Do escrever para si

Atualizado: Out 15

A impossibilidade de ser lido sempre freou meu desejo de escrever. A medida em que sentimentos e reflexões entravam em ebulição, ansiando para serem despejados no papel, a pergunta, “mas quem vai ler?”, aparecia e tudo ia embora. A única exceção era quando eu escrevia artigos científicos, aí sim, sabia que seria lido. Ainda mais se conseguisse que o texto fosse aprovado e publicado. Nessa hora, aquela pergunta (aquela cruel pergunta) nem mesmo dava as caras.

Sempre soube que a escrita acadêmica não era a única forma de escrita possível e nem mesmo a que gostaria de realizar a toda hora. Afinal, em certos momentos, chega a ser exaustivo pesquisar, citar, formatar etc. Às vezes eu só queria trazer à escrita uma reflexão simples ou uma opinião mais pessoal, intima. Mas, a pergunta, sorrateira e invisível, como um demônio, e ao mesmo tempo tão crível, rondava a folha de papel sob a minha mão. Aos poucos fui tentando quebrar esta casca, que me envolvia quando eu queria escrever apenas pelo simples prazer de escrever. Fui notando que a pergunta, “mas quem vai ler?”, poderia muito bem ser respondida com um “eu”. Eu seria um leitor de mim mesmo, e quem escreve sabe o quão prazeroso é ler a si mesmo.

Foucault, num belíssimo texto sobre artes de si, que, segundo ele, representavam uma espécie de “estética da existência” na antiguidade, nos fala sobre os Hypomnêmata, pequenas cadernetas que faziam parte do dia-a-dia helênico. “Ali se anotavam citações, fragmentos de obras, exemplos e ações que foram testemunhadas ou cuja narrativa havia sido lida, reflexões, pensamentos ouvidos ou que vieram à mente”.[1] Assim, aquele que escrevia tinha por objetivo “ler, reler, meditar, conversar consigo mesmo, com os outros etc.”.[2]

A partir da leitura desse texto, passei a ter a mim mesmo como alvo da escrita, me baseando nesse exercício tão antigo e notando que somente quando escrevia livremente, me lembrava do quão prazerosa essa atividade podia ser. E assim me deparei com aquele que, desde então, me acompanha quando abro o caderno: Fernando Pessoa. Sob o heterônimo de Bernardo Soares, Pessoa redigiu o “Livro do desassossego”, e ali, no aforismo (se assim podemos chamá-lo) 118, lemos: “Que me pese que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver [...]”.[3] Essa sentença, com sua objetividade cirúrgica, tirou um peso enorme das minhas costas e me fez entender o porquê a escrita é tão fascinante: quando escrevemos de modo transitivo, isto é, sem a necessidade de um motivo, esse “distrair” do qual Pessoa nos fala, opera uma espécie de esquecimento do agora. A distração causada pelo escrever nos isola do imediatismo dos nossos dias, nos oferecendo um momento no qual somos guiados pela escrita de si para si.

Deste modo, quando a tinta da caneta toca o papel ou os dedos da mão tocam o teclado, temos uma espécie de experiência fora do tempo, não importa o que acontecerá daqui a duas horas ou dois dias. Brincamos com a linguagem, selecionando as melhores palavras, montando as melhores combinações e, ao darmos formas a impressões, sentimentos, angústias e sensações, nos assemelhamos a deuses que trazem à luz algo que antes não estava lá.

A escrita, portanto, quando tomada livremente, pode ser um remédio milagroso. Momentâneo, é verdade, mas mesmo assim único. O viver mostra-se cada vez mais penoso e cansativo, em certos momentos temos apenas a nós mesmos, seja na clausura de um quarto ou na rotina de um escritório. Porém, se nesses locais encontrarmos meios para praticar a escrita, então nunca estaremos de fato sozinhos, pois o reflexo das palavras terá nossas feições.


REFERÊNCIAS:

  • [1] FOUCAULT, Michel. A escrita de Si. In: FOUCAULT, Michel. Ética, Sexualidade, Política. Trad. Elisa Monteiro; Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. p. 144-162. (Coleção Ditos e Escritos)

  • [2] Ibid.

  • [3] PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 141.


Sobre o Autor:

Graduado em Filosofia, Especialista em Filosofia Contemporânea e Mestre em Ciências da Religião, Leonardo Magalde Ferreira possui diversos artigos acadêmicos publicados, além da dissertação de mestrado.

 
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