Um amor de distanciamento social


Hoje, eu deitei na varanda e olhei as nuvens. Ontem, sentei no sofá e reassisti a mesma história trágica pela décima vez, não sei porquê, mas, nesses dias após muitos meses, eu fiquei assim, um pouco distante, um pouco vazio.

O trabalho em casa é meio complicado, hora a internet cai, hora eu surto com a invasão na minha casa pelo chefe mandão, mas enfim, esse é o normal por enquanto, enquanto não tem vacina.

Ah, "Faça os seus dias valerem apena" é o nome da série que sempre volto a assistir. Acho que é porque, nessa situação, sinto que não estou fazendo isso em casa com minhas paredes. A vida parece tão sei lá, sem cor.

Já é carnaval e não se vê nem sombra disso. As ruas do centro não foram fechadas e as pessoas não se juntam em grandes bandos em busca de alegria, de um canto para dançar e recuperar a energia, a energia para viver mais um ano dentro de uma rotina que nem sempre permite muita felicidade.

É… estamos cansados, fadigados, precisando ainda mais de gente, gente para abraçar, gente pra sorrir, gente para ficar com a gente, mas enquanto não posso, me contento com a minha varanda, com os pássaros e com as nuvens que me fazem sentir inveja de sua liberdade.

Olho para o prédio da frente, do outro lado da rua, e examino, mais uma vez, todas as sacadas na esperança de ver algo novo. Nada me surpreendia, até que meus olhos finalmente chegam a varanda oposta à minha.

Ele estava lá, em pé, sorrindo feito bobo com os cachos caindo sobre a testa, quase escondendo os olhos, segurando um grande cartaz que dizia "sorria é carnaval".

Parecia uma ideia boba, uma pessoa sorrir só porque é carnaval no meio dessa coisa toda, mesmo assim não pude deixar de sorrir.

"O carnaval foi cancelado", eu gritei fazendo minha voz cruzar o abismo tão pequeno que nos separava.

Em resposta, ele franziu o rosto em uma careta como se pensasse em algo e então se sentou começando a escrever no cartaz.

"Não incomode os vizinhos", ele escreveu. Me fazendo sentir um pouco bobo por gritar assim. Diante do meu claro embaraço, ele sorriu ainda mais, como se estivesse vendo algo muito divertido.

Pensei em gritar de novo, mas não me pareceu muito certo. Fiz um bom e velho sinal de "espera aí", corri para dentro de casa, peguei uma folha de ofício e escrevi o que queria. Com uma mira certeira, joguei uma bolinha de papel que atravessou a rua e caiu na varanda do vizinho de baixo, me deixando com uma bela cara de palhaço. Resolvi voltar pra dentro e deixar as coisas no ar.

Sentado no sofá, não pude deixar de pensar em que tipo de impressão eu devo ter passado, até cogitei sair na varanda novamente, mas o tempo em casa, provavelmente, me tornou um analfabeto social.

Com a cara enfiada na tela do celular, me perguntei o que ele poderia estar querendo, de certo, não é muito comum ficar assim parado com um cartaz. Mergulhado em meus pensamentos, quase não percebi a campainha tocando.

Peguei a máscara que deixava sempre na mesinha perto da porta e tratei de ver o que se passava. Era o seu Julho, o porteiro. Ele trazia nos braços uma grande caixa que tinham deixado para mim na entrada.

Achei estranho já que não tinha encomendado nada, mas, como seu Julho garantiu que não era engano, levei pra dentro e abri a caixa com uma faca. Para minha surpresa, nela havia adereços e badulaques típicos do carnaval junto com uma foto do senhor sorridente do prédio vizinho.

Na foto, ele estava todo pintado e coberto de glitter, lantejoulas e confetes, com um sorriso tão largo, naquele rosto de traços tão fortes, que era um encanto aos meus olhos. No verso da foto, um QR CODE que leva para uma live de título "24h de carnaval em casa", nela tocava as músicas mais comuns do carnaval de Salvador.

Curioso com aquilo tudo, fui até a varanda e lá estava ele sorrindo e enfeitando a sua com máscaras e paetês, colocando cor e vida numa rotina cinza.

Ele olhou pra mim no meio de todo aquele colorido e ergueu um cartaz "sorria é carnaval". No meio de uma gargalhada sem jeito, decidi entrar na brincadeira, peguei as coisas da caixa e enfeitei minha varanda. Assim, a gente levou o carnaval.

Eu cá e ele lá, os dois com a música nos fones de ouvido, dançando sozinhos e ainda assim acompanhados, olhando um para o outro numa estranha alegria, numa imensa folia até que o cansaço bateu e acabamos sentados de frente um pro outro ouvindo os hits que embalaram milhares de pessoas como nós.

É como diz uma música "Hoje o sol não apareceu", "É o fim da odisseia terrestre", "Fugiremos nós dois na arca de Noé", não sei se é o fim do mundo, mas sei que, hoje, fugimos juntos e curtimos um bom carnaval, com direito a alegria, a bobeira e talvez até mesmo um amor daqueles que nunca esperamos encontrar. Sorria é carnaval.

O Autor:


Nascido na cidade de Feira de Santana no interior Baiano, Jonycley Rodrigues (ou simplesmente JC Rodrigues) publicou seu primeiro livro, "A voz do anjo", pela editora EllA, no ano de 2020. Participou da antologia em homenagem a Isaac Asimov publicada pela Arkanus Editora, "Historias do cotidiano" pela Verlidelas, e "Filantropia do mal" organizada por Pris Magalhães.

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