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Paul Schaff

“Ó, sombria noite, levai esses malditos pensamentos que me inquietam!”

Meu clamor ecoou por cada canto do cemitério e todas as tumbas e mausoléus devolviam minha voz com o dobro do pesar. Já passava da meia-noite e apenas as aves noturnas me faziam companhia, repousando nos galhos secos dos candelabros. Passei pelo corredor principal e virei à esquerda, sabia o caminho de cor e salteado. Me espremi entre algumas sepulturas e chutei algo sem querer, era um osso humano, mais precisamente um úmero. Pouco me importei, essa observação mórbida era piegas se comparada ao meu gélido coração, que não era aquecido pela chama do amor há meses.

Paul foi o primeiro e único homem da minha vida. Meu colega, meu amigo, meu amante, meu namorado, meu noivo. Todas as funções num só homem, Paul era tudo que eu precisava. O conheci enquanto trabalhava no laboratório da universidade. Eu nunca tive o hábito de me socializar, por isso escolhi o ramo da pesquisa desde o início da academia. Não demorou muito até ele aparecer, o corpo magro coberto por uma camisa social, quase sempre escondida pelo jaleco branco. O rosto de menino, que não aparentava ter tamanha inteligência, possuía olhos negros e sedutores. Seus lábios... Ó, seus lábios! Rubros, brilhosos e chamativos. Me perdia toda vez que ele pronunciava qualquer coisa. Até mesmo a vidraria mais banal tornava-se poesia quando dita por aquela boca sublime.

Seu cheiro, seu hálito, seu toque sutil e delicado. Quantas qualidades eu poderia passar horas me deleitando! Mas toda vez que ouso pensar nisso a memória do meu amado tortura-me como correntes medievais, pois sei que não poderei tê-lo novamente junto a mim. Continuei a caminhar até parar em frente ao seu túmulo, composto por uma lápide simples encomendada por mim mesmo. Paul nunca gostou de extravagâncias na vida, quem dirá na morte. Ajoelhei-me perante a sepultura como os religiosos fazem em seus altares. Louvei Deus Paul, senhor da paixão, mestre das ciências e evocador dos sentimentos rupestres dos homens. Como toda vez que visitava aquele local inóspito, a pomba da lembrança alçou voo em minha mente, trazendo consigo a primeira vez que o beijei.

Convidei-o para jantar em minha casa e ele, com sua voz doce, aceitou de bom grado. Pois bem, me esforcei para preparar o melhor jantar que ele já tivesse degustado, apesar das minhas carências culinárias. Durante boa parte da noite nem toquei na comida, me resumi a observá-lo. Mastigando, engolindo, umedecendo os lábios. Paul era uma pintura viva em constante movimento, e eu precisava me unir à sua moldura. Após a ceia, ele agradeceu e fez menção de ir embora. Pedi para que esperasse mais um pouco, francamente, quase implorei. Ele concordou e passamos horas conversando sobre experimentos, política nacional, sobre astrologia e misticismo. Em determinado ponto da, seus olhos pousaram sobre o piano de calda no meio da sala.

Paul perguntou se eu sabia tocar. Respondi que não, aquele piano era uma herança de família e eu apenas o matinha em bom estado em memória daqueles que já se foram. Ele se levantou em direção ao instrumento, se sentou no banquinho em frente ao piano e passou os dedos de leve pelas teclas brancas. Subitamente, sem pedir permissão ou avisar, começou a tocar. Ó serafins! Um dia hei de ouvir-lhes tocar tão harmoniosa sinfonia! Sua mão direita tocou duas mínimas e uma semínima, meu coração contraiu em sístole. A esquerda, uma colcheia e foi a vez da diástole. Estava óbvio que dedilhava mais que um piano velho, ele tocava a partitura do meu coração.

Desse ponto em diante, me debrucei em lágrimas e o abracei. Nada neste plano falho chegaria aos pés do poder que ele exercia sobre mim. Apertei-o com força, como se seu corpo pudesse se transformar em fumaça e se misturar ao ar. O ouvi grunhir e nos afastamos para permitir que nossos rostos estivessem de frente um para o outro. Pousei uma mão sobre sua tez levemente áspera devido a barba por fazer. Eu só desejava que Paul fosse meu. Que o mundo lá fora acabasse, que o fim dos tempos chegasse naquela noite, pouco me importava! Então eu o beijei e jurei que minha vida estava feita. A cada toque nossas almas se misturavam, ignorando qualquer linha de demarcação que por ventura existisse. Trouxemos o paraíso para a Terra naquela noite, banhados pelo aconchego do escuro, apenas nós, ou melhor eu. Paul era eu e eu era ele, sem distinções de identidade. Éramos o eu supremo.

Nos meses que se passaram vivemos uma rotina feliz de pesquisa, jantares, conversas na madrugada e muita, muita, paixão. Além disso, também servíamos de companheiros um para o outro. Ágape e Eros eram tolas classificações comparadas ao nosso quisto laço. Namoramos e depois noivamos. Contudo sempre há impasses nessa vida para atrapalhar o plano daqueles que escolheram a felicidade. Dei-me conta disso quando os demônios apareceram. Criaturas obscuras e sardônicas que existem apenas para apodrecer a relação dos bons e justos! Elas se apresentaram como o carteiro, como o jardineiro, como a atendente da padaria e até como colegas acadêmicos.

Usaram suas línguas afiadas contra Paul, sempre questionando e se metendo onde não foram chamados. Que meu querido me perdoe, mas seu único defeito era sua ingenuidade. Ele permitia que os outros o controlassem, mexessem com sua mente e o hipnotizassem. Começaram a me maldizer na presença dele, plantaram sementes de dúvida e Paul regou-as até se tornarem árvores. Seu comportamento mudou. Ele passava momentos longos afastado de mim e nossos jantares alegres ficaram monótonos. Porém, o que mais machucou meu ser foi quando ele recusou meu afeto.

Quando o vi conversando com um dos demônios muitas dúvidas cessaram. Este capeta apareceu como um vizinho que havia chegado recentemente ao bairro. Ele e Paul trocavam receitas e artigos de jornais. Passaram a se encontrar todas as tardes para ir à padaria e só Deus sabe porque demoravam tanto. Numa noite – naquela fatídica noite – minha paciência se esgotou. Eu precisava ir até a cova daquele diabo e ensinar-lhe uma lição. Não iria deixar que meu noivo fosse vítima das suas artimanhas malignas! Mas ao tentar pôr em prática meu plano, fui impedido por Paul. Não consegui compreender sua ação, estaria ele sobre o efeito de algum feitiço?

Segurei sua mão, depositando um beijo casto sobre ela. Tentei levá-lo de volta à cama, mas ele se recusou. Insisti mais vezes, sem sucesso. Argumentei, mas ele não cedeu e para piorar aumentou o tom de voz. Paul nunca gritou comigo durante todos os anos de convivência. A princípio, me assustei, contudo, não me abalei. Eu poderia falar acima dele quantas oitavas eu quisesse, porque ele me pertencia. Somente a mim e a ninguém mais. O fogo da discussão aumentou, saliva quente saia como fagulhas de nossas bocas. Meu corpo suava e tremia, ele não tinha o direito de me deixar assim, não depois de tudo que fiz por ele. Eu particularmente não pretendia fazer-lhe nada. Jamais machucaria a razão do meu viver. Mas ele se aproximou como se para me intimidar e disse em voz baixa, quase inaudível, o mais tenebroso dos maus agouros: “Eu nunca te amei”.

Paul, por que disse isso? O ódio subiu pelas minhas pernas como se viesse do submundo, o sangue borbulhou em meus vasos. Como supracitado, fazer-lhe mal não era meu intuito, porém, um jarro de plantas estava próximo e minha mão se moveu sozinha. Infelizmente, Paul estava perto demais. Foi tudo um plano arquitetado pelos lacaios de Chernobog para dar fim a nossa felicidade! Eu lidaria com eles em outro momento. Antes de tudo, precisava esconder meu terrível ato. Retirei os lençóis da cama e embrulhei o corpo dele, chorando a todo instante. A única coisa que me confortava era que a vida de Paul havia sido tirada por mim. Coloquei-o no banco da charrete e parti para o cemitério que visitaria inúmeras vezes noites depois. Ninguém suspeitou de nada e quando vinham perguntar onde estava Paul dizia-lhes para cuidar das próprias vidas e me isolava em casa.

Funcionou por um curto período, mas agora estão pondo a polícia em meu encalço, embora não seja essa a fonte da minha preocupação. É a ausência dele que mais perturba meu coração e mente. As visitas ao seu túmulo e os soluços jogados ao véu de Diana não mais confortam meu interior. Findada essa reflexão, deixo ao pé do seu túmulo um presente póstumo que adquiri de um mercador viajante no dia anterior. Uma cananga-do-Japão. A flor da ressurreição era muito exótica para o perfil dele, mas representava o meu sonho mais forte. O desejo do retorno de Paul.

Abandonei o cemitério e perdi o hábito de visitá-lo. Alguns dias se passaram e continuei com minha costumeira – agora solitária – rotina. Em uma noite, quatro meses após a partida dele, eu estava retornando da universidade enquanto uma chuva fina abençoava a cidade. Como a academia era próxima da minha casa, eu fazia todo o percurso a pé, mas naquela vez em particular algo me incomodou. Após passar por debaixo de uma ponte, notei, próximo a luz de um poste, uma silhueta em formato humano. A névoa fina, devido à chuva, não me permitiu descobrir a identidade do sujeito. Ele continuou parado do outro lado da rua enquanto eu caminhava e, ao ultrapassá-lo, notei pelo canto dos olhos que ele ainda estava lá. Quando virei a esquina que dava para a rua da minha residência desatei a correr.

O restante da noite seguiu de forma natural. Me deitei mais cedo que de costume, pois na manhã seguinte começaria um novo experimento. Foi quando escutei batidas soarem à porta da sala. Como a casa era pequena, pude ouvi-las com facilidade, três fortes batidas, um intervalo de poucos segundos e o barulho se repetia. Levantei e segui para o cômodo principal, mas não antes de ter em punhos o revólver que escondia em um compartimento oco no piso do quarto. Foi quando a porta se abriu num estrondo que me fez saltar. Me agachei na parede entre o quarto e o corredor, prestando atenção no que aconteceria em seguida. De início, pensei serem as autoridades que finalmente teriam descoberto a verdade sobre Paul, porém, eliminei essa possibilidade ao perceber que os passos que ecoaram pela casa pertenciam a uma única pessoa. Para ser exato, o invasor andava arrastando os pés. A casa permanecia em penumbra, dando-me vantagem. Saí do esconderijo, preparado para pegá-lo desprevenido, quando uma melodia familiar arrebatou meu ímpeto defensivo. Notas emitidas por um piano das quais eu me lembrava muito bem. Segui para a sala de estar, encontrando rastros de lama que iam da porta aberta até o piano onde uma pessoa estava sentada em frente, tocando-o.

O revólver caiu aos meus pés e – sem delongas – abracei meu querido Paul. Os espíritos que atuam nas regiões celestes ouviram minhas súplicas e trouxeram de volta o homem da minha vida! O quão feliz estava que não pronunciei nada, mas beijei sua boca como sempre fiz. Contudo, ele não retribuiu e seus lábios estavam gelados. Senti um odor muito forte de podridão e junto a ele o temível cheiro de enxofre – o cheiro do próprio inferno. Só então, quando a chuva engrossou e um raio rasgou o céu, iluminando a sala, percebi que aquilo à minha frente não era Paul como o conheci. Pelos deuses, eu havia beijado um cadáver! O olho direito pendia da cavidade e balançava como um pêndulo. Seu cabelo era escasso, deixando à mostra um crânio rachado do qual saia uma substância cinzenta. Isto contrastava com os coágulos do ferimento na têmpora direita. A boca não passava de uma fina linha entre um nariz carcomido e um queixo sem pele. Um punhado de larvas se remexia em suas pálidas bochechas. Ele estava com as roupas daquela noite, porém, imundas de terra.

Soltei-o de imediato e recuei com as pernas bambas. Ele se levantou e caminhou até mim com passos coléricos. Joguei-me no chão e rolei para o lado em que o revólver caiu. O alcancei e atirei três vezes contra a medonha aparição, porém, não houve efeito algum. Meu olhar vasculhou todo o local a procura de uma rota de fuga, mirei na porta como um predador faz com sua presa e corri. Mas ele foi mais ágil e puxou a gola do meu pijama, me fazendo cair. Paul – se é que poderia chamá-lo assim – me segurou pelo pescoço, erguendo-me do solo com força sobrenatural. Dedos gélidos contraíram-se contra minha garganta, seu olhar era do mais puro ódio e perversidade, nunca vi nada igual. Contudo, antes que minha consciência esvaísse, exclamei últimas palavras, não de desespero, mas de gratidão: “Obrigado ninfas dos lagos, obrigado sátiros dos bosques, obrigado Diana e seus cavaleiros por realizarem meu pedido! Assim que os vermes da terra comerem minha carne e me reduzirem ao pó, meu amado e eu voltaremos a ser um só”! E desse modo, mais contente do que nunca, morri pelas mãos do meu adorado Paul Schaff.


Sobre o Autor:

Aike Bomfim Santos Palma Silva é um aracajuano apaixonado por literatura e pela arte da escrita. Através de experiências pessoais e um pouco de imaginação, leva ao público histórias sobre ficção, fantasia, horror e, às vezes, romance.

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