Criados da Noite

Douglas precisava chegar à linha três antes que o sol fosse engolido pelo horizonte. Deu play em duas coisas ao mesmo tempo: o álbum do Silva e a corrida pela vida. A chuva estava forte na República; era difícil saber se o dia estava virando noite muito rápido ou se ele que estava desesperado para sobreviver. Enquanto corria, a voz do cantor no fone de ouvido o acalmava um pouco. Era sua estratégia para não desencadear uma crise de ansiedade.

O rapaz desrespeitava o toque de recolher todo dia para cumprir o turno extra da farmácia em que trabalhava como capacitante, a mais de quinze quilômetros de casa. Se chegasse até a estação e embarcasse no vagão aquela tarde, teria mais uma chance para o dia seguinte.

Desceu as escadas procurando o bilhete úmido no bolso, torcendo para não precisar comprar outro. Passou pela catraca. O relógio acusava cinco e quarenta e dois da tarde. Na internet dizia que o pôr do sol seria às cinco e quarenta e cinco. Que Deus tivesse misericórdia de sua alma!

O vírus epidemiológico Cria-13-8 cobria o globo. A maioria das pessoas mal saía de casa, respeitando o toque de recolher. Ninguém deveria estar na rua quando a noite caísse, não havia possibilidade de cura. Só que, no fim das contas, o governo negligenciava as precauções. Mais mortes, menos gastos públicos. Não era à toa que o metrô funcionava mesmo após o horário sugerido como seguro.

Douglas sentou-se ofegante em um dos bancos duros e gelados do vagão, refletindo se valia a pena ralar como louco em um estabelecimento corrupto. Antes que pensasse demais, a imagem da filha surgiu em sua mente. Era por Clarice que se esforçava, se desdobrava, se fodia todo santo dia, trabalhando quase setenta horas na semana por uma miséria.

O metrô balançou e a iluminação tremeluziu. Era um daqueles trechos a céu aberto da linha vermelha. Douglas pulou de pé, mas ninguém se mexeu. As poucas pessoas ali mantinham-se cabisbaixas como o sol que já havia desaparecido. O trem perdeu velocidade, apenas para ganhar o dobro um instante depois.

Então, as luzes se apagaram.

Douglas tentava aparentar calma enquanto tateava em busca da porta. Por que não esperou a porra de um vagão deserto?

Os vidros estavam embaçados; a chuva calma e quase inaudível do lado de fora, enquanto o lado de dentro estava à beira de um colapso.

O rapaz se agarrava à melodia nos fones de ouvido, em uma tentativa de repelir a crise que estava por vir, quando um grito mais alto que a canção ecoou. Ele puxou os fones, escutando as ânsias típicas dos criados da noite. Mais um arrebatamento.

As luzes do vagão se reacenderam. Douglas contava os segundos para o indicador da próxima estação brilhar e ele correr para a porta. Por um momento, ele ousou olhar, e precisou cobrir a boca para não gritar com a cena diante de si.

Eles vinham em sua direção, farejando, em busca de carne. Tornaram-se desumanos com a noite, os criados cegos, bebedores de sangue. E não havia nada para saciá-los além do seu corpo esguio e ossudo. Douglas enxergava a sede nos globos oculares sem cor, a pele tão translúcida que era possível ver as veias secas berrando por sangue. O rapaz precisava lutar não só por sua vida, mas principalmente por sua humanidade.

Num raciocínio impulsivo, ele distribuiu alguns chutes para afastar os bichos. Correu para o lado oposto do vagão, perseguido com a vantagem de um único passo. Jogou-se contra a porta, forçando a trava de segurança do metrô. Encolhendo-se cada vez mais, sentia a pressão o esmagando, os predadores puxando seu braço enquanto distribuía murros desordenados.

Caiu com um baque surdo no trilho do lado de fora. Estava livre.

Depois de vários minutos, Douglas ousou se levantar. A cabeça latejava pelo impacto. Sentia a barriga arder, esfolada com a pressão da porta, o cotovelo sangrando. Seus joelhos vacilavam quando ele tentava dar um passo. Olhou para o celular, para a foto da filha na tela de bloqueio. Já eram quase seis e quinze, todo um turbilhão acontecendo em questão de meia hora. Uma reviravolta drástica do destino que quase o arrebatou. Mas ele estava indo de volta para ela, para casa, graças a Deus.

Quando deu por si já estava quase na estação Artur Alvim, o que significava só mais uns dez minutos de caminhada.

Rezava pela própria vida enquanto adentrava o bairro, observando as grades de segurança das casas, as cercas elétricas estalando, alguns pedaços de corpos humanos meio comidos jogados pela rua. Aquilo fazia parte do que chamavam de “novo normal”. As imagens desolavam seu sono, eram seu testemunho diário da dor. Suas roupas estavam sujas e rasgadas, o que o ajudava a se misturar com os bichos, a não ser pelo cheiro de sangue.

Quando chegou na rua de casa, ouviu algo se arrastando. Mais adiante, notou que o portão estava aberto, a porta escancarada. Douglas entrou correndo, o desespero subindo junto com a bile pela garganta. Quando alcançou o quarto da filha, a cama estava vazia. A cena de seus pesadelos mais cruéis se concretizava em frente ao espelho, do lado oposto do cômodo.

Douglas não teve tempo de ativar qualquer reflexo. A boca faminta do predador estava enterrada no ombro de Clarice, que chorava e esperneava enquanto marcavam sua alma, infectando sua humanidade. Ele viu seus olhos perderem a cor, o reflexo sumir no espelho atrás dela. Um segundo antes da transformação daquela noite, a criança meio humana e meio criada proferiu suas últimas palavras:

— Que bom que você chegou, papai.


Sobre o Autor:

João Pedro Mask é um campineiro introvertido, sagitariano e riscador de palavras desde que aprendeu a pegar no lápis. Divide seus dias entre escrever cenas melosas, criar conteúdo na internet e cuidar do coelhinho Black Phillip, além de divagar pela Floresta de Canais sempre que possível. Autor da duologia “Lenda da Linhagem” composta pelas noveletas “Fihama” (2019) e Arantxa (em breve), e do conto de Natal “Um Acontecimento Inesperado” (2020), ele é do tipo de pessoa que adora dormir com o barulho de chuva batendo na janela.

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