O livreiro da rua Augusta

Estacionou o Escort preto, desligou o som, que tocava Marina Lima, e entrou no sebo, uma pequena porta na rua Augusta.

— Boa tarde, Agatha. Já te esperava, encontrei uns exemplares que são a sua cara.

— Tu já conhece meu gosto, né, Hugo.

— Claro, o que eu queria mesmo era sentir.

— Quem sabe o dia em que você baixar o preço do Garcia Roza. Sei que são maravilhosos, mas pra levar todos de uma vez não dá.

Olhou para uma caixa aos pés do balcão, viu um sutiã de renda e livros de antropofagia, abertos dentro da caixa. Saiu com dois exemplares de um escritor de romance policial.

Em frente à loja, sempre via as mesmas mulheres. Uma, alta e extravagante, aparentando pouco menos de trinta e cinco anos, e outra adolescente, gorda, vestida com vestidos curtos e colados. O sorriso de Agatha atravessava a rua e enchia os olhos da garota do outro lado, que retribuía com outro sorriso, mas este não conseguia esconder a tristeza no fundo.

Uma semana depois, logo ao sair do sebo, a mão de Agatha foi agarrada bruscamente. Era a garota do sorriso triste.

— Moça, minha mãe sumiu.

— Como?

— Ela entrou no carro de um cliente recorrente e não voltou mais.

— Tem quanto tempo isso?

— Dois dias.

— Onde vocês moram?

— Não temos casa, só usamos um quarto nos fundos de um prédio abandonado pra guardar as roupas.

— E onde dormem?

— Na cama de que pagar pela noite toda.

— Vem, vou te levar pra minha casa.

— Não, não posso. Começo no trabalho daqui a pouco.

— Tu já vive disso?

— Não tive escolha, é uma profissão de família. Só não herdei o corpo da minha mãe ou da minha avó.

— Pega uma folga até a gente achar sua mãe.

— Vamos perder o posto e os clientes.

— Depois a gente resolve isso, vem comigo.

Entraram no carro e partiram. Já no apartamento de Agatha, na praça Pedro Lessa, a garota tomou um banho e se apertou num pijama da advogada.

— Rasgou desse lado, moça, eu disse que não ia servir.

— Se avexe não. Agora senta que eu estou fazendo um cuscuz pra te apresentar uma comida nordestina, acho que tu vai gostar.

— Obrigada, moça.

— Acho que já passou da hora da gente se apresentar, né, sou Agatha Montalvão.

— Sofia.

— E tu tem quantos anos?

— Quinze.

— E qual o nome da sua mãe?

— O nome dela mesmo é Elimara, mas no trabalho é Deisy. É assim que os clientes a conhecem.

— Tu disse que o cliente que levou ela da última vez era conhecido?

— Sim.

— E qual o nome dele?

— Não posso falar, a última que revelou que ele usava nossos serviços desapareceu.

— Mas se tu não falar não tem como eu achar sua mãe, bichinha. Vou avisar a polícia.

— Não, por favor.

— Então como quer que eu te ajude?

— Não sei. Só te puxei mais cedo por desespero, talvez minha mãe esteja de volta e me esperando, vou voltar pro ponto.

— Não, espera. Tudo bem, sem polícia. Mas só se tu me disser quem é o cara.

— Você acha que eu vou falar pra você ligar pra polícia? Se fizer isso, aí sim minha mãe some de vez e eu também!

— Esse cara e tão perigoso assim? Sofia, tu tem que confiar em mim, ou então não devia ter me procurado.

— Desculpa. Eu estou nervosa, com medo. E se a minha mãe não voltar? E ele me pegar também? E...

— Ei, calma que tu já está afobada. Vamos por partes, me conta a história deste cliente.

— Ele era cliente de uma mulher num ponto perto do meu e da minha mãe. Até que essa mulher revelou pela vizinhança que ele usava os serviços dela e ele deu um fim nela.

— Você conhecia essa mulher?

— Era a minha avó.

— E vocês nunca souberam o que houve?

— Eles discutiram por alguma coisa, acho que porque ele não queria mais minha avó. Na verdade, depois que a minha avó sumiu ele me quis, foi a primeira vez que tive que fazer isso, eu nunca tinha...

— Entendi.

— Tem umas duas ou três semanas, desde então ele vem quase todo dia e me leva pra um lugar nos fundos de uma loja ali perto. Mas nesse último dia ele chamou a minha mãe, que entrou no carro e não apareceu até agora.

— Tu acha que, desculpa, mas que possa de ter acontecido o mesmo que com a sua avó?

— Não sei, não sei o que pensar. Nem posso imaginar seguir sozinha.

— Calma. Tu não está mais sozinha.

— Estou. Estou sentindo que vou ter que me acostumar e...

— Ei, não pensa assim. Agora chega, vamos descansar e amanhã a gente pensa direito nas coisas.

Na manhã seguinte, percorreram algumas ruas da Consolação em busca da mãe de Sofia, mas sem sucesso. Pararam em uma padaria ao lado do sebo, em frente ao ponto de Sofia, para um café.

— Sofia, enquanto tu não me disser quem é o tal homem eu não posso fazer nada. Tenho que ter alguma pista.

— Tá, eu falo. Mas antes, tenho que ir ao banheiro.

Levantou-se e seguiu para o interior do estabelecimento. Dez minutos depois, com a ausência da garota, saiu para procurá-la, mas Sofia não estava mais no recinto.

Novamente nas ruas, Agatha rodou, dessa vez à procura da garota, que, com certeza, já tinha se embrenhado pelo bairro.

Durante dois dias não se teve notícias de Sofia, até que, ao sair do carro para entrar no sebo da rua Augusta, avistou uma moeda na calçada. A pegou e entrou na loja.

— Ah! A dama da minha semana! Chegou uma remessa nova hoje e eu ainda não abri, está quase na hora de fechar. Você aceita ver os novos exemplares comigo?

Enquanto o livreiro falava, Agatha pegava uma edição de luxo de David Coperfield, que se encontrava sobre o balcão.

— Boa tarde também, Hugo.

— Boa noite, já passou das seis.

— Sabe o que já passou também?

Deu com o calhamaço na cara do livreiro, que, com o nariz sangrando, atirou o box de Sherlock Holmes em direção da advogada, que revidou com a coleção de contos de Monteiro Lobato, acertando-lhe a quina no olho de Hugo. Enquanto o livreiro cobria o olho irritado com as mãos, Agatha passou pelo balcão e lhe engatou o pescoço entre o braço.

— Abre o bico. Fala logo o que tu fez com ela.

Com a respiração escassa, sussurrou.

— Do que está falando?

— Eu vi o sutiã na semana passada, só não tinha ligado os fatos.

A advogada apertou mais o pescoço do livreiro, que, com esforço, apontou para os fundos do estabelecimento.

Agatha entrou no depósito arrastando Hugo, ainda preso pelo pescoço, e adentrou alguns cômodos escuros e mal cheirosos. Passando uma das portas do quase labirinto que se formava nos fundos da loja, viu três corpos femininos pendurados na parede, todos sem os seios. Um, aparentando uma mulher de cerca de cinquenta anos, o outro, aparentando cerca de trinta e cinco, e o terceiro, de Sofia.

Capixaba natural de Ecoporanga, atualmente residindo em Feira de Santana-BA; estudante de Pedagogia, escreve desde criança. Apaixonado por café, criança, história, arte e cultura brasileira. A Arte de Viver foi sua primeira novela publicada, além da coletânea Contos Oh! Ríveis, de humor, estando presente em coletâneas de contos e poemas do Projeto Apparere e contos disponibilizados na Amazon.

O gênero policial vem sendo seu novo foco na escrita, explorando a temática familiar, um prato cheio para discutir as relações da sociedade e refletir sobre as atitudes passionais.

21 visualizações2 comentários
 
  • Facebook
  • Instagram
  • YouTube

©2020, Literatura Errante®, por Instituto dos Artistas Errantes.