Thomas Wolfe, um gigante esquecido

POEMAS TRADUZIDOS

por Daniel Cosme*


Lá em meados do século XX, o mundo tinha Thomas Wolfe (digo: em carne e osso), um escritor norte-americano bastante prolixo ― talvez, um dos mais prolixos de sempre ― que apesar de sua morte prematura, aos 37 anos, em pleno amadurecimento, tornou-se dono de uma vasta obra que inclui romances, contos e novelas (todos mal reconhecidos atualmente).

Wolfe não é um gigante apenas pelos manuscritos volumosos, nem só pela sua aparência física, mas em ambições: seu sonho era criar um novo mito americano a partir da sua própria biografia. Talvez tivesse conseguido, como o próprio Faulkner reconheceu, se vivesse mais, aprendesse mais. De qualquer forma, já em 1991, a editora nova-iorquina Scribner, responsável pela publicação das obras referentes à sua primeira fase de escritor ― Look Homeward, Angel (1929) e Of Time and the River (1935) ― publicou o livro cujo título faz referência à epígrafe do primeiro romance do autor: A Stone, A Leaf, A Door. Nele encontram-se excertos da extrema prosa poética de Wolfe, todos versificados, “transmutados” em poemas.

Seja pela sua fama de retórico ou pelas predicações tomadas pela crítica atual, sua obra foi escanteada por motivos diversos que incluem xenofobia e racismo ― reducionismos prontos a queimar um romance por conta de uma cena que, muitas vezes, não passa do retrato de um personagem histórico (da primeira década do século passado) esboçado pelo autor a partir de suas vivências ― daí a importância de reconhecer o teor autobiográfico de seus livros.

Pois bem, ainda que você procure pacientemente, pela internet, não achará uma tradução sequer dos trabalhos de Wolfe, além de uma edição já esgotada da antologia de contos O menino perdido, publicada pela Iluminuras, e trechos de suas cartas na biografia sobre Maxwell Perkins (seu principal editor). Tendo isso em vista, estão abaixo as minhas traduções de três poemas encontrados na antologia, juntamente com o texto original. Vale lembrar que Wolfe não era um poeta, na acepção comum da palavra, muito menos um artesão na elaboração da sua prosa massiva; mas, em sua melhor forma, poderia evocar passagens líricas de beleza ímpar, com o brilho de um “escritor cósmico”. Por hora, não interroguemos a natureza formal dos textos em relação às intenções primeiras do autor, mas apreciemos o resultado.


Como o Rio

Por que estais ausente, à noite, meu amor?

Onde estais quando soam os sinos noturnos?

Agora, há sinos outra vez

Que estranho ouvi-los

Nesta vasta cidade adormecida!

Agora, em um milhão de cidades menores,

Agora, nos sombrios e solitários lugares desta terra,

Sininhos estão tocando o tempo!

Ó minha negra alma,

Minha filha, minha querida, minha amada,

Onde estais agora,

E em que lugar,

E a que horas?

Ó, anel, doces sinos, acima dele

Enquanto dorme!

Envio meu amor a ti sobre esses sinos.

Tempo estranho, para sempre perdido,

Para sempre como o rio, fluindo!

Tempo perdido, pessoas perdidas e amor perdido ―

Perdido para sempre!

Não há nada que possas segurar

Lá no rio!

Não há nada que possas manter

Lá no rio!

Leva seu amor, leva sua vida,

Leva os grandes navios saindo ao mar,

E leva tempo,

Obscuro, delicado tempo,

Os pequenos instantes de estranho tempo

Contam-nos até a morte.

Agora na escuridão

Eu ouço o passar do tempo sombrio,

E todo o triste fluxo secreto da minha vida.

Todos os meus pensamentos fluindo como o rio,

Toda a minha vida passando como o rio,

Eu sonho e falo e me sinto como o rio,

À medida que ele passa por mim,

Por mim, para o mar.



Like the River


Why are you absent in the night, my love? Where are you when the bells ring in the night? Now, there are bells again, How strange to hear the bells In this vast, sleeping city! Now, in a million little towns, Now in the dark and lonely places of this earth, Small bells are ringing out the time! O my dark soul, My child, my darling, my beloved, Where are you now, And in what place, And in what time? Oh, ring, sweet bells, above him While he sleeps! I send my love to you upon those bells. Strange time, forever lost, Forever flowing like the river! Lost time, lost people, and lost love— Forever lost! There's nothing you can hold There in the river! There's nothing you can keep There in the river! It takes your love, it takes your life, It takes the great ships going out to sea, And it takes time, Dark, delicate time, The little ticking moments of strange time That count us into death. Now in the dark I hear the passing of dark time, And all the sad and secret flowing of my life. All of my thoughts are flowing like the river, All of my life is passing like the river, I dream and talk and feel just like the river, As it flows by me, By me, to the sea.



Primavera

O outono foi gentil com eles,

Para eles o inverno foi longo―

Mas em abril, ao fim do mês,

Todo o ouro cantou.

A primavera chegou naquele ano como mágica,

Como música e como canção.

Um dia sua respiração estava no ar,

Uma premonição assustadora de seu espírito

Encheu os corações dos homens

Com sua transformadora beleza,

Fazendo sua repentina e incrível feitiçaria

Sobre ruas cinzentas, calçadas cinzentas,

E nas marés cinzentas e sem rosto do enxame cifrado de homens.

Veio como música fraca e distante,

Veio com triunfo,

E um som de canto no ar,

Com lamentos de doce gritar dos pássaros

Ao amanhecer

E a alta, rápida passagem de uma asa,

E um dia estava lá

Nas ruas da cidade

Com um estranho, repentino grito verde,

Sua afiada faca de dor e alegria sem palavras.

Nem toda a glória

Da grande plantação da terra

Poderia ter superado a glória das ruas da cidade

Naquela primavera.

Nem o grito dos grandes campos verdes,

Nem a canção das colinas,

Nem a glória das jovens bétulas

Estourando outra vez à vida ao longo das margens dos rios,

Nem os oceanos de flores nos pomares floridos,

Os pessegueiros, as macieiras,

As ameixeiras e cerejeiras―

Nem todos os cantos e o ouro da primavera,

Com abril explodindo da terra

Em um milhão de gritos de triunfo,

E o passo visível,

Os pés floridos da primavera

Quando veio pela terra,

Poderia ter ultrapassado a comovente glória sem palavras

De uma única árvore em uma rua da cidade

Naquela estação.



The Spring

Autumn was kind to them,

Winter was long to them—

But in April, late April,

All the gold sang.

Spring came that year like magic,

Like music, and like song.

One day its breath was in the air,

A haunting premonition of its spirit

Filled the hearts of men

With its transforming loveliness,

Working its sudden and icredible sorcery

Upon grey streets, grey pavements,

And on grey faceless tides of manswarm ciphers.

It came like music faint and far,

It came with triumph,

And a sound of singing in the air,

With lutings of sweet bird-cries

At the break of day

And the high, swift passing of a wing,

And one day it was there

Upon the city streets

With a strange, sudden cry of green,

Its sharp knife of wordless joy and pain.

Not the whole glory

Of the great plantation of the earth

Could have outdone the glory of the city streets

That Spring.

Neither the cry of great, green fields,

Nor the song of the hills,

Nor the glory of young birch trees

Bursting into life again along the banks of rivers,

Nor the oceans of bloom in the flowering orchards,

The peach trees, the apple trees,

The plum and cherry trees—

Not all of the singing and the gold of Spring,

With April bursting from the earth

In a million shouts of triumph,

And the visible stride,

The flowered feet, of Springtime

As it came on across the earth,

Could have surpassed the wordless and poignant glory

Of a single tree in a city street

That Spring.


Ó Perdido


Não devemos voltar outra vez.

Nunca mais voltaremos.

Mas sobre todos nós, sobre todos nós,

Sobre todos nós―algo está.

O vento pressionou os ramos;

Tremiam as folhas secas.

Era outubro, mas algumas folhas tremiam.

Uma luz sobre a colina oscila.

(Não devemos voltar.)

E sobre a cidade uma estrela.

(Sobre todos nós, sobre todos nós que não voltaremos).

E ao longo do dia a treva.

Mas, sobre a treva―

O que?

Não devemos voltar.

Nunca mais voltaremos.

Ao longo do amanhecer uma cotovia. (Nunca mais será)

E vento e música distantes.

Ó perdido! (Não será outra vez.)

E sobre sua boca a terra.

Ó fantasma!

Mas, sobre a treva―

O que?

O vento pressionou os ramos;

Tremiam as folhas secas.

Não devemos voltar.

Nunca mais voltaremos.

Era outubro,

Mas jamais nossa volta.

Quando eles retornarão?

Quando eles retornarão?

O louro, o lagarto e a pedra

Jamais voltarão.

Foram-se as mulheres que no portão choravam,

E jamais voltarão.

E passarão a dor e o orgulho e a morte,

E jamais voltarão.

E passarão a luz e o amanhecer,

E a estrela e o grito de uma cotovia passarão,

E jamais voltarão.

E nós passaremos,

E não voltaremos.

Que coisas retornarão?

Ó, primavera, a mais bela e cruel das estações,

Virá outra vez.

E os homens estranhos e enterrados

Novamente virão,

Em flores e folhas

Os homens estranhos e enterrados

Virão outra vez,

E nunca mais o pó e a morte voltarão,

Pois um e outro

Morrerão.

E Ben voltará,

Não morrerá novamente,

Em flor e folha,

Com vento e música distantes,

Voltará outra vez.

Ó perdido,

E pelo vento afligido,

Fantasma,

Reapareça.


O Lost


We shall not come again. We never shall come back again. But over us all, over us all, Over us all is—something. Wind pressed the boughs; The withered leaves were shaking. It was October, but some leaves were shaking. A light swings over the hill. (We shall not come again.) And over the town a star. (Over us all, over us all that shall not come again.) And over the day the dark. But over the darkness— What? We shall not come again. We never shall come back again. Over the dawn a lark. (That shall not come again.) And wind and music far. O lost! (It shall not come again.) And over your mouth the earth. O ghost! But, over the darkness— What? Wind pressed the boughs; The withered leaves were quaking. We shall not come again. We never shall come back again. It was October, But we never shall come back again. When will they come again? When will they come again? The laurel, the lizard, and the stone Will come no more. The women weeping at the gate have gone, And will not come again. And pain and pride and death will pass, And will not come again. And light and dawn will pass, And the star and the cry of a lark will pass, And will not come again. And we shall pass, And will not come again. What things will come again? Oh, Spring, the cruellest and fairest of the seasons, Will come again. And the strange and buried men Will come again, In flower and leaf The strange and buried men Will come again, And death and the dust will never come again, For death and the dust Will die. And Ben will come again, He will not die again, In flower and leaf, In wind and music far, He will come back again. O lost, And by the wind grieved, Ghost, Come back again.


“Quando examinamos os momentos, atos e declarações de todos os tipos de pessoas não apenas a dor e o êxtase dos maiores poetas, mas também a enorme infelicidade da alma média, como evidenciado pelas inúmeras palavras estridentes de abuso, ódio, o desprezo, a desconfiança e o desprezo que incomodam para sempre nossos ouvidos à medida que o bando de homens passa por nós nas ruas descobrimos, creio eu, que todos estão sofrendo da mesma coisa. A causa final de sua reclamação é a solidão.


* Daniel Come é estudante de Letras, na Universidade Federal de Pernambuco, poeta e tradutor eventual. Tem poemas publicados pelas revistas Arcádia, Aboio e Habitat. Atualmente dedica-se à publicação de lírica e crítica na Literatura Errante, enquanto trabalha no projeto de seu grande poema.

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