Crime de Natal

Escolheu o ano todo um presente para a mãe. Era o primeiro Natal que passaria sendo maior de idade. Queria retribuir o que ela fizera por todos os anos que morou em sua casa.

Saiu do necrotério onde trabalhava e entrou na galeria de lojas no fim da rua. Rodava lojas de roupas procurando modelos que vestissem a mãe, mas os vestidos florados que encontrava não agradavam o gosto da genitora.

Utilidades para a casa eram a próxima opção. Cozinha era a vida da mãe, que trabalhou por toda a vida cortando carne num restaurante do subúrbio paulistano. Mesmo aposentada havia pouco tempo, ainda cortava grandes peças bovinas de vizinhos, conhecidos e até restaurantes pequenos próximos de casa.

Brilhou a faca inoxidável na prateleira da loja de utilidades. Sabia que seria perfeita, diariamente, nas mãos de sangue da mãe dilaceradora carne. Os pisca-piscas reluziam no reflexo límpido da peça polida. Os olhos brilharam como o reflexo ao olhar o instrumento que seria embalado em breve.

Comprou o objeto e levou para casa, embrulhado num papel acetinado. Faltavam vinte e cinco dias para a ceia, o primeiro encontro com a mãe que não via desde o primeiro salário.

Todos os dias, ao acordar, olhava para o presente no criado mudo, ao lado da cama, no pequeno quarto alugado. Imaginava o sangue que escorreria pela lâmina de inox após entregar o presente. Sorria por ter encontrado um objeto relevante para dar à mãe que, já lhe dera muitas coisas. Os natais anteriores eram sempre marcados pelo vermelho, sua cor predileta.

Dezembro corria e todo dia a primeira coisa que via ao acordar era o embrulho sobre o criado mudo. Aos domingos, pegava o presente e limpava com um pano a poeira acumulada na semana. Limpava o papel acetinado lembrando do brilho da lâmina da faca no dia em que a comprou. Tinha vontade de vê-la novamente, mas não queria desfazer o embrulho, então apenas admirava a imagem que ficara em sua mente. Este era diferente das sujas facas que via nas mãos da mãe a vida toda. Nunca vira uma lâmina tão limpa, brilhante, polida.

Os dias passavam e o dia da ceia se aproximava. O ritual diário de ver o pacote ao acordar continuava. Passou a acordar mais cedo e ficar imaginando a faca, fora daquele embrulho, brilhando ao lado da cama. Sorria sozinho ao contemplar em pensamento o presente para a mãe.

Um dia antes da ceia, acordou atrasado e não pôde contemplar a visão do presente. Correu para o trabalho e, ao voltar para casa, lembrou da faca e entrou na galeria a fim de comprar uma para si. O intenso movimento das compras de Natal, os atrasados na agonia de comprar os últimos produtos para um familiar esquecido fez com que desistisse. Não gostava de sacolas esbarrando em seu corpo nem das mulheres, sempre olhando em seu rosto e refletindo uma microexpressão de desprezo.

Chegando em casa, abriu a porta do quarto e deitou-se na cama com a cabeça virada para o criado mudo. Apenas com a iluminação da lâmpada incandescente da luminária, olhava para o presente e divagava sobre o brilho da lâmina. Lembrava dos velhos cabos de madeira das facas da mãe, que pareciam muito as retiradas do cadáver do negro pobre que chegou no necrotério. O assassino não se deu ao trabalho nem de retirar a arma branca do corpo da vítima.

As horas passaram e ele apenas encarava o pacote, misturando lembranças e fantasias, criando um enredo de ficção na cabeça. Talvez se escrevesse seria um bom romancista, mas mal lera um livro na vida, quanto mais escrever um. Continuou criando um enredo. Pensava na faca do cadáver. Trocava-a pela faca nova. Se fosse uma faca nova não deixaria na vítima, certamente levaria para usar com outros. Talvez fosse uma marca do assassino, desses que depois viram filme no cinema, ou talvez tenha sido apenas a pressa ou falta de força para puxar de volta.

Sem perceber, criou um personagem. Pobre, magro, com a faca embrulhada numa sacola. A faca era de inox, brilhante como a que estava a seu lado. Imagina-a suja com sangue. Matar com faca não é tarefa tão fácil. Matar a distância é muito mais cômodo. Quem mata de perto calcula. E não mata qualquer um. Qual não seria a motivação desse homem para chegar a esse extremo.

Perto das dez da noite, cochilou, mas logo despertou ofegante. Os pensamentos foram virando sonhos e o homem magro ao pegar a faca ia diminuindo de tamanho, ficando mais gordo, criando fartos seios e por fim se transformou na mãe. Acordou sedento e um pouco atordoado. Bebeu um copo de água e voltou ao quarto.

A falta de uma televisão ou outro eletrônico de entretenimento pela primeira vez lhe incomodou. Queria dispersar-se dos pensamentos anteriores. Não tinha livros, nem papel para desenhar. A única coisa que tinha além do básico do quarto era uma garrafa de rum. Comprara com o primeiro salário como ato de rebeldia à mãe que nunca o deixara colocar uma gota de álcool na boca. Mas pela falta de conhecimento e real vontade de tomar, nunca rompera o lacre.

Pegou-a pela primeira vez desde que a comprou e a abriu. Despejou a bebida num copo americano e, ao sentir o cheiro forte, cogitou jogar fora, mas o desejo de não voltar aos pensamentos e sonhos, virou o copo de uma vez. Estranhou a sensação da bebida. Encheu novamente o copo e, desta vez, bebeu com mais calma, tentando sentir o sabor. Coçou a cabeça e mais uma vez colocou a bebida no copo. Virou o copo na goela e, ao voltar o pescoço para frente, sentiu uma tontura e soltou o copo fora da base do criado mudo. Os estilhaços de vidro tomaram o chão do quarto e cortaram levemente o pé esquerdo.

Sentou-se na cama com a garrafa na mão e, sem outro copo entre as poucas coisas do quarto, deu uma golada no gargalo. Lembrou dos piratas de episódios de Chapolin que poucas vezes passaram na televisão na casa da mãe tomando rum e brindando entre piadas e cenários de isopor.

Feliz pelas lembranças e pensamentos diferentes, deixou a garrafa sobre o móvel, e se deitou novamente na cama.

Não demorou muito até que o sono o arrebatasse e os sonhos começassem a surgir. Viu-se acordando e procurando pelo presente ao lado da cama, mas avistando apenas o papel amassado, vazio. Levantou o tronco e sentiu uma pontada. Finalmente, viu a faca de inox ensanguentada.

Capixaba natural de Ecoporanga, atualmente residindo em Feira de Santana-BA; estudante de Pedagogia, escreve desde criança. Apaixonado por café, criança, história, arte e cultura brasileira. A Arte de Viver foi sua primeira novela publicada, além da coletânea Contos Oh! Ríveis, de humor, estando presente em coletâneas de contos e poemas do Projeto Apparere e contos disponibilizados na Amazon.

O gênero policial vem sendo seu novo foco na escrita, explorando a temática familiar, um prato cheio para discutir as relações da sociedade e refletir sobre as atitudes passionais.

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