Carnaval do novo normal


Palhaço Triste Com Flores Na Parede De Azulejos
Fotografia de Filipe Gomes, no Pixels

O ano é 2021, quem diria? Pelo andar da carruagem, já deveríamos estar de volta àquele nosso velho normal. Um alvoroço de pessoas ocupadas com atividades múltiplas para terminar antes da semana mais esperada do ano: a semana da folia. Esse fora o normal de sempre, desde os séculos passados até o ano passado.

Chega aquela semana, na qual temos a chance de sermos quem gostaríamos de ser sem sermos julgados, ou tão julgados. Dias em que se pode ser outros, ser o contrário ou o mesmo, mas turbinado com hormônios e exageros. Bebemos mais do que aguentamos, dormimos menos do que o saudável, nos expressamos incessantemente. E tudo ao mesmo tempo; todos ao mesmo tempo. Ninguém tem interesse de prestar atenção em ninguém. A não ser com olhos de luxúria.

Tem os que não querem ser nada além do que são todos os dias. Só querem se preencher com o baque surdo dos maracatus, do ritmo das troças e da beleza das alegorias. Querem sentir seus corações baterem no mesmo compasso dos tambores, o sangue correndo quente como o gritar das cornetas, o movimentar de músculos e ossos com o sobe e desce de pessoas. Pessoas que sabem para onde estão indo e outras indo para onde lhes levar a multidão. Nada importa.

É um tempo de ser você ou outras personalidades, ninguém vai te julgar por querer um ou outro. É o momento de retirar de seus ombros o peso de ser você e o você que é visto pelos outros. Isso sempre foi considerado o “normal”.

Nunca, na vida, foi questionado o que fazemos uns aos outros (e a nós mesmos) durante todo o ano, o quanto não nos permitimos ser quem somos. E agora, não temos mais essa válvula de escape temporária, não temos os esgotos onde despejar as mazelas de um ano inteiro, não temos a chance de acertar nossas contas com nós mesmos. E agora?

Estaremos trancados em casa, de cara para o espelho diário. Ainda sendo quem a sociedade quer que sejamos. Talvez seja hora de quebrar o espelho, hora de transformar os outros 361 dias em novos “normais”. Termos 365 dias para sermos nós mesmos, colombinas ou pierrôs. Felizes quando é para estarmos felizes, mas termos o direito de estar tristes também. Poder amar quem quiser, beijar quem quiser, ser quem quiser. Não amar ninguém, não beijar ninguém e, ainda assim, ser quem quiser. Desejo que o resto da vida possa ser como o carnaval: livre e libertina, criando, assim, o nosso novo normal.

Sobre a Autora:

Escritora e poeta, nascida em Pernambuco, mora nos Estados Unidos, desde 2002. Autora de Memórias de Armário; Carnaval, Futebol e Pandemia e dos contos das antologias: Gordes (Se liga editorial) e Nordeste em cores (Coletivo Oxelgbtne). Sua vivência como imigrante lhe proporcionou uma visão culturalmente diferenciada para proporcionar às suas personagens um empoderamento há muito perseguido pelas mulheres brasileiras, propositalmente proporcionando-lhes inevitáveis finais felizes.

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