Um Grande e Misterioso Talvez

Atualizado: Set 25

Olhando pela pequena sacada do apartamento na praça Pedro Lessa, Agatha observava uma mulher, sentada a vários dias na mesma posição no centro da praça. Pode ser uma nova moradora de rua.

Juntou alguns pães, uma porção de cuscuz, uma xícara de café e desceu ao encontro da desconhecida. Agachou-se e estendeu o prato.

— Obrigada, moça.

— Tem dias que tu está aqui e não te vi comendo.

— É.

O olhar não negava o espanto com os hematomas percebidos no corpo da mulher, que comia o cuscuz com um brilho no olhar.

— Qual o seu nome? — Perguntou a advogada.

— Sônia.

— E tu é de onde?

— Não sei.

A mulher respondia com o olhar distante e desatento. Focava no infinito e falava mansamente, como se refletindo ou imaginando.

— Você está perdida? — Continuou a advogada.

— Talvez.

— Então você mora na rua?

— Talvez.

— Não estou entendendo.

— Ele ficou pra trás.

— Ele quem?

— Finalmente.

— Quem? Seu marido? Filho?

— Eu olhei pra trás e vi os chifres de quem levou ele.

— Como?

— Ele caiu e eu saí. Olhei pra trás e vi quem carregou ele.

— E quem foi?

— Não sei. Só vi os chifres.

— Oxe. Era um bicho?

— Era homem.

— Quem levou ou quem foi levado?

— Os dois.

A confusão na cabeça de Agatha não a deixava chegar a outra conclusão senão a total falta de sanidade mental de Sônia, se é que esse era mesmo seu nome.

Voltou ao apartamento e ligou para Mello Sá.

— Tem uma mulher aqui na praça há alguns dias.

— Moradora de rua?

— Não sei. Levei um café pra ela e conversei um pouco, mas a bichinha está mais perdida que padre em cabaré. Não fala coisa com coisa. E está bem machucada.

— Mas não deu nenhuma informação?

— Disse só o nome, Sônia. E ficou falando de um homem com chifres que levou outro. Fiquei em dúvida se era corno ou demônio.

— Mas o que você viu nela pra essa preocupação?

— Nada. Só estranhei. A bichinha ali no meio da praça, magra que só o sibite baleado, o corpo só o hematoma, falando lé com cré.

— Acha que ela pode ser vítima de alguma coisa?

— Pode ser, sei lá.

— Vou verificar alguns boletins recentes.

Dois dias se passaram e Agatha, sempre ao chegar em casa, se debruçava na sacada a observar Sônia. Continuava do mesmo jeito, sentada no mesmo lugar, olhando para o infinito. No terceiro dia, Mello Sá ligou pela manhã.

— Um pouco mais cedo e me pegava de camisola.

— Pena que não liguei mais cedo, então.

— Descobriu alguma coisa?

— Foi complicado, mas achei um caso com o delegado da 100ª DP, no Jardim Herculano. Um homem foi encontrado morto na casa onde morava com a esposa, Sônia.

— Será que é ela?

— O delegado me informou que os vizinhos alegaram ouvir brigas cotidianas.

Enquanto conversavam, Agatha andou até a sacada a fim de avistar Sônia.

— Espera. — Disse, interrompendo o delegado. — Ela está deitada.

— É cedo, deve estar dormindo.

— Não, eu já vi ela outros dias nesse horário e ela estava na mesma posição de sempre. Vou lá ver o que aconteceu.

Saiu do apartamento com a delegado no celular. Atravessou a rua e chegou até o corpo deitado de bruços na praça. Frio e inerte.

— Eu acho que... ­— Suspirou profundamente — Já foi ao encontro do marido.

Quase uma hora depois, o IML recolhia o corpo na praça, enquanto Agatha encolhia o rosto entristecido no peito do delegado Mello Sá.

— Será que teremos alguma resposta?

— Não sei. Mas até então a única resposta que temos é talvez.

Capixaba natural de Ecoporanga, atualmente residindo em Feira de Santana-BA; estudante de Pedagogia, escreve desde criança. Apaixonado por café, criança, história, arte e cultura brasileira. A Arte de Viver foi sua primeira novela publicada, além da coletânea Contos Oh! Ríveis, de humor, estando presente em coletâneas de contos e poemas do Projeto Apparere e contos disponibilizados na Amazon.

O gênero policial vem sendo seu novo foco na escrita, explorando a temática familiar, um prato cheio para discutir as relações da sociedade e refletir sobre as atitudes passionais.

 
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