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Marionete de Circo

Um sorriso de palhaço. Isso não estava na divulgação, Verônica fala sozinha, puxando as alças da mochila. Os vincos saem das laterais da porta e as janelas parecem olhos. A mulher confere o endereço. Sim. É o chalé alugado. Sete dias numa praia distante. Sem dados móveis, pessoas conhecidas ou afazeres. Entra na casa com mobília da década de setenta. O lugar é franciscano, exceto pela marionete jogada entre as almofadas, pensa, ao retirar a carteira da mochila.

A forasteira dirige-se ao mercado do vilarejo e, ao entrar no lugar de chão batido, teto mofado e paredes descascadas, nota o manequim feminino diante da tv 14 polegadas. Ao lado, a atendente de cabelos vermelhos e raiz branca, enfiada numa camiseta desbotada da banda The Cure. Antes de levantar do banquinho de madeira encardido e retirar os olhos da tela, a mulher traga o cigarro e pergunta Qual seu desejo, madame? Verônica pede macarrão instantâneo e água mineral com gás. Enquanto arrasta os chinelos para buscar os produtos, a vendedora lança:

- Me chamo Marisa. Onde a senhora e o marido estão hospedados?

- Estou no Chalé da Curva do Diabo.

- Sozinha?

- Sim.

Corajosa – diz ao exibir um sorriso sem rugas e uma garrafa sem rótulo asfixiada pela mão direita. Produção local. A melhor cachaça. Todos que ficaram no chalé beberam. Não voltaram para agradecer, mas também não voltaram para reclamar. Leve. Cortesia da casa.

Verônica aceita como quem pega um panfleto numa avenida lotada. Durante o retorno, para na beira da praia e decide apreciar a bebida. Olha a areia e nota uma trilha de formigas saindo do mar. Segue-a até o chalé. Uma por uma entra no corpo da boneca. As cordas são manipuladas por dedos invisíveis. Pernas, braços e pupilas de madeira ganham vida. A mulher esfrega os olhos. Tudo normal. Estou tonta, pensa, ao tirar a roupa. Toma um banho, permanece nua, joga-se sobre o sofá. Bebe o restante da cachaça e adormece. Quando acorda está com a boca arregaçada. Formigas de fogo invadem seu corpo, preenchem os espaços, corroem as vísceras.

Igual marionete inversa, Verônica levanta. Enxerga a atendente do mercado enfiada no corpo do manequim feminino. Olha em volta. Um circo está armado: arquibancadas lotadas, malabaristas no picadeiro, trapezistas aos ares e maçãs caramelizadas entre dentadas. Com um sorriso sem rugas em volta dos olhos, Marisa fala:

- Não fique sozinha, madame. Venha para a diversão. Mas, primeiro, precisamos cobri-la. Iniciemos pelas cordas nos cotovelos.

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