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Sete Mulheres


Foto por Dieter G (Pixabay)

Diego entrou no quarto de seu amigo Jackson, um grande escritor famoso e renomado. O encontrou na cama, sentado, debilitado, abatido, triste, pensativo...

– Consegui o que me pediu meu amigo. – Disse Diego.

Dias atrás, Diego fora surpreendido por seu amigo com um pedido inusitado e diferente: Jackson pedira para ele ir à busca de sete mulheres, sete mulheres que um dia quase foram suas, que um dia amou como nunca em sua vida. A primeira foi ainda na primeira série, tinha sete anos de idade, Evelyn. A segunda foi na terceira série, se chama Flávia. A terceira ele conheceu com doze anos, Alice. A quarta com dezessete anos, Ticiane. A quinta com dezenove anos, Caline. A sexta com vinte anos, Larissa, e a última, que ele julga a pior de todas as dores, tinha vinte e três anos, Thaís. Anos se passaram e ele nunca conseguiu amar ninguém; algo diferente lhe consumia, agora com 40 anos... Nada via em sua frente, nada a não ser um fio de esperança de reencontrar essas mulheres e vê-las pela última vez...

Diego se viu em maus lençóis, porém seu trabalho como investigador da polícia lhe ajudou bastante em sua busca dessas sete mulheres. Por um instante ficou sem entender o tal pedido inusitado do amigo, porém se fosse para vê-lo bem... Ele faria o possível para encontrar essas mulheres.

Uma delas ele conhecia bem, Larissa, pois é sua prima. Foi a primeira a procurar e recrutar para a visita ao amigo. Procurou pelas outras através de conhecidos e do próprio Jackson. Chegou até Alice através da irmã de Jackson, conseguiu recrutá-la para a visita. Thaís, a última mulher que ele amou, Diego já conhecia e então foi até a casa da moça e recrutou-a para a visita. Ticiane foi encontrada através de um amigo que Jackson o indicara para procurar, Alexandre o guiou até o local onde ela trabalhava e recrutou-a para a visita. Quanto Caline, a irmã de Jackson ajudou-o a procurá-la, e quando a encontrou, recrutou-a para a visita.

Cinco delas ele encontrou com certa facilidade, porém as duas que ele conhecera na infância... Foi até a escola que Jackson estudara na infância. Por ser da polícia, chegou ao local sobre o pretexto de estar em uma investigação, a secretária o levou aos arquivos e lá ele encontrou várias garotas com nomes semelhantes ao que Jackson lhe dera: Evelyn e Flávia... A primeira ele apaixonou-se por ela na primeira série, a segunda na terceira série.

Com os nomes ele digitou num aplicativo de amizades, foi então que selecionou todas as fotos de garotas com esses nomes e apresentou a Jackson, ele reconheceu-as através de seu olhar: nunca esqueceu aqueles rostos, e também sentiu algo que pulsou dentro dele. Diego conseguiu encontrar então todas. Jackson descobriu que elas estão bem, já casadas, outras com filhos...

Agora ele estava ali, sentado em sua cama esperando ansioso a chegada de seu amigo com as sete mulheres que ele amou nessa vida. Desejava vê-las uma última vez, queria sentir-se bem, queria se renovar através daquelas criaturas que despertaram o amor dentro dele.

Naquela manhã, Diego as avisou que poderiam ir até o local e cada uma chegou acompanhada de seus respectivos esposos, Diego pediu-os para ficarem na sala e apenas elas subiram.

Jackson fitou aquelas sete criaturas em sua frente e... Simplesmente chorou. Conquistara grandes coisas em sua vida, mas aquele momento lhe bateu tanto quanto todo sucesso que alcançou em sua vida.

Todas ficaram sem ação diante daquela cena de choro dele. Thaís precipitou-se em direção a ele, aproximou-se da cama e disse:

— Acalme-se... Está tudo bem...

O choro desceu com tal intensidade que ele não conseguia sequer controlá-lo, quando conseguiu ter o controle, olhou para todas elas mais uma vez e disse:

— Não sabem o quanto é importante para mim estarem aqui.

— O que aconteceu com você? Não precisa ficar assim... Erga-se, siga em frente... Você mesmo, num livro seu, disse que as piores dores o tempo pode aplacar... Por que não acredita nisso?– Disse Caline.

— É fácil escrever Caline, o difícil é viver o que se escreve, embora boa parte dos meus livros sejam histórias verídicas que já vivenciei, mas não consegui entrar em consenso com o tempo. O grande mestre.

Uns segundos de silêncio seguiram-se, Evelyn disse:

— Nunca imaginaríamos que fôssemos lhe deixar assim...

— Não se sintam culpadas, eu sou o culpado.

— Saiba que sempre estarei aqui. Como amiga. Não precisa ficar assim, olha o que você conquistou! Olha aonde chegou, alcançou tudo que sempre quis... E... Tenho medo que isso seja uma... Depressão.

— Não, não é uma depressão. É algo mais forte que isso.

— Não deixe isso tomar conta de você. Você é forte, eu sei. – Disse Larissa.

— Agradeço muito pelas palavras de força. Todas. Mas, só queria ter essa sensação de felicidade, me sentir bem, por uma última vez...

— Última vez?! Não diga isso! – Exclamou Flávia. – Lhe admiro muito, sua vida, seus livros... Não merece ter um fim assim.

— Obrigado Flávia, fico feliz com isso..., mas não as chamei aqui para falar de mim, e sim de vocês.

Elas se entreolharam confusas.

— Nós?

— Sim. Como estão? A vida...

— Estamos bem... Muito bem. – Responderam.

— Felizes?

— Sim.

— Isso que importa.

— Queremos sua felicidade também. – Disse Alice.

— Obrigado. Mas, vocês estando felizes, eu estarei feliz.

— Você também.

— No que vocês se tornaram também me faz sentir felicidade. Evelyn se tornou médica. Flávia, professora. Alice, Enfermeira. Ticiane, Farmacêutica. Caline, enfermeira. Larissa... Você conseguiu realizar seu sonho, se tornou sargenta do exército e formou-se em enfermagem... Você fica linda nesta farda, com todo respeito. E você, Thaís, também realizou seu sonho, se tornou enfermeira da marinha... Vocês merecem, conseguiram o que tanto queriam.

— Você também! Olha o que conquistou, olha o patamar que alcançou na literatura, como professor... Você tem fama, tudo... — Disse Thaís.

— Sim..., mas tudo isso não preenche esse vazio em meu peito... Não preenche.

— Nisso você tem razão, mas não se entregue à tristeza, ou seja lá o que for... Para pra pensar em sua irmã, em sua sobrinha... – Disse Larissa.

— Ela tem a família dela e está bem. Não sentirá tanto minha falta.

— Não diga isso!

— É como eu penso.

— Pode contar com nossas ajuda. – Disse Caline.

— Agradeço.

— Promete que vai se cuidar? Que não vai deixar isso tomar conta de sua vida? – Disse Evelyn.

— Vou tentar. Só o fato de ver vocês, já me sinto bem. Diego.

Diego, que estava ali o tempo todo ao canto disse:

— Sim.

— Chame os esposos delas, por favor.

Diego desceu, chegou à sala, os fitou e disse:

— Vocês... Podem subir, ele pediu.

Os sete rapazes seguiram Diego, chegaram ao quarto de Jackson e cada um se juntou às suas esposas.

— Esse é... Seu filho, Larissa?

— Sim.

— Lindo menino... Parabéns.

Ele olhou para os rapazes e disse:

— Prazer em conhecê-los. Vocês são homens de sorte. Casaram com mulheres incríveis. Deem a elas todo amor que um dia eu quis dar, mas quis a vida que fosse vocês... Vocês foram os felizardos, vocês que conquistaram o coração delas. O que quero que façam é: Ame-as verdadeiramente, com toda força que há em vocês, como se fossem as últimas mulheres desse mundo. Ame-as de todo coração.

Ele olhou pela janela e respirou fundo. Um choro teimou em descer. Thaís aproximou-se e abraçou-o, ele sentiu-se bem com aquilo, quando se afastou, disse:

— Fique bem, tá bom?

— Sim.

Cada uma delas lhe abraçou. Sentiu-se tão bem com cada abraço, com cada palavra... Sentiu-se um tanto... Feliz. No fim, Diego despachou todos, antes de sair, Thaís disse a Diego:

— Qualquer coisa nos deixe informadas, por favor.

— Pode deixar. Obrigado.

O desejo de Jackson foi realizado. Diego retornou ao quarto de seu amigo e encontrou-o na janela observando as sete mulheres que fizeram parte de sua vida indo embora, deixando-o, mais uma vez, sozinho.

Uma lágrima escorreu por seu rosto, Diego ficou observando parado e não interferiu no momento, esperou um pouco e quando achou propício, aproximou-se.

— Melhor agora?

— Chorar é bom. Liberta-te de muitas coisas, te deixa mais leve.

Ele fitou o amigo ali diante de si, Diego até aquiesceu-se um pouco, pois ele nunca tinha o olhado daquele modo.

— Obrigado meu amigo, por tudo. Por tudo que fez por mim, por ter me ajudado, por embarcar em minhas loucuras.

— Que nada. Sei que faria o mesmo por mim.

— Claro que sim. Mas, vou lhe agradecer de alguma forma.

— Não precisa. Só quero lhe ver bem.

Jackson aproximou-se do amigo e lhe deu um forte abraço, um abraço demorado, caloroso e que dizia muitas coisas. Diego percebeu que ele chorava, então apertou mais o abraço, quando se afastou, disse:

— Fique bem meu amigo. Tá bom?

Diego deixou a mansão. Jackson ficou com o ermo em sua casa, aquele ermo já era costumeiro em sua vida, mas agora ele estava diferente, mais morto, mais... Frio.

Pela manhã, no dia seguinte, Diego foi até a casa do amigo para sua visita matinal de sempre. Tinha uma cópia da chave, pois era seu melhor amigo e de confiança, entrou chamando por ele, imaginou que depois de ontem... Ele estaria bem melhor. Andou pela casa, quando chegou ao quarto abriu a porta lentamente.

— Ainda dormindo? O dia está lindo...

Ele continuou deitado, “sono pesado” pensou Diego, aproximou-se da cama do amigo.

— Jackson...

Puxou o lençol com um sorriso no rosto, uma brincadeira de amigos... Porém ele permaneceu deitado, Diego esmoreceu seu sorriso, pois algo de estranho havia no ar...

— Jackson... Jackson, Jackson! Não... Não...

Ele não queria acreditar… Entrou em desespero, checou os pulsos, tentou ouvir o coração, o sacudiu em desespero.

— Não! Não!

Correu ao telefone, ligou para a emergência e logo uma ambulância chegou ao local. Notificou a irmã de Jackson, que entrou em desespero e correu para o hospital junto de seu esposo. Diego também entrou em contato com as mulheres, as quais foram ao hospital em aflição[DFA1] ... Todos na sala de espera, o médico apareceu e eles se levantaram.

— Doutor? Meu irmão!

— Acalmem-se, sejam fortes. Tentamos de tudo..., mas ele faleceu.

Tristeza[DFA2] , choro, faces de descrença partiu de todos...

Diego se responsabilizou pelo velório e enterro. A morte de Jackson repercutiu, por ser famoso. Foi enterrado no mesmo local onde a vida também enterrou três das pessoas que ele mais amava na vida e ter perdido elas foi o que lhe abalou tanto também: sua avó, sua mãe e seu tio.

Diego, por ser da polícia, pensou ter sido um suicídio. Junto de alguns amigos da polícia e perícia, fizeram uma investigação e acharam muito estranho não encontrarem nenhum vestígio que poderia deduzir um suicídio.

Durante esse tempo, Diego encontrou uma carta. Ficou surpreso e intrigado, pela data... Foi na noite em que ele faleceu. Foi num momento, sozinho no quarto do amigo, que ele abriu aquela carta e leu:

“Quem sabe não estarei mais aqui quando esta carta for encontrada, não sei quem a lerá, mas quero que fique aqui gravada minhas últimas palavras em vida. Agradeço a todos, amigos, parentes, todos que sempre quiseram meu bem, meu melhor... Obrigado pela força, por embarcarem em minhas loucuras, mesmo que insanas... Vivam cada dia como se fosse o último de suas vidas, pois não sabemos o dia de amanhã, ame quem está ao seu lado como se fosse a última vez, pois o dia de amanhã não nos pertence... Se eu não estiver mais aqui quando esta carta for lida, quero que fique claro que lutei, tentei, porém... Não consegui. Deixo minha casa, minhas posses, tudo para minha pequena sobrinha e minha irmã, e claro, para meu melhor amigo, Diego, a casa de praia em Recife e o apartamento em Angra dos Reis são seus... Fiquem com Deus. Amo vocês”.

Diego se lembrou: “Vou lhe agradecer de alguma forma...”.

O choro desceu. A irmã de Jackson chorou muito ao ler a carta. Ninguém soube a causa da morte, ninguém soube o que aconteceu... Às vezes, o que achamos que pode ser melhor para nós, acaba sendo algo que causa destruição.

Palavra " [DFA1]Desespero" repetida. Trocar por aflição, agonia, angustia... [DFA2]Palavra " [DFA2]Desespero" repetida. Trocar por aflição, agonia, angustia...

 

Sobre o Autor:

Nasceu em Manaus/AM é formado em Letras – língua portuguesa e literatura, pós graduado em didática do ensino superior, professor, escritor, poeta, músico, dramaturgo, compositor, contista e roteirista. Autor do livro: OS TRÊS. Tem trabalhos em duas antologias poéticas, ama escrever, criar e se perder em seus mundos que tanto lhes tira da realidade.


Instagram: @jazinosoares

Facebook: Jázino Soares

 

Revisão: Danielle Fredini

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