Fim de tarde

É fim de tarde, como os outros desse ultimo mês, você estava lá! Vestida com minha camisa, tomando meu café, deitada em minha cama, roubando minhas noites de sono. Seu vestido jogado na cadeira da cozinha, conta segredos! Os segredos de vários dias de filmes passados na TV. Lembra? Tuas escapadas da escola, dormindo em minha cama, lendo meus poemas, beijando meu corpo, segurando minha mão, acariciando meus dedos.

As tardes corriam tão devagar e as risadas cortavam o silêncio que ficava depois de uma boa trepada!

Se as paredes dessa casa pudessem falar, contariam tudo que houve ou guardariam os segredos? Quem sabe, né!

Se água que caiu do chuveiro, que desenhou a mais pura simetria do amor impuro, voltasse? Será que as gotas trariam aqueles momentos novamente? Quem sabe...

Se aquele canto, atrás do mercado contasse o que aconteceu em algumas festas, ela estaria mentindo?

Se todas as palavras que foram ditas, fossem removidas da parede da memória, aquilo tudo se tornaria verdade?

Você não está mais lá! Não! Não! Não está! Foi-se a tanto tempo, que nem me lembro mais do dia que foi! Não! Não! Não me lembro daquele dia cinco de agosto, quando você falou que não dava mais... Esqueci de tudo! Sim, esqueci mesmo! Eu não, quando você me falou que não amava mais, que precisava de um tempo sozinha, mas dois dias depois já andava de mãos dadas com outras mãos.

Você não está lá! Não! Não! Não está! Não usa mais aquela blusa que usava, que nem sei onde está, mesmo tendo guardada ela na segunda gaveta do guarda roupa. Mesmo o seu vestido estando agora jogado na cadeira da cozinha de outra pessoa! Mesmo você dormindo na cama de outro! Mesmo meus poemas terem perdido a melhor leitora! Mesmo teus dedos acariciando os dedos de outros, mesmo a boca que tu beija agora não seja mais a minha! Eu não me lembro mais de você!

As tardes que voam no silêncio agora cortam meu juízo.

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor, Luiz Alladin escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.

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