• Luiz

Ironia

Amélia começa a fazer seu ritual de encerramento de expediente do escritório. Ela sente um alívio ao sair desse mar de processos, que , a despeito de toda racionalidade de que nos orgulhamos como espécie, deixam rastros escritos e timbrados do contrário, provando que não avançamos tanto assim!

Agora, ela precisa relaxar, faz um carinho no seu novo e reluzente carro, Que belo fruto do trabalho! Ela chega ao shopping, sentindo que suas “férias" começam agora.

O telefone toca. Ela visualiza, revira os olhos, mas não pode deixar de atender. É cliente.

— Doutora Amélia, como vai?

— Boa noite querida…

Quem passa perto de Amélia sente uma artificialidade bem palpável.

— Novidades do processo?

— Vou entrar com petição amanhã. – respondeu Amélia.

— Não quero dar um tostão pra aquela negra e aquele filho metido dela...

— Entendo, d. Soraia…

— Imagine! Ela quer o dinheiro pra custear faculdade pra aquele projeto de marginal que ela chama de filho. – afirmou com desdém a D. Soraia.

— Não se preocupe querida, vai dar certo…

Com o fim da ligação, Amélia entra nas suas “férias” de novo, passeando com suas sacolas admirando as vitrines. Que sessão de terapia!

De repente, ela esbarra em um rapaz, saindo então do transe. Ela o olha, e, na medida em que ela visualiza as roupas dele, aquela jaqueta de motoqueiro, com um logotipo de lobo ou raposa, um sentimento de menosprezo começa a se formar…

Ele nota a reação, mais que visível, de preconceito.

— Tá cego? – perguntou ela, sentindo-se ultrajada.

— A culpa é sua!

Ela não esperava uma reação tão rápida e firme acompanhada de um olhar mais firme ainda. Um olhar de aço, que a desconcerta pra sua surpresa.

Ela nota algumas sacolas dela no chão, ela volta a encarar o rapaz e dispara: - devia apanhar pra mim!

— Pegue você! – retrucou ele. – tem pé e mão pra isso “Patricinha" – continuou ele.

Ela não consegue encará-lo ao mesmo tempo que apanha algumas sacolas.

Mais tarde, na Praça de alimentação, degustando uma lauta refeição, ela reconhece aquele “metido", que ousou contrariá-la, ela meneia a cabeça em sinal de uma reprovação silenciosa, quando percebe que ele a fita de volta, com gestos parecidos, mas com aquele olhar de franco atirador, o que a incomoda, por não conseguir subjugá-lo nem assim, por sentir uma atração muito incoveniente, por se excitar com aquela pele bronzeada, que envolve uma musculatura que ela se esforça muito pra não reparar. Afinal, seja ele quem for, ela se acha melhor que ele… “sou advogada formada”, pensa ela com esse “rosnado”.

Depois, já saindo em seu novo carro, um presente que deu a si mesma, toma um susto em quase bater em uma moto na saída do estacionamento. Aquela sensação de indignação retorna ao reconhecer a jaqueta do motoqueiro. “Aquele metido”, que cometeu a heresia de lhe dar esse susto. Quando ela menos espera, alguma coisa saiu rapidamente por sua boca:

— Tá maluco, porra!!???

Ela fica surpresa com sua reação, uma profissional que mantém suas emoções na rédea curta.

— Sua irresponsável!, maluca é você!

De novo aquele rapaz, a jaqueta não deixa dúvida, ela sente, mesmo sob um capacete com uma viseira espelhada, aquele olhar de aço que a inibiu na loja e na Praça de alimentação.

Ela não consegue acreditar na ousadia “desse sujeito”, esse sujeito que a tirou do sério, que mexeu com ela de maneira que jamais vai admitir. Quando ela se recobra do momento, está sozinha, continua seu caminho de volta pra casa, com sua novidade motorizada, seu “cheiro de novo”, o afago no seu ego. De repente, depois de um choque no trânsito mais que inesperado, ela acorda numa cama de hospital, muito atordoada…

Uma enfermeira se aproxima e a informa que ela está lá há dois dias, que um motoqueiro a socorreu e a trouxe até o hospital. Amélia pergunta se recebeu alguma visita nesse meio tempo. A enfermeira responde que não, apenas o motoqueiro, que tinha ido embora pouco tempo antes de ela despertar, quando atendeu uma chamada. Continuando o relato, a enfermeira, demonstra certo “entusiasmo" enquanto fala do rapaz, que ele se preocupou genuinamente com Amélia, assegurando também que seus pertences não se perderiam.

Uma sensação invade Amélia depois desses informes, uma sensação de constrangimento…

Ela fica mais estarrecida quando vê o nome do “sujeitinho metido” no registro de acompanhante, o filho da empregada que move a ação contra D. Soraia, sua cliente, Amélia engole em seco sem saber o que fazer e pensar, ela que sempre se sentiu mais que senhora de si…

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