Carnaval meu bom Carnaval

“Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é”

Será o que? Mais um preto, bicha, favelado, espancado em plano carnaval?

Mal saberia ele, inocente, achando que o brasileiro é cordial, que ama sua própria gente. Não! Aqui ninguém ama ninguém! Mas odeia fielmente, até quando se ajoelha e diz amém.

De bloquinho a bloquinho, de desfile de escola a batuque de maracatu! Bang! Bang! Mais um corpo estirado no meio da calçada.

Quem foi? Ninguém sabe, se sabe, finge que não viu. Mas dizem que foi uma lâmpada na velocidade de um fuzil, estraçalhando o rosto de quem queria se divertir, e mais nada.

Uns acham que é coincidência, que é só mais uma violência normal, outros acham que foi homofobia. E você, o que acha?

Na marcha violenta dos fatos, exatos, quem é o júri, juiz e carrasco de quem deve morrer e ser salvo? Você, que traí a mulher, no batuque do frevo beijando qualquer uma sem saber quem é?

O pastor, que despeja ódio em plena quarta-feira de cinzas, falando que carnaval é coisa do cão? Então, quem deve morrer por amar alguém no carnaval?

No outro lado do litoral, homens transvestidos de mulher pulam atrás de um carro de som. No mesmo tom, no mesmo batuque, acham que um beijo de duas mulheres é legal, ainda da tesão e tal, mas dois homens se beijando é algo imoral, só de ver começa a passar mal. Mas de noite bebe, cheira e dirige, atropelando quem não tem a conta financeira igual.

E ainda continua, com samba e mulher nua, enquanto mais uma travesti com a cara rasgada no hospital. Mas é normal, o Brasil é violento, né? Tiro, porrada e bomba, uma cervejinha e um bom samba, quem não gosta, né? Principiante no mês de fevereiro, onde o calor está de matar. Então pra que se preocupar? Vamos é correr, porque o próximo bloco já vai começar.

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor, Luiz Alladin escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.

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