Festa de Luz


Havia música, dança e brilho por toda parte.

Os corações se alegravam, as batidas sintonizadas aos tambores, ao samba.

Ele a observava, de longe, seus olhos acompanhavam o molejo sensual dos quadris, o brilho da pele morena coberta por glitter e suor, o sorriso genuíno que lhe cobria os lábios e transparecia pelos olhos distraídos.

O rapaz sentia seu peito arder.

Saudade, amor, uma dor que o consumia há milênios e nunca cessava, tudo se misturava enquanto seus olhos encaravam seu único e verdadeiro amor. De longe, deliciava-se com o único momento em que podia vê-la, o único momento que podia, de fato, sentir seu perfume.

Seu castigo eterno lhe dava essa pequena brecha a cada cem anos e, a cada vida vivida por sua doce Charlotte, agora Amanda, ele sentia que o terror e sofrimento valiam a pena. Pagava por seu único pecado, amá-la incondicionalmente, mas não se arrependia, sua alma eterna se alegrava todos os dias com a lembrança de seu doce beijo, mesmo quando seu corpo físico era banhado por dor e desespero.

Caminhando por entre os humanos festivos, o rapaz começou a se aproximar, entrando no embalo dos quadris da morena enquanto a acompanhava, ainda a certa distância. A jovem o encarou, sorrindo receptiva e apoiando suas mãos nos ombros do belo rapaz que acompanhava sua dança.

Ela adorava carnaval, ele bem sabia como ela amava toda aquela festa, toda aquela alegria.

Acompanhando-a com habilidade, acariciou os cachos volumosos que emolduravam seu rosto, parecia o mais belo e alegre dos anjos. Enquanto a observava, implorava a qualquer divindade que estivesse disposta a ouvi-lo para enxergar algum traço de reconhecimento, qualquer sinal de que, guardado em algum lugar profundo da alma já tão vivida de Charlotte, o amor deles ainda estivesse vivo.

Esperava, como todas as outras vezes, seu sinal de libertação.

A mulher o soltou, dando um giro e cantando o samba enredo de sua escola, a vencedora do desfile daquele ano. A comemoração já ia longe e a noite viraria dia logo, trazendo a quarta-feira, o fim de sua alegria, de seu escape.

Mas voltaria para sua prisão feliz, aquele toque acalentaria sua alma pelos próximos cem anos. Lembraria da doçura do olhar, dos lábios bem desenhados sorrindo para si, do toque delicado de suas mãos.

Ah! Por que o amor tem de ser tão duro?

Por que tinha de acabar em cinzas, numa quarta-feira?

Sentindo o corpo estremecer, ele ergueu o olhar, encarando as estrelas enquanto sua estrela corria para a praia, virando-se para observá-lo antes de mergulhar. Ele a seguiu, entrando no mar e preparando-se para mais uma doce despedida.

— Mas qual é o teu nome? — ela perguntou, apoiando os braços nos ombros dele enquanto as ondas do mar embalavam o momento que ele aguardou por tantos anos.

— Não tenho nome e, para ti, não passo de um sonho antigo — sussurrou, beijando-a intensamente instantes depois.

Sentiu o gosto dos lábios de sua amada, fechando os olhos para aproveitar cada pequeno instante ao seu lado e, quando os abriu, viu-se novamente trancado, preso a correntes enquanto seu corpo, ou a manifestação física do que ainda restava de sua existência, tentava sobreviver um pouco mais.

— Eu a amarei eternamente, mesmo que tu não me ames — iniciou sorrindo. — Lembrarei de ti todos os dias de minha existência, mesmo que tu me esqueças. E, quando a próxima festa de luz acontecer, irei vê-la dançar em toda sua alegria e majestade, mesmo que tu não me vejas. Serei para sempre teu, teu Andreas.

Sobre a Autora:

Hellen Heveny, 22 anos, estudante do curso de letras, autora e revisora. Nascida na cidade de Serrinha, BA, atualmente mora na cidade de Jequié. Iniciou no mundo da literatura ainda na infância, escrevendo sua primeira obra quando estava na adolescência, aos 15 anos. Hoje, administra o projeto Revisa Aê e se dedica a escrita de contos, romances e matérias sobre escrita, linguagem e produção.

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