Cinzas


Valas em Manaus. Vítimas do Corona Vírus, do descaso do governo, da irresponsabilidade das autoridades, do negacionismo da ciência.
Valas em Manaus. Foto de Sandro Pereira / Fotoarena

Quarta-feira de cinzas

Tão odiada, tão temida

Por foliões, sempre rejeitada

Ano após ano, sempre malquista


Mas, num ano como este

Sem carnaval, frevo nem samba

Sem baque solto nem virado,

Sem ritmo, sem poesia

A quarta-feira não traz

Nem o habitual amargor do fim da folia

Nem mesmo a cinza que seu nome prometia


Um mais obscuro sabor já nos atormenta

Roubando-nos a paz, e a saúde mental

Roubando-nos entes queridos, dia a dia,

Há semanas, há meses...

Há muito tempo, não há como haver folia!


Após centenas de milhares de mortes

Evitáveis em assombrosa maioria

E obrigados a tolerar, em silêncio obstinado,

Autoridades que, em plena pandemia,

Favorecem o vírus, com ações e declarações

Fortalecem a doença, e não o seu combate,

Podemos dizer que é conveniente a coincidência

Que nossa carcereira, tal doença,

Cala do povo sua alegria, o carnaval

E, com a folia, os protestos bem humorados

Contra tais autoridades!

E como tantos peitos, protestos são sufocados,

Matando mais um pouco nossa carcomida democracia


Ê, quarta-feira, talvez o mal seja ainda mais antigo!

Antes de ti, Já fizeram nossas florestas em cinzas

Puderam a proeza de fazer cinzas até do pantanal!

Sem cor, já, jaz em pura escuridão nosso país,

Pintado com vazamento de óleo em nosso litoral

Está sendo também devastado e dado de graça,

E entregue a mercenários o patrimônio nacional


Talvez, o certo seja mesmo a quarta-feira

Parece que não merecemos carnaval

Pois assistimos, calados, toda desgraça

Nada fazemos para parar todo esse mal

Talvez, por isso, afinal, por todo um ano

Têm sido cinzas, todo dia,

Desde o último carnaval...

Sobre o autor:

Pernambucano, ator e escritor. Escreve em versos desde a infância e entrou de cabeça no universo dos contos e romances em 2009. Escreve em diversos gêneros, desafiando-se regularmente. Tem trabalhos em obras realistas, de fantasia, ficção histórica entre outros. Idealizou o Literatura Errante, inicialmente um blog, e tem batalhado para fazer o Literatura Errante acontecer nos novos moldes.

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