Severina



Edmilson chega ao posto para supervisionar e recolher a renda do fim de semana.Por ele ser supervisor geral, a maioria dos gerentes e funcionários da rede de postos o bajula.

Sua silhueta não está mais esbelta,por culpa dos pastéis e cervejas de fim de semana. Desenho icônico, alguns funcionários comentam sobre a "pochete" proeminente, alguns empregados até falam que o "querido" chefe veio da feira, por ter uma melancia embaixo da camisa...

Nesse posto ele nota uma nova frentista,

com uma pele negra que ele não consegue evitar de olhar.

Essa atração automática incomoda, ele se aproxima dela com um andar de "autoridade", arqueando as sobrancelhas e passando a mão, num gesto pacificador, no estômago avantajado.

— Bom dia.

— Bom dia — respondeu ela, finalizando um atendimento.

— Foi transferida quando?

— Sexta.

Edmilson a fita, evidenciando o desagrado ante às respostas monossilábicas.

— Teu nome? — indagou ele, com rispidez.

— Severina.

— É de onde?

— Acre — respondeu ela, num tom seco.

— aAcre… — repetiu Edmilson, meneando a cabeça.

— Ah, ah, ah, ah, ah, ah. — Riu ele, só pra desestabilizar a moça. — É lá que tem esses índios piolhentos desfilando na calçada? —

perguntou Edmilson, com flagrante expressão de nojo e sarcasmo.

— Com licença — respondeu ela, indo atender outro carro.

— Presta atenção no trabalho! — disse ele, apenas pra não "enfrentar" um silêncio constrangedor. Seus "truques" não estavam surtindo efeito, ela não estendeu o tapete vermelho...

Seu incômodo com aquela "negrinha" petulante cresce a cada dia que ele vai lá, por ela não dar a atenção que a maioria das funcionárias costuma prestar. Quando ele menos espera, está levantando a ficha dela.

Ele entra no carro com as pastas, sob os acenos de todos, menos dessa "cafuçu" que produz pensamentos do tipo:

"quem ela pensa que é?".

Dias se passam, Edmilson chega com seu filho, entra no escritório do gerente do posto e pede uma reunião com todos.

— Gente, bom dia, preciso da ajuda de vocês, de voluntários para doação de sangue.

— Precisa de quantos funcionários? — indagou Paulo, gerente do posto.

— O médico nos informou 1 ou 2 — respondeu Edmilson coçando a cabeça, tentando lembrar-se da informação exata. — É pro Sr. Francisco Rodrigues, meu tio… —

completou.

Ao mesmo tempo, ele nota Severina mirando languidamente seu filho, Edmilson Jr, próximo aos computadores, no canto da sala.

"O que essa piranha de piche pensa que está fazendo?", rosnou, em pensamento, Edmilson.

Um dos frentistas interrompe o "rosnado mental" do supervisor:

— O que houve com seu tio seu Edmilson?

— Ele quebrou a bacia numa queda. Conto com a boa vontade de todos.

Com os dias, Edmilson ouve as mais variadas desculpas, dessas que se engole até com farinha.

O medo de ambientes hospitalares...

O segundo velório da sogra ou da mãe...

Mas a justificativa campeã foi o "penetrante" medo de agulha.

Edmilson se pergunta onde está toda aquela "cortesia" nessa hora.

No outro dia, Edmilson chega com alguns papéis da demissão de Severina, ele nota que a mesma não está lá.

Ao mesmo tempo que Edmilson vê algumas chamadas perdidas de seu filho no celular, ele avista Severina chegando.

— Está atrasada por quê? — disparou ele, com sua adorável contundência.

— Estou voltando do banco de sangue, com seu filho, seu Edmilson...

Sobre o Autor:

Luiz Rodriguez, com a vida inaugurada em Brasília, estudou  telecomunicações, espanhol e inglês. Começou a rabiscar textos com cerca de 12 anos, comédia a maior parte.

Descobriu na literatura um mundo à parte, com o qual poderia expressar o que transborda da alma. Sempre com uma lupa em escritores experientes.

Revisão: Tatiana Iegoroff

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