Noite do Chá de Hibisco

Ao descer de seu Escort preto, em frente ao Fran's & Fran's, o mais novo empreendimento de sua amiga Marcela Francisco, foi recebida pela anfitriã na porta.

— Agatha, sabia que você viria me prestigiar.

— Tu me conhece e sabe que não sou de rejeitar comida.

— E eu tenho certeza de que você vai gostar.

— Confesso que sou adepta da minha dieta nordestina normal, mas não podia deixar de apreciar algo diferente.

Enquanto Agatha acomodava-se, Marcela fazia sinal a uma das garçonetes para que trouxesse o chá da casa.

— Espero que se sinta bem. Já mandei lhe servirem a maravilha da noite. Um maravilhoso chá de hibisco.

Agatha tentou esconder o descontentamento, mas a amiga percebeu.

— Não faça essa cara, tenho certeza de que vai gostar. Estamos servindo a todos e a aprovação é grande.

— Acredito.

Os olhos passando pelo salão percebiam a família de Marcela, presente em quase todas as mesas, além dos colegas de escola e até vizinhos e conhecidos da nova empresária.

— Está lotado — comentou a advogada.

— São todos flores do hibisco, são apenas beleza. O cálice que realmente importa, pois cuida da semente.

Quando todas as mesas pareciam abastecidas do chá vermelho rubi, Marcela subiu no pequeno palco no canto do salão e tomou o microfone.

— Boa noite. Gostaria de agradecer a todos que compareceram na inauguração do mais novo café da Vila Madalena. Tenho certeza de que este lugar será palco de bons momentos na vida de todos nós. Como cortesia de nosso primeiro dia de funcionamento, a marca do nosso estabelecimento, o saboroso chá de hibisco, está sendo oferecido a todos e, em uma espécie de brinde, peço que tomemos todos de uma vez, para dar sorte ao nosso novo lugar.

Todos os presentes empunharam as xícaras e as goladas foram quase que simultâneas.

Em poucos minutos, o primeiro corpo caiu, seguido, como um dominó, por todos os outros convidados.

Os olhos se abriram, lutando contra um peso nas pálpebras. As luzes das viaturas refletiam na vitrine Agatha levantou-se e seguiu até a porta. Mello Sá estava sendo colocado na ambulância, enquanto carros do IML recolhiam os outros corpos. Ao chegar na calçada, um policial veio a seu encontro.

— Venha para o atendimento médico.

— O que aconteceu?

— Até onde sabemos, foram todos envenenados. Por enquanto, apenas você e o delegado estão vivos. Ele foi levado ao hospital.

— E a Marcela?

— A dona do estabelecimento ainda não foi encontrada.

Agatha foi levada ao hospital. Após vários exames, foi liberada.

No apartamento, na praça Pedro Lessa, o descanso no sofá foi interrompido pelo telefone. Atendeu e qual não foi a surpresa ao reconhecer a voz Marcela.

— Eu só quis ter certeza de que você estava bem.

— Por que tu fez aquilo?

O silêncio reinou por intermináveis segundos, até que Marcela concluiu.

— Obrigada por ser meu único cálice.

Encerrou a ligação.

Capixaba natural de Ecoporanga, atualmente residindo em Feira de Santana-BA; estudante de Pedagogia, escreve desde criança. Apaixonado por café, criança, história, arte e cultura brasileira. A Arte de Viver foi sua primeira novela publicada, além da coletânea Contos Oh! Ríveis, de humor, estando presente em coletâneas de contos e poemas do Projeto Apparere e contos disponibilizados na Amazon.

O gênero policial vem sendo seu novo foco na escrita, explorando a temática familiar, um prato cheio para discutir as relações da sociedade e refletir sobre as atitudes passionais.

 
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