• Alladin

O Poeta

Para mim, sempre foi fácil ser detestado, era um dom natural. As pessoas vinham com suas falsas verdades e eu ia com minhas vazias certezas, nunca quis ter vínculo com essa turma. Preferia vínculo com as prostitutas, com os drogados, com minhas doses e meus cigarros matinais. Não queria os puros de alma, queria os maus de hábitos. Não queria a benção dos profetas, queria o beijo traidor de alguma desconhecida. Eu nunca quis nada que não fosse uma folha suja e uma caneta já falhando. Para mim era isso que bastava para viver, mesmo vivendo numa vida miserável e catatônica. E pode crer, vivi como quis! Se eu me arrependo de alguma coisa? De várias, nem consigo contar mais de tantas burradas, besteiras, inimizades que eu poderia ter evitado. Mas se eu tivesse evitado? Teria o que escrever? Seria mais outro cordeiro amestrado esperando a hora do abate do lobo? Se eu tivesse feito tudo ao contrário, poderia ter sido um gênio ou seria o mesmo que só teve qualidades? Poderia ter sido um grande operário, cabeça baixa, o orgulho do patrão. Se o tempo voltasse para trás e eu tivesse feito o inverso, seria feliz? Se eu tivesse amado mais, ou até mesmo amado menos, elas teriam me abandonado? Se eu tivesse falado mais, pedido perdão, tivesse aceitado o emprego na fábrica como todos queriam, elas ainda estariam me amando? Se eu tivesse aberto meu coração mais vezes e não tivesse escrito tanto, elas ainda estariam comigo? Se eu tivesse parado de fazer essas perguntas e tivesse colocado a porra de uma bala em minha cabeça, teria gente chorando em meu túmulo? E depois de alguns meses, ainda chorariam? E depois de anos, continuariam chorando? Claro que não! Eu nunca fiz nada para que os outros pudessem sentir minha falta. Eu nunca fiz nada que não fosse escrever coisas sem sentido, sem emoção. Coisas que até a merda coberta de sangue seria mais poética. Mas então, por que eu ainda escrevo? Por que ainda me pego pensando nessas coisas? Por que ainda me importo? Se essas pessoas dizem tanto que sou talentoso, por que não enxergo isso? Por que dói tanto aqui dentro? E por fora, ainda sou ignorante, sem coração? Que merda! Eu tenho mais de cinco mil poesias, mas nenhuma preenche o vazio que eu sinto.

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor, Luiz Alladin escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.

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