Hipocrisia do Cotidiano


Foto de Tim Doerfler (Unsplash)

Como você vê seu país? Como vê sua região? O seu estado? A cidade que mora? O Barrio que vive? A rua da sua casa? Como se vê em tudo isso?

Ao ver uma criança na rua jogando a malandragem ao alto como as bolinhas que elas jogam nos sinais, jogando pra lá e pra cá no meio congestionamento da vida, tentando sobreviver entre a miséria e um tubo de cola. Como é sua visão, de dentro do carro, ao menino? Consegue enxergar suas dores? Pra você, possa que só seja outro vagabundo, outro noiado, que faz de tudo pra manter seu vicio. Na real, me diz a verdade, você está pouco se fodendo pra esse garoto, né? Você está nem ai pra quem é esse garoto, já fechou o vidro do preconceito e agora só espera o sinal abrir.

Nunca parasse pra pensar que aquele garoto no sinal poderia ser o próximo astro do futebol, o novo Jorge amado, um grande cientista que encontrará uma cura pra qualquer tipo de doença, você nem pensa que ele possa ser um futuro pra a nação. O futuro da nação é seu filho, certo?? Que teve boas escolas, uma boa faculdade, que estudou no exterior, que sobe o morro pra compra cocaína, que bebe e sai com o carro, mas aquele garoto no sinal nem há possibilidade de ser. Provavelmente nunca iremos saber mesmo! É que o mundo está tão cheio de pessoas como você, que fecha em um domo de preconceitos, levantando os vidros importados pra não enxergar seu semelhante, que apagam todo brilho de genialidade e futuro nos olhos das crianças perdidas nos sinais.

Nós seres humanos perdemos nossa capacidade de sentir compaixão, alguns se fecham pra a realidade suburbana, onde crianças passam fome, lutam pra sobreviver, e vão correndo atrás de válvulas de escape, pra tentarem distorcer a realidade que assola os sinais do nosso país.

Você não consegue ver os velhos caídos no asilo do desprezo, clamando por atenção, por um bom dia, por um pouco de simpatia e compaixão. Vemos nossos passados jogados em uma cama fria, sem um abraço de amigo ou do filho. Você acha isso terrível? Nossa, que pessoa iluminada você é! E seus velhos? Onde estão agora? Ah, estão em uma casa de repouso... Eu entendo é completamente diferente, lá estão sendo bem cuidados, e você não tinha como cuidar deles pessoalmente... Lógico que eu entendo! Você está cheio de trabalho pra fazer, tem uma família pra administrar, estudos, trabalho, outros convívios sociais, não tem como cuidar deles. Mas vem cá! Vossa senhoria, não acha que estão colocando ele também no asilo do desprezo?

E vocês aí, que não colocaram os pais em uma “casa de repulso”, mas só vão visitar nos finais de ano? Acham quem são melhores que esses outros imbecis aí? Qual a diferença entre vocês? A hipocrisia? Estamos esquecendo aqueles que um dia cuidaram de nós, que nos esquentaram nos dias mais frios, e abanaram nos dias mais quentes. Invés disso, preferimos criticar o próximo, que faz as mesmas coisas que nós.

Não que eu esteja te julgando como vive tua vida, ela é sua, estrague como quiser. Mas que devemos parar com a hipocrisia do cotidiano. Eu peguei dois exemplos, que pra muitos podem ser distintos, mas eles se conectam de algum modo, façam o trabalho de pensar um pouco e descobrir por si só. Cuidem dos seus velhos como fossem suas crianças, e cuidem das crianças como fosse o futuro do país, pois no final das contas é o que eles são.

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor, Luiz Alladin escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.

Revisão: Luiza Fernandes

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