Quando ela chegou

Quando ela chegou? As ruas já estavam vazias, cobertas pelo silêncio, tão barulhento, que cortavam os sons das palavras, que eu deveria falar; provavelmente se eu falasse estragaria aquela conversa toda, que nossos olhos, nossos toques, que nossas línguas falavam. Não sabia que horas eram, nem onde ela estava ou com quem estava; nesses momentos, pra que saber? Ela botava a mão, puxava meu zíper, sentava no meu colo, mordia minhas orelhas, ao longe parecia uma trapezista, subindo e descendo o meu corpo.

Com seu batom meio que borrado, mostrava o uso, daquela boca por alguém. Seu vestido preto tinha um pequeno rasgo atrás, como se alguém tivesse puxado, pedindo a clemência, o, por favor, de não vá embora, mas lá estava ela!

Puxando meu cabelo, arranhando minhas costas, puxando minha mão pra sua boca, regendo a orquestra dos prazeres carnais. E eu passeava dentro do seu paraíso! Sentia como um menino apaixonado pela professora, que nas aulas dela, corria pras primeiras cadeiras, só pra ver seu balançar, apagando o quadro.

Sua pele, alguns lugares tinha um toque de roxo porrada, como se alguém tivesse extrapolado o gozo e soltado a mão com ferocidade. E me puxava com os pés, soltava a mão no meu rosto, depois o beijava com gosto, apertava minha bunda, surrava em meu ouvido. Aquelas coisas eram o ciclo do infinito, passando em meu peito a sua língua, rasgando minha carne, tatuando seu belo rosto. E ela me prendia em suas pernas, esfregava em minha cara, sentava , deitava, abria a boca e depois sorria, como se eu fosse não apenas um cliente, não fosse só o boneco de dinheiro dela, não fosse mais outro cara que tinha os trezentos reais pra pagar seus serviços, mas o futuro pai dos filhos dela, seu verdadeiro e único amor. E assim os minutos se passaram, e a seção acabou, ela se vestiu novamente e foi embora, me deixando novamente a sua espera.

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor. Escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.

 
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