diziam que ele não tinha fim e aquilo endoidou minha cabeça, eu tinha porque tinha que conhecer! E eu vi! E foi a coisa mais linda que eu tinha visto na minha vida, eu brinquei tanto, tanto, tanto, que cai morto de cansado na beira daquele mundaréu de água, e o mar parecia que tinha gostado de mim também, que começou a me puxar pra dentro dele, minha sorte foi um pescador que viu e me pegou. Oí, eu devo muito aquele homem! Me salvou, ainda por cima me levou pra casa dele, meu pai tinha caído no mundo bem antes de eu nascer, então ele pra mim foi meu pai, terminou de me criar, me deu roupa, comida, me ensinou a pescar, a dominar aquele bicho grande chamado de mar, eu devo muito a ele!

Se não fosse aquele homem, nem estaria conversando com você aqui, não teria conhecido minha falecida mulher, não teria tido meus filhos, eu não teria curado essas cicatrizes que o mundo me deixou...

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor, Luiz Alladin escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.


Revisão: Luiza Fernandes

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