O Carnaval e Eu

O que uma soteropolitana, nascida no bairro da Barra, no mês de fevereiro teria a dizer sobre o Carnaval? Parecia caso de amor à primeira vista, daqueles que a gente tem a absoluta certeza que precisa acontecer. Porém, venho de antemão decepcionar você, amante dos trios elétricos. Que Dodô e Osmar me perdoe, mas há uma outra coisa que em mim veio que atrapalhou essa relação: a agorafobia.

Não consigo ficar em ambientes cheios, definitivamente a aglomeração não é para mim. Quando muito pequena, eu até achava divertido a bagunça com confete e as fantasias engraçadas, o povo rindo e dançando. Tudo isso, na minha cabeça, me remetia à alegria, mas eu ainda não sabia que tristeza era algo sério, não sabia dos perigos do mundo. Para mim, era tudo colorido o tempo todo. Mesmo quando fiquei perdida no meio da ladeira do Pelourinho enquanto o Olodum descia tocando, para mim, foi um momento assustador e, ao mesmo tempo, magnifico.

Eu tinha o sonho de estar em cima do trio elétrico, vendo todo mundo lá embaixo pulando como se tivessem molas nas pernas, apesar disso, eu achava tudo muito barulhento. Sempre ia em bloquinhos com minha mãe, nas milhares de ladeiras que Salvador possui (juro que são muitas). Às vezes, eu ia nos circuitos mais famosos e sempre havia um medo quando passava o trio do Chiclete com Banana quando ainda era o Bel Marques, com aquela bandana na cabeça que sempre me fazia achar graça e, ao mesmo tempo, querer uma também —, pois o trio dele arrastava, literalmente, uma multidão de pessoas, o que não era muito legal para uma criança, contudo, era meu aniversário e era sempre um lugar para reunir as pessoas e festejar. Só esqueciam de me consultar sobre onde eu queria ir. Aos poucos, fui desgostando à medida que comecei a ficar sem ar e ter crises de pânico quando estava em meio a multidões.

Devo agora aliviar você, amante do circuito Barra-Ondina, que, por sinal, eu acho longe demais para andar normalmente, porém, no carnaval ninguém liga, que, atualmente, eu não odeio mais, talvez fosse coisa de adolescente alternativo que gosta de contrariar, mas também não amo. Agora eu entendo de outra forma. Entendo o espírito de alegria que se estende por todos os circuitos entre as mentes preocupadas, entendo as pipocas que pulam segurando ou não na corda do caranguejo enquanto sacodem a poeira nos pés entre os pés que saem do chão e os lêlêlês. Entendo que o carnaval faz parte da cultura brasileira, que movimenta a economia, não apenas do país, mas também de diversas famílias que ficam nas filas para conseguir a autorização e suas guias para venderem bebidas e outras coisas para os foliões, ou para as famílias que realmente seguram a corda para lá e para cá. Agora entendo, sem julgamentos, quem ama o carnaval, ainda mais depois de tanta tragédia que nosso país sofre. O carnaval é o refresco do Brasil para aguentar todo esse caos que vivemos.

E, no ano de 2021, não haverá carnaval. Os circuitos só serão as velhas pistas de sempre, não haverá purpurina perdida pelo corpo no decorrer do ano, cantorias e a música do ano. O Olodum não descerá a ladeira do Pelô, não haverá o concurso da música temática do Olodum e nem os ensaios da galera. O mar de filho de Gandhi estará seco, a multidão não poderá mais ser assim, nem as mil e uma noite da Mila, nem a pequena Eva aparecerá, pois é o fim da aventura humana na Terra. O gueto e a rua estão vazios. Avisa a Daniela que não dá mais para ela ir andando por essa cidade bonita, mas o canto dessa cidade somos nós e fica o nosso coro soando baixinho, pedindo que um dia todo esse agito volte e eu irei continuar (des)gostando do carnaval de Salvador. Ouça seu axé e tire o pé do chão no bloco da sua casa e em breve falaremos com a Margarethe Faraó ó ó ó.

Sobre a Autora:

Autora baiana, Kananda Gomes começou a escrever quando criança e não parou mais. Além de escritora também é estudante de Museologia na UFBA e criadora da página no Instagram @eu.e.minhas.ironias onde compartilha diversos textos com seus seguidores leitores.

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