O Estupro

Prefácio

Como autor, afirmo categoricamente que não compactuo e considero plenamente injustificável qualquer tipo de abuso, inclusive os de natureza sexual. Como editor, coordenador e criador do Literatura Errante, tenho segurança em asseverar que estes valores são compartilhados por nossa equipe. Mais informações no Posfácio, para evitar spoilers.

O Estupro

     Ele vinha andando pela rua meio sem pressa. Periferia, beco, bocada, terreno baldio. Pensava como ali talvez fosse tão perigoso, mas não temia.

     Foi quando de longe avistou uma movimentação um tanto frenética. Um vai-e-volta até meio violento. Aliás, agora via melhor, era mesmo muito violento. Uma moça tentava desgarrar-se dos braços de dois rapazes, que a seguravam. Um, diante dela, agarrava seus braços, impedindo que ela o machucasse com eles; outro, segurava seu corpo, e impedia com sua mão que ela gritasse.

     É um estupro”, pensou ele. “E agora, o que devo fazer?"

     Escondeu-se atrás de um muro para não ser percebido, observou atentamente, enquanto pensava. Avaliou a situação: eram dois caras jovens, franzinos, a moça era forte, atlética. Eles ainda não a tinham dominado. Talvez, se ele a ajudasse, tivessem chance de reverter o quadro. Salvá-la, talvez, quem sabe?

     E via a moça se debatendo como louca, tentando se livrar dos dois caras. Só fazia medo ela conseguir fugir e ele apanhar sozinho dos caras. Afinal, ele nem era tão grande, nem era dois, para confiar tanto...

     Mas o desespero da moça aumentava a cada minuto. E ele já não se conformava em passar tanto tempo ali, só olhando. Resolveu ajudá-la. Viu que os dois caras estavam desarmados. Tentavam contê-la com a força de seus punhos, mas ainda não a haviam domado.

     Ele se aproximou, e, tentando ser irônico – talvez fantasiasse ser o batman, ou o super-homem – perguntou: “Posso ajudar?”.

     Fez-se um instante de tensão. Todos pararam, esperando o que viria acontecer a qualquer instante. A moça olhou para ele, aflita. Os rapazes, intrigados, assustados. Ele, percebendo a besteira que fazia, se viu desesperado. Foi então que um dos rapazes quebrou o silêncio.

     "Sim, pode ajudar. Segure as pernas dela, que vamos levantar a saia.”

     Ele já não tinha qualquer reação. Aproximou-se mais e, confuso, segurou-lhe as pernas. Ela, aproveitando-se da distração dos rapazes, tentou gritar por socorro. Os rapazes a calaram. Agora, sim. Estava pronta. Juntos, deitaram a moça, que ainda se debatia, e iam começar a animalesca cópula.

     Não mais suportando o que via, teve ânsia de vômito. Na verdade, ele não sabia se a ânsia era pela grotesca cena, ou se pelo cheiro que subiu quando um dos rapazes abriu as calças.

     Não podia mais continuar fazendo aquilo. Com um pedaço de ferro que via no chão, perto de si, rasgou a barriga de um dos rapazes e cortou a aorta do outro. Assustada, a moça só podia chorar. Ele tentou consolá-la, mas ela não permitiu maiores aproximações.

     "Eu só tinha que distraí-los para salvá-la.”, dizia. Mas ela só chorava.

     Ele tentou levá-la a uma delegacia, mas ela não saía dali de junto dos corpos. Então, ele compreendeu que ela não estava pronta. Mesmo sabendo que ela não estava segura ali, ele a deixou e foi buscar ajuda policial. Contou, na delegacia, o que havia acontecido, lá ficou depondo, enquanto alguns recrutas saíram ao encontro da moça.

     No dia seguinte, o caso era capa de jornal. Dizia a manchete, em letras garrafais:

     "MOÇA ESTUPRA DOIS POLICIAIS, E SOFRE REVIDE DA CORPORAÇÃO, COM ESTUPRO COLETIVO”

     Contava a matéria que, satisfazendo seu fetiche de ser estuprada, em companhia do marido e o amante, assistiu a uma violenta intervenção de um louco, que matou os dois. Não satisfeita, pulou em cima do pescoço do primeiro policial que viu, quase o matando, e terminou sendo estuprada pelos três policiais que lá foram ajudá-la. Declarou a moça que estava saciada. “Me livrei de um marido fraco e de um amante grudento, e ainda satisfiz meu desejo de adolescente, de dar para mais de um policial ao mesmo tempo”, declarou, ainda, aos jornalistas. “Eles, pelo menos, tinham força pra me segurar”, completou.

     Ele sonha com aquele corpo nu se debatendo toda noite, e agora responde a inquérito policial em liberdade, tentando alegar legítima defesa de outrem. O advogado garante que ele será inocentado.


Pablo Gomes, abril de 2007


Posfácio

A despeito do seu título, como pode ter sido observado, este texto não discute estupros, e sim fetiches, um reduto da mente humana para lidar com desejos reprimidos. Escrito há mais de uma década, este texto poderia ter sido ajustado à realidade de hoje, quando tantas denúncias de abuso sexual têm pululado na mídia. No entanto, o autor, procurando seguir o exemplo de Huxley com o Admirável Mundo Novo (não estão sendo comparados os autores, mas, a decisão tomada por ambos), decidiu não atualizar o texto, para manter a essência de como ele foi pensado ainda na ignorância do futuro (de quando foi escrito), ainda que a nova publicação já tenha sido feita quando a realidade mudou. No máximo, foram feitos ajustes editoriais e de revisão, para a melhor experiência do leitor. Assim, está registrado e documentado não apenas o momento do autor, como o momento histórico em que o texto foi escrito.

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator e escritor. Escreve em versos desde a infância e entrou de cabeça no universo dos contos e romances em 2009. Escreve em diversos gêneros, desafiando-se regularmente. Tem trabalhos em obras realistas, de fantasia, ficção histórica entre outros. Idealizou o Literatura Errante, inicialmente um blog, e tem batalhado para fazer o Literatura Errante acontecer nos novos moldes.

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