HELL - Cap. IV - Gula

Verdade, justiça, moral. Palavras que todos nós aprendemos ao longo da vida, como valores inquestionáveis, mas que, em contrapartida, o mundo nos faz desacreditar. Nos julgamos como pecadores ou santos, mas no fim somos todos porcos. Não me arrependo das coisas que fiz e, se soubesse o que viria a seguir, teria aproveitado mais.

Realmente, me pergunto por que estou aqui, sozinho, depois daqueles longos meses. Agora estou aqui, nesse velho bar abandonado, com essa velha garrafa de uísque na mão. Nunca fui de beber, pois nunca saciava a minha fome.

Acho que lembrar o passado é o que as pessoas fazem nesse momento, à espera do fim, ou do começo, como ela mesmo disse.

Balofo, comilão, eram alguns dos meus apelidos no exército, mas vocês podem pensar em mim como o chefe. Sempre quis ser um grande chefe, até que a vida esmagou meus sonhos. Não que eu vá me amargurar por isso, mas sabe como é, todo mundo tem um passado.

Ainda lembro-me do cheiro da pólvora no ar, do medo de respirar enquanto seus companheiros morriam na linha de frente; ainda lembro-me dos mutilados, das explosões que vinham de todos os lados.

Eu era um oficial de alta patente de comunicação, minha especialidade era a encriptação, mas não era o melhor nisso. Porém, essa área ficara com muitas vagas abertas depois do que aconteceu com aqueles caras que tentaram descobrir quem estava por trás da praga.

Acho engraçado quando paro para pensar, agora, mais de dois bilhões de mortos pela praga, um mundo à beira do colapso. Sem os materiais vindos do espaço, a economia entrara em crise rapidamente e ali estávamos nós, terminando de nos matar.

Ainda lembro-me das notícias nos dias que precederam a guerra, países por todo o globo fechando as fronteiras, barreiras marítimas e comerciais sendo impostas enquanto, a cada novo dia, pessoas desesperadas morriam de infecções ao tentar atravessar o mar para fugir da fome e das guerras feitas por governos paralelos criados durante o caos.

Sabe uma coisa sobre a guerra? A maioria das pessoas nunca acredita que ela vai chegar, mesmo com todos os sinais do que vai acontecer, no fundo, sempre temos esperança de que a guerra não chegará, que não teremos que sair sem saber se voltaremos vivos.

Eu estava em meu posto, na fronteira, quando ocorreu a guerra dos quatro homens. Os jornalistas sempre tiveram um tom exagerado para mim, mas dessa vez eu tinha que concordar com eles. Cento e cinco países, junto aos representantes de grandes instituições, juntaram-se em uma cúpula para tentar achar uma solução para aquela crise, porém o resultado foi o pior possível.

Os quatro maiores países do mundo polarizaram a reunião com uma série de acusações, mas a mais grave foi o projeto salva guarda. Ninguém sabia de onde haviam surgido os rumores sobre esse projeto, mas ele foi o suficiente para começar uma guerra.

O projeto salva guarda buscava algo ambicioso e preocupante: a esterilização da Terra. Em um documento de mais trezentas páginas, estava detalhado como seria construída uma colônia espacial para duas gerações (cerca de cem anos), tempo para o planeta se recuperar de parte dos danos causados pelas ultimas gerações.

Usando um ataque nuclear em massa para dizimar a população mundial e garantir com que os sobreviventes ficassem tecnologicamente defasados. Apesar dos mínimos detalhes que existiam no documento, a ação que planejava esse terror havia sido escondida, levando os teoristas da conspiração a dizer que era uma jogada da organização que estava por trás do agente-x.

Realmente, eu ri bem alto quando um colega me falou sobre esse plano lunático, porém à medida que as semanas passavam esse terror parecia mais real . Dados secretos e informações codificadas ligadas ao tal documento acabaram por corroborar com ele, gerando manifestações e protestos violentos por todos os cinco continentes.

A opinião geral era de que esse plano de assassinato em massa era uma grande conspiração intergovernamental. A opinião pública foi uma das coisas que levaram à guerra. Ao começarem uma guerra, eles desviaram o foco do projeto salva guarda e conseguiram domar a população com as chamadas leis de segurança nacional ou, como nos chamávamos no quartel, “Cães pastor”, afinal, a função dessas leis era manter as ovelhas na linha.

Eu sempre achei os poderosos egocêntricos, mas começar uma guerra para se manter no poder foi o ápice. É claro que eu nunca disse isso, um soldado serve a sua nação, ou mais exatamente àqueles que a comandam, sem questionar ou hesitar, afinal fomos treinados para morrer pela nossa pátria.

Algumas pessoas acham isso nobre e, em parte, estão certos. Existe nobreza em alguns soldados. Na lealdade há um ideal: o desejo de proteger a sua família. Eu vi muitos jovens assim no campo de batalha, eles morriam aos montes, formando pilhas de corpos que se misturavam à lama e ao lodo.

Não pensem que sou um homem insensível, mas o ser humano consegue se acostumar com qualquer coisa: fome, assassinato, desespero e humilhação. Quantas pessoas não desistiram de tentar mudar o mundo e se aliaram ao sistema que tanto abominavam?

O ser humano carece de ideais fortes e, por isso, talvez tenhamos chegado a esse ponto. Se me perguntassem se acho que merecemos isso, eu diria que não, que não fizemos tanto mal para receber tal castigo, mas aqui, sozinho com essa garrafa de uísque, tenho certeza de que merecemos.

Acho que estou divagando demais para alguém que está falando para as paredes. Lá fora eu não consigo ouvir mais o barulho, acho que finalmente as últimas pessoas desistiram de tentar escapar.

Mas sobre o que mesmo que eu estava falando? Ah, é mesmo, sobre a guerra. Uma coisa que devemos ter em mente sobre a guerra: nada se compara a estar lá de verdade. Você pode ler relatos, ver dezenas de filmes ou algo do gênero e, ainda assim, estará longe da realidade.

O primeiro dia da guerra não foi como nos filmes. Não teve bombas caindo ou pessoas mutiladas. Pelo menos não para mim. Mas, em outros lugares do mundo, havia começado o inferno. Nos oceanos atlântico e pacifico, esquadras de dezenas de países lançavam-se ao mar para defender suas fronteiras, equipados com pulsos eletromagnéticos e defesas antiaéreas. Esse foi o campo de batalha primário. O oceano, que agora era apenas uma grande porção de água cheia de vermes e doenças, tornou-se também o lugar de descanso final de milhares de homens.

Durante os primeiros dias, houve apenas alguns confrontos localizados, mas nenhuma grande batalha. A guerra seguia lenta, como um grande jogo de xadrez com cinco jogadores: as quatro grandes nações e o misterioso inimigo da humanidade, o agente-x.

Acho que o ritmo lento deu-se, principalmente, a esse último. Ver como a força misteriosa por trás da morte de mais de dois bilhões de pessoas reagiria a um confronto mundial parecia ser uma ótima oportunidade para encontrar o culpado e até mesmo roubar a sua tecnologia.

Ao fim da primeira semana da guerra declarada, a ausência de grandes conflitos deu esperança de que uma solução pacífica ainda existisse, porém isso era impossível. Às vinte e três horas da noite, horário local, por toda parte o som de explosões foram ouvidas, enquanto os mísseis eram derrubados pelas defesas de cada pequeno país que gastaram seus últimos recursos nisso.

A tática escolhida para essa guerra foi dividir e conquistar. Com o oceano servindo como uma grande barreira intercontinental, devido às grandes esquadrilhas marinhas, só restava uma opção para cada bloco dessa guerra: atacar o vizinho mais próximo. Divididos politicamente, a América do Norte resolveu atacar a do Sul, fazendo com que a América Central virasse um grande campo de guerra.

Ainda me lembro daquele lugar infernal, milhares de soldados marchando pelas ruas, cobertos de suor e com armas em punho. Era uma cena digna do fim do mundo.

Já o outro lado do globo sofria de uma forma diferente: a Oceania tinha se aliado à Europa, enquanto os países com um pouco de estrutura da África e da Ásia juntaram-se em outro bloco. Porém, esse aparente equilíbrio geográfico se desfez assim que muitos pequenos países europeus e africanos aproveitaram as brechas militares para avançar, tentar ganhar poder nesse novo mundo instável.

Meu primeiro destacamento depois da fronteira foi na América Central, ou a passagem do inferno, como nós gostávamos de pensar. Nosso exército avançou por aquela terra como demônios famintos.

Várias unidades com apoio aéreo acompanhavam uma grande número de soldados, divididos em diversas tropas, que se moviam tendo como objetivo final dominar a América Central e conseguir organizar um caminho para invadir a América do Sul.

Quando cheguei na América Central, a situação era bem diferente do que eu pensava. As pessoas estavam assustadas, mas ainda saíam às ruas, iam trabalhar enquanto lidavam com a poluição do ar e uma série de outros problemas. Com a crise ambiental, os países desenvolvidos ou espertos usaram locais como a América Central e países pobres para suprir sua demanda por matéria prima e estabilizar a economia. Fizeram o mesmo que havia acontecido mais de três séculos antes e se deram o direito de dividir o mundo com se este o pertencesse.

No meu breve momento naquela região da América Central, trabalhei na codificação e decodificação de transmissões. Nada de alto nível, porém, apenas informes de rotina, demandas de suprimentos e equipamento. Destacamento e rota eram as funções de outro soldado.

A informação era codificada, particionada, decodificada por mim, codificada novamente e reenviada de forma particionada. Assim, garantíamos que, mesmo com invasões, nenhuma informação estratégica vazaria, sem falar nas comunicações que eram enviadas em papel, por espiões experientes. Apesar de estarmos décadas depois da revolução da informação, o medo da rede sombra nos fez voltar às técnicas antigas de comunicação.

Ainda me lembro de quando disseram que eu seria mandado para as linhas de frente. Era um dia quente, porém estávamos instalados em um prédio com ar-condicionado, cedido pelo governo local. Meu superior parecia um pouco relaxado, mas não se enganem: mesmo relaxado ele tinha feições fortes, que combinavam com a pele marcada por rugas.

Ele veio com aquela ladainha de praxe, de que eu estava fazendo um bom trabalho e que, por isso, estava destacando-me para uma posição mais importante, mas eu sabia da verdade: ele tinha ficado sem pessoal para mandar no período correto. Com um mundo em guerra, era fácil para uma pessoa sumir, ir para uma vila remota ou atravessar as fronteiras em frangalhos de muitos países. Eu já perdera a conta de quantos soldados foram mandados para a corte marcial nos primeiros dias de guerra. Chegou a um ponto que não existia mais julgamentos, apenas eram capturados e enviados à linha de frente para serem forçados a lutar.

À medida que o eu ia de transporte em transporte, pude ver as marcas mais evidentes da guerra. Pessoas desalojadas moviam-se como manadas, indo contra o fluxo crescente de soldados. Prédios destruídos demonstravam que os confrontos já haviam passado por aquela região.

Quando cheguei à linha de frente, fiquei com o décimo terceiro destacamento. O meu superior nessa operação foi o comandante Picar. Minha função ali era manter a comunicação entre os quinze destacamentos que estavam na região, tentando conter as forças inimigas.

Fazia dois dias que eu havia chegado à região e não havia tido grandes confrontos até o momento, quando recebi a mensagem que um pequeno destacamento de elite havia sido visto a noroeste do marco zero. Provavelmente era uma unidade para infiltração, entrar no terreno inimigo e causar confusão enquanto o destacamento principal atacava.

Usando as informações que passei para o comandante, um ataque de cerco foi criado. Uma operação envolvendo um pequeno grupo de soldados do décimo terceiro esquadrão, com o décimo quinto, foi organizada. A ideia era deixar o inimigo avançar um pouco para dentro do nosso território e, então, cercá-lo por dois lados.

Apesar de ter aprendido a atirar com uma ADE (Arma de Disparo Eletromagnético), eu nunca havia atirado em um ser humano com ela, mas sabia do estrago que podia fazer. Essa arma fora desenvolvida quando começamos a aprender as aplicações da mecânica quântica em larga escala.

Ela era pequena em comparação às antigas armas de grande porte, como fuzis e escopetas. Assemelhava-se muito a um revólver, só que alguns centímetros maior. Porém, com a força de uma arma de longo alcance. Devido ao poder de ataque, para evitar que o ricochete quebrasse o pulso do atirador, foi desenvolvida uma luva com alguns componentes mecânicos que funcionavam como amortecedores.

Em minha cadeira, na tenda de comunicações, continuava a esperara os dados da operação, se havia sido bem-sucedida ou não, assim como o número de mortos, afinal sempre haveria baixas.

Era estressante de muitas maneiras ficar sentado em uma cadeira, esperando para saber quantas pessoas haviam sido mortas ou coisas do tipo, mas não se engane, preferia mil vezes isso a ter que ir ao campo de batalha. Só entrei para o exército porque estávamos em tempos de paz, era um trabalho estável e pagava bem.

Enquanto esperava os dados com os resultados da missão, dei-me ao luxo de comer alguns dos suprimentos que havia armazenado. Como trabalhava em turnos de quatro em quatro horas, ninguém ligava para esses desvios, desde que eu garantisse que nenhuma informação caísse na mão do inimigo.

Era por volta de duas da madrugada, no horário local, quando a informação chegou. A operação havia sido bem sucedida, com apenas duas baixas. Respirei aliviado quando isso aconteceu. Meu turno havia acabado e, saindo da tenda de comunicações, fui em direção aos dormitórios. Tinha que fazer o outro cara acordar e ir direto para o seu posto. Ele vinha se atrasando com frequência e isso não era bom para ele ou para mim, que ficava sobrecarregado.

Quando cheguei à tenda onde dormíamos, pude vê-lo enrolado em suas cobertas. Estava bem escuro na tenda, não havia outras pessoas lá por causa da operação que tinha sido realizada. Quando toquei na coberta para acordá-lo, pude sentir um líquido morno molhando a minha mão. Ele não estava respirando.

Levei a mão até minha arma, enquanto procurava um possível inimigo na escuridão. Porém, o agressor já estava perto de mim a essa altura. Pude ver o vulto da sua mão vindo em minha direção, com algo que não consegui identificar o que era.

Não deu tempo de pegar a arma e, por isso, acabamos em uma luta corpo a corpo. Tentei acertá-lo, mas ele era rápido e estava em melhor forma física. Seu primeiro ataque me derrubou no chão, e senti um dor forte na lateral do meu corpo.

“Uma faca” foi a primeira coisa que me veio à mente. O inimigo estava em cima de mim, pronto para um segundo golpe. Eu estava prestes a morrer, mas senti a arma do meu companheiro morto, que jazia do lado de seu colchonete. Antes que a faca atingisse o meu peito, atirei.

O som do tiro não foi alto, mas o seu brilho sim, permitindo-me ver uma imagem distorcida da roupa do agressor. Provavelmente era uma roupa tecnológica, para infiltração. O agressor fora atingido de raspão, caindo para trás.

Eu poderia ter ido atrás dele, para garantir que não chegaria muito longe, mas tinha dificuldades até para pensar. Meu pulso doía muito enquanto eu gritava de dor. A luva especial não estava na minha mão quando atirei.

Não sei quanto tempo se passou depois que atirei, mas lembro-me de um companheiro me encontrar caído, enquanto soavam o alarme de ataque, uma sirene alta, para informa a todas as tropas da região de inimigos, caso a comunicação fosse cortada. Naquela noite foram ouvidas quinze sirenes.

Quando dei por mim, estava em uma tenda médica. Ao meu redor, havia dezenas de soldados moribundos, com muito mais que um pulso quebrado. Alguns tinham membros faltando; outros, bandagens empapadas de sangue. Essa era a prova do poder de fogo das ADE.

Um único disparo podia facilmente atravessar o corpo de um indivíduo, estraçalhando a carne. Um disparo certeiro era fatal; um de raspão poderia até não ser fatal, mas causava um belo estrago. Os mutilados eram os que tinham o azar de encontrar um atirador bom de mira o suficiente para atingir a rotatória dos joelhos ou partes do braço. Uma hemorragia no meio do campo de batalha, por si só, já era fatal.

Atacar essas partes do corpo era mais eficaz que o peito, já que usávamos uma placa de repulsão para conter as balas. Porém essa proteção só resistia a alguns, depois disso era tão eficaz quanto um pedaço de papel.

Quando saí da tenda para ver como estavam as coisas lá fora, vi um mundo devastado: colunas de fumaça eram vistas ao longe quando pilhas de corpos inimigos eram queimados, para evitar doenças.

Restos da fuselagem de aviões de ataque aéreo estavam pelo chão. Provavelmente também havia ocorrido uma luta nos céus enquanto estive inconsciente. A soldada que cuidava da enfermaria deu-me uma broca severa por ter saído de lá antes que ela tivesse tempo de colocar uma proteção adequada para que o meu pulso não tivesse problemas de cicatrização.

Após ela fazer a proteção, fui convidado à presença do novo comandante responsável, já que, assim como os demais, o meu fora morto durante a ofensiva da noite anterior. Tentei manter minha postura ereta e não demonstrar o quanto para mim era difícil estar ali, não queria parecer um mau soldado.

“É um prazer conhecê-lo, soldado. Suas ações na noite de ontem foram de grande ajuda” falou o comandante, um homem alto, com uma pele manchada pelo sol e olhos profundos. Mesmo falando em tom amigável, não consegui deixar de lado a sensação de que esse era o tipo de homem que faria tudo por poder.

“O prazer é todo meu, senhor”.

“Pode descansar, soldado” ele falou, permitindo-me sair da posição habitual de continência na presença de um superior.

“Bem como você deve ter percebido, tivemos uma dura batalha, mas conseguimos expulsar os inimigos. Nessa batalha, mais uma vez, foi provado o que sempre disse: o contingente humano é o mais importante e, por isso, precisamos de soldados como você aqui. Assim que estiver em condições, você será transferido para o posto de defesa avançado” ele falou-me com um olhar solene, como se isso fosse uma boa coisa. Não sabia o que seria esse posto de defesa avançada, mas algo me dizia que eu não iria gostar.

Dois dias depois disso, fui enviado para o que seria esse novo destacamento de defesa, porém o termo que eu usaria seria buraco. Um grande buraco fedido. Mais de cem anos após a primeira grande guerra, tínhamos voltado a cavar buracos no chão para podermos lutar.

Uma vez, lembro-me de ter visto, em algum lugar, a opinião de um historiador militar especializado em guerras. Ele disse que se ambos os lados tivessem o mesmo domínio da tecnologia atual, seria inútil os grandes tanques de guerra ou os drones de ataque e ele estava certo. Pulsos eletromagnéticos concentrados, armas de disparo aéreo tornaram toda essa tecnologia inútil. Com a era da informação, guardar segredos militares ficara cada vez mais difícil, principalmente com o poder tecnológico agora concentrado na iniciativa privada.

Anos de evolução tecnológica só serviram para nos trazer de volta à Terra, rastejando para sobreviver. Quando cheguei ao posto avançado de defesa, as trincheiras e túneis ainda estavam sendo construídas, mas não por soldados. Mulheres, crianças e homens civis sujavam-se de terra, enquanto o solo dos campos era escavado e os escombros da cidade em pedaços eram retirados para dar passagem para os comboios de suprimento.

Fui destacado para trabalhar como chefe da unidade de comunicação. Minha área foi uma das primeiras a ficar pronta: uma câmara apertada, no subsolo, para garantir que as comunicações não fossem afetadas, como no último ataque.

Realmente, era estranho estar no comando pela primeira vez. O poder era, como diziam, viciante. Eram poucas pessoas, umas quinze, mas para elas eu era autoridade. Os coloquei para trabalhar pesado, de forma que não me desgastasse tanto. Desde que eu não deixasse que algo ruim acontecesse, ninguém ligaria se eu os explorasse um pouco. Acho que não seria um bom comandante com esse tipo de atitude. Por sorte, isso não chegou a acontecer.

Foi por volta de três da manhã que aconteceu o primeiro grande ataque ao posto de defesa avançado. Eu estava junto aos meus subordinados quando os primeiros relatos de três grandes destacamentos que estavam tentando passar por nós para poder atacar as nossas tropas, que avançavam pela região da costa.

Apressei-me em garantir que as informações fossem decodificadas e recodificadas o mais rápido possível. Comunicação era essencial para vencer essa ofensiva. Os primeiros relatos indicavam algumas dezenas de unidades vindo em alta velocidade, com motos, para evitar as barreiras naturais do terreno e a falta de estradas.

Assim que essa informação chegou às primeiras trincheiras, pulsos eletromagnéticos foram usados para tentar parar o avanço dessas unidades, porém tiveram uma eficiência baixa, cerca de vinte por cento. Alguém havia informado a posição das armas de pulso. Enquanto alguns caíam no meio do caminho, outros avançavam, se jogando contra as trincheiras, com os explosivos que traziam consigo. Aquela foi uma investida suicida.

À medida que nossas principais defesas contra os grandes tanques e aparelhos eletrônicos de grande porte caíam, as tropas de tanques blindados e drones de assalto avançavam visando nos destruir.

Com as trincheiras, esse maquinário pesado não conseguira ir muito além, mas com seu poderoso raio de ataque, só se aproximar já seria um desastre para nós. Assim que essa informação atravessou as centenas de quilômetros das trincheiras, o apoio aéreo foi convocado, porém éramos em pequeno número, devido aos que estavam patrulhando as fronteiras marítimas. Tínhamos que conter o avanço das tropas inimigas até conseguirmos o apoio que precisávamos.

Usamos as tocas de urso, grandes túneis para passagem de suprimentos, para enviar alguns tanques e destacamentos para conter a ofensiva inimiga, mas foi quase ineficaz. Quando as primeiras explosões puderam ser ouvidas de onde estávamos, no outro extremo da linha de defesa, soube que tínhamos muitos problemas. Os civis que eram mantidos nas trincheiras para auxiliar na manutenção gritavam de pânico perguntando-se por que não haviam fugido da região antes.

Foi nesse cenário que recebi a ordem mais hedionda da minha vida. Não que eu tivesse alguma simpatia por aqueles pobres coitados, mesmo assim, não foi algo que eu gostei de retransmitir. A ordem era exatamente essa: “executar medida 19B”. A medida 19B era um dos comandos para situações como essa, que necessitavam de ação rápida.

Esse era o comando que, mais tarde, ficou conhecido como “defesa nazista”, em comparação às atrocidades cometidas por Hitler contra os judeus. Todos os civis que trabalhavam nas trincheiras e nos acampamentos, ajudando a manter o exército, receberam uma pulseira que servia de identificação e, secretamente, funcionava com uma bomba.

Jogados no meio do fogo cruzado como se fossem descartáveis, centenas de pessoas corriam, tentando fugir das balas, enquanto tentavam arrancar as pulseiras de seus braços, na tentativa de escapar da morte certa. No dia seguinte, os superiores fizeram um minuto de silêncio, ao entardecer, pelo grande sacrifício daquelas pessoas, em prol de evitar a esterilização humana.

Um minuto de silêncio. Isso realmente era algo tão engraçado quanto doentio. Para mim, chamar de sacrifício o assassinato em massa era algo nojento, mas, no fim, me limitei a fazer o meu trabalho. Enquanto tivesse utilidade para a máquina militar, não teria com o que me preocupar, tirando o meu sobrepeso.

Alguns depósitos de comida haviam sido destruídos e nós, assim como outros destacamentos, tivemos as rações reduzidas, o que era um grande inconveniente. Levaria pelo menos duas semanas até a chegada da próxima remessa de comida, o que deixava dois milhões de soldado com comida suficiente para meio milhão, por duas semanas.

Os primeiros dias foram difíceis, mas conseguimos dar um jeito. Contudo, o número de alimentos que chegaram não foi suficiente, principalmente com ataques de mercenários pela estrada, assim como a ação de infiltrados inimigos. Eles queriam nos derrubar pela fome.

Chegou um ponto em que eu não podia simplesmente comer só duas refeições por dia. Tive que fazer alguns esquemas para conseguir uma comida decente. Nada muito grave, é claro. Um telefonema para casa ou uma simples mensagem serviam para garantir que eu comesse bem. Sem falar que, muitas vezes, nem as mandava, era perda de tempo, muitos deles morreriam logo.

A guerra seguiu-se de maneira progressiva por todo o mundo durante os dias que se seguiram. Talvez eu devesse estar feliz por um dos nossos principais problemas, tirando os ataques inimigos, ser a falta de comida. Durante essa época, soube que as coisas estavam feias na costa.

Armas químicas tinham sido usadas, criando várias zonas mortas pela costa. Se as coisas continuassem nesse ritmo, o confronto decisivo seria aqui, no meio da América Central. A série de batalhas com empates ou vitórias parciais faziam com que todas as tropas que se moviam pela costa fossem se aproximando, à medida que eram reagrupados.

Enquanto isso, no oceano, as frotas marítimas mantinham-se em uma falsa calma. Até então não haviam ocorrido grandes conflitos ou tentativas eficazes de desfazer o bloqueio marítimo, porém, assim como onde eu estava, era questão de tempo até o mar se encher de cadáveres de marinheiros.

Havia começado a época de chuvas e as trincheiras tinham começado a se encher com água e lama, não imaginamos que essa linha de defesa se manteria por tanto tempo. Já havia se passado dois meses, o que, pelos planos dos generais, seria tempo suficiente para estarmos no outro extremo da América Central, prontos para atravessar a região semimorta da antiga Amazônia.

O local onde antes existia a maior floresta tropical do mundo, agora era um pântano fedido, cheio de insetos e muitos fungos. Uma praga de proporção nunca antes vista, atingira a floresta, um fungo se espalhou pelo solo, enquanto matava as árvores. Cerca de setenta por cento da floresta havia morrido em vinte anos, fazendo com que o excesso de matéria orgânica no solo levasse ao supercrescimento das centenas de espécies de fungos nativas da região.

Ouvi boatos que, em algumas épocas do ano, esses fungos se reproduzem, liberando toneladas de esporos no ar, criando uma imensa névoa com propriedades alergênicas e alucinógenas. Não fazia a mínima ideia de como atravessaríamos aquilo. A opção mais viável seria dar a volta, assim como as tropas inimigas, formar uma barricada e usar aviões cargueiros para mover as tropas da retaguarda em uma super ofensiva, mas, a esse ponto, não sabia se tínhamos número suficiente para isso.

Como a câmara de comunicação ficava no subsolo e não foi nenhuma grande obra de engenharia criar as trincheiras e os alojamentos subterrâneos, a água descia perigosamente em nossa direção. Usamos barro e pedaços de madeira para fazer uma pequena barricada, de cinquenta centímetros de altura, que estava funcionando para impedir que a água danificasse o equipamento.

Os soldados estavam trabalhando rapidamente, para criar canais de drenagem, mas o solo barrento se misturava com a água da chuva, fazendo os dutos assorearem e tornando o trabalho extremamente difícil, principalmente quando parava de chover e o barro ficava mais consistente e menos líquido.

Nós usávamos bombas nos primeiros dias, para tirar a água, mas o barro entrava nos circuitos e estragava as baterias. Deixamos os equipamentos mais sensíveis guardados juntos com os não essenciais. Aquele lugar, cada dia mais, parecia com algo de um século ou dois atrás. A tecnologia de ponta era quase inútil, devido ao equilíbrio tecnológico dos dois lados. Desertar, a cada dia, me parecia uma boa ideia, mesmo sabendo que se fosse pego seria enviado em alguma missão suicida ou algo do tipo.

Tínhamos acabado de passar por uma tempestade e outra já se aproximava no horizonte. Aquele clima infernal tornava cada vez mais difícil o transporte de suprimentos, assim como o avanço das tropas, fossem aliadas ou inimigas. Fazíamos o possível para reparar estradas e criar caminhos seguros, mas não era muito eficiente. Todo o nosso exército, com milhares de pessoas espalhadas por toda a América Central sofria com falta de recursos. Alguns cargueiros tentaram passar pelo bloqueio aéreo, mas assim que foram detectados pelo inimigo foram derrubados por minas aéreas que patrulhavam o céu.

Essas minas agarravam-se a qualquer coisa de metal que se aproximasse. Elas erram um tipo de drone ultraleve, com cobertura holográfica, para se misturar à passagem, sendo quase indetectáveis. Nessa época, fazendo uma estimativa grosseira, cerca de setenta por cento do espaço aéreo continental tinha a densidade de uma delas para cada cinco quilômetros quadrados.

Eu tinha acabado de permitir que um soldado fizesse uma ligação para casa em troca de algumas bolachas. Ele estava falando com a filha alguma besteira sobre fogos de artifício e balões. Pelo que pude ouvir, a filha dele tinha medo dos trovões, o que era bem normal. Não bastasse o barulho alto, ainda vinham acompanhados daqueles clarões vermelhos. Uma vez me falaram que, antigamente, eram brancos, mas eu não acho que seja verdade.

Às 22h, no horário local, recebemos a notificação de que havia começado aquela que ficaria conhecida como “A Grande Batalha dos Sete Mares”. As centenas de embarcações espalhadas pelo mar contaminado partiram para a batalha, assim como deveriam ter feito desde o início. Essa era uma batalha que poderia decidir o destino do mundo e esperar fora uma decisão mais sensata. Como o espaço aéreo continental estava praticamente impenetrável, a única opção era voar em baixa altitude e adentrar o território inimigo sem ser abatido, porém isso era quase impossível por terra, mas pelo mar era mais fácil. Os poluentes tornavam os equipamentos de rastreamento poucos precisos, por isso a necessidade da grande frota marítima ao longo da costa.

Um grupo de aviões de alta velocidade tentou atravessar o bloqueio nos mares do norte, onde o gelo atrapalhava a locomoção dos navios, para descer em direção ao centro de comando das forças aliadas. Com sua velocidade de cruzeiro eles levariam trinta minutos para chegar ao seu alvo. Provavelmente traziam consigo ogivas nucleares.

Era um grupo de aviões composto por cinco deles. Dois foram derrubados pelas defesas do mar do norte, enquanto três adentraram o continente, tomando rotas diferentes. O primeiro foi derrubado após quatro minutos. Foram necessários vinte disparos de mísseis e vários disparos de pulsos eletromagnéticos direcionados para derrubá-lo.

Já o segundo, caiu após doze minutos, ao ser interceptado por uma das nossas naves de defesa de resposta rápida, que estava em um porta-aviões, perto da costa. O terceiro foi o mais difícil de derrubar: ele conseguiu passar pelas defesas terrestres e até derrubar o avião que tentou interceptá-lo, porém, quando estava a apenas quatro minutos do seu alvo, decidiu que não havia como chegar lá ao ver a grande esquadrilha aérea que vinha em sua direção. Por isso, decidiu que se não pudesse nos derrubar, causaria um grande estrago.

Soltando a sua carga explosiva, ele levou consigo mais de um milhão de pessoas do local por onde voava. Esse foi o estopim para uma ofensiva em grande escala. A batalha, que antes era lutada em terra, passou a ser travada em alto mar.

Os navios de guerra avançaram cada um com seu alvo específico, enquanto centenas de aeronaves cortavam o céu sob os oceanos, em uma caçada mortal. Da costa, era possível ver o brilho das explosões em alto mar. Se a batalha em terra era algo de mais de duzentos anos antes, em alto mar parecia algo saído direto de cenas de filmes futurísticos.

Nossas tropas marítimas usaram a formação hidra para avançar contra os inimigos. A hidra era a criatura mitológica que, quando arrancavam sua cabeça, duas apareciam no lugar. Assim que confrontados pelo inimigo, nossas tropas dividiam-se e reagrupavam-se, enquanto os submarinos de alta profundidade disparavam da zona abissal.

Para contrapor-se à nossa eficácia e perícia, os inimigos executaram as suas próprias táticas de combate., Os do continente Europeu fizeram um maciço ataque aéreo, para tentar nos parar, enquanto lidavam com o ataque em cima dos inimigos da América do Sul, assim como formações de cerco marinho.

Se olhos menos conhecedores da arte da guerra olhassem para esse conflito, veriam um pandemônio e não o intricado jogo de estratégia que se jogava por todo o globo. Não sei quais pessoas estavam comandando as táticas de guerra, mas provavelmente eram gênios, mesmo com dezenas de confrontos. Ao mesmo tempo, a batalha não chegou à costa na maior parte do mundo.

Foi quando os alarmes começaram a soar, assim como temíamos. A batalha para decidir quais das tropas avançariam para tomar o continente estava para começar; as tropas aliadas já vinham amontoando-se atrás de nós há semanas e os inimigos, alguns quilômetros à frente. A batalha em alto mar era a oportunidade perfeita. Com os ativos aéreos e os recursos limitados, essa seria uma batalha vencida pelas forças dos homens de cada lado. Eu não fazia a menor ideia de onde o desgraçado que me mandara para aquele buraco estava, mas esse cenário deve ter arrancado um sorriso daquela cara enrugada.

Enquanto as tropas inimigas guerreavam no mar, nós nos preparávamos para conter uma investida de milhares de homens. Essa foi a maior batalha da história humana, milhares de pessoas, umas contra as outras, com um único objetivo: matarem-se.

O inimigo sabia que os ataques suicidas não funcionariam daquela vez, por isso, avançaram com tudo. Os homens a pé ou em motos foram os primeiros a avançar. A missão deles era destruir as medidas contra os tanques e drones, não importando se morreriam ou não, desde que abrissem o caminho para as armas pesadas avançarem.

O som das explosões foi ouvido de costa a costa. As dezenas de quilômetros quadrados haviam se tornado um campo de batalha. Enquanto nós, nas trincheiras, contínhamos os inimigos à frente, nas bordas, o nosso exército tinha começado um forte combate para evitar que fôssemos flanqueados.

Os relatos que eu recebia não eram favoráveis. Nossas táticas de defesa não estavam funcionando com eficácia. De nada adiantaria vencermos no mar e cairmos em terra. Havia algo errado, eu percebia a cada relato. Com um sobressalto, soltei o comando Q33, ou morte súbita. Ele transferia automaticamente o comando das comunicações para uma pequena unidade na retaguarda, em caso de comprometimento da comunicação.

Aquele soldado maldito estava mandando informações para o inimigo enquanto comprometia o sistema de comunicação interna. Eu esperava que não fosse tarde demais, mas independente do que eu fizesse, nada teria mudado, afinal erámos peões no jogo daqueles quatro, que eram marionetes na mão dela.

O som alto de uma explosão chegou aos meus ouvidos, no mesmo instante que a terra começou a tremer. Eles tinham finalmente derrubado as defesas que impediam o avanço das máquinas pesadas Além disso, eles tinham perdido um terço de seus homens e nós, a nossa principal defesa. A maré estava nos levando para o fundo do poço nessa guerra.

Em alto mar, as coisas também não iam bem. Alguns dos nossos submarinos tinham sido afundados, enquanto o número sucessivo de ataques estava arrancando as cabeças da hidra mais rápido do que elas cresciam. Porém, as outras nações tinham seus próprios problemas na batalha. A ofensiva aérea da Europa tinha encontrado um adversário de igual poder no movimento de cunha das naves híbridas da América do Sul.

Essas naves híbridas podiam se mover tanto no ar como dentro d’água e não precisavam reduzir a velocidade para fazer a troca de terreno, movimentando-se com igual velocidade nos dois terrenos.

Ainda me lembro do que vi quando saí do meu abrigo para tentar escapar, na confusão que era aquele lugar. Com sorte, conseguiria fugir antes que a derrota chegasse. Vocês podem pensar que fui covarde, desistindo da luta antes dela estar completamente perdida, mas como eu disse, não me arrependo de nada do que fiz.

Ao longe, sob o brilho das explosões, milhares de corpos misturavam-se à lama, enquanto os tanques avançavam, esmagando os seus companheiros caídos. Era uma cena grotesca, sob vários pontos de vista. Nós já fizemos coisas horríveis durante a história e quando digo “nós”, refiro-me a todos os seres humanos. Se você discorda de mim, é só olhar para o estado do planeta: a Terra, que antes era chamada de planeta azul, agora tem seus oceanos manchados com as impurezas dos homens.

Acho que estou ficando filosófico do nada, deve ser o álcool falando, ou melhor, por que estou falando com as paredes? Acho que é só a insanidade natural do mundo me afetando, mas voltando, ainda tenho algo a contar antes do fim da contagem.

Enquanto corria entre as trincheiras, pude ver nossos homens marchando, valentes, para morte. Se a defesa havia falhado, seria o ataque a solução? Muitos deles eram bem mais jovens que eu, dava para perceber o medo em seus olhares. Nunca entendi porque eles não fugiram como eu. Talvez essa fosse a principal diferença entre mim e todos os que estavam ali.

Os tanques eram como grandes feras, avançando sobre os mortos com seu grande volume e contornos escuros. Sob a luz dos trovões, a chuva estava cada vez mais forte, era fácil atolar na lama e, nesse combate, isso provavelmente significaria a morte.

Ainda lembro-me do rosto de uma valente companheira puxando um companheiro da lama, enquanto atirava para todos os lados. Essa é a verdade da guerra que não vai parar nos livros de história: o sofrimento humano, os arrependimentos, pecados e histórias que chegaram ao fim.

Bem, falta menos de cinco minutos, então vou me adiantar para poder beber o meu último gole. Enquanto me distanciava do campo de batalha, pude ver algo estranho acima da carnificina: as nuvens começaram a se mover de forma anormal, a chuva parou de cair e os trovões cessaram. Para quem estava no meio do campo de batalha, isso poderia ter passado despercebido, mas para mim era claro.

Como em um filme, o céu começou a clarear, enquanto as nuvens moviam-se como se estivessem vivas, em direção ao horizonte, para além da minha visão, rumo a um lugar que, nesse dia, não fazia a menor ideia de onde era, mas que hoje é conhecido por todo homem vivente.

Quando as nuvens se foram e o céu clareou, por um único segundo, esqueci-me do mundo, da guerra e de mim mesmo, pois quando um brilho terno banhou o mundo, pude ouvir aquela voz que todos conhecemos tão bem, a voz que trouxe o fim à guerra e ao velho mundo.

Minha bebida parece estar mais amarga agora, nesses últimos segundos. Deve ser o medo me fazendo ficar sóbrio. Fazer o que, apesar de não gostar de pensar em coisas desnecessárias, estou fazendo isso, ainda tenho muito a falar, mas meu tempo acabou... Cinco, quatro, três, dois... Adeus!

Este é apenas um capítulo de HELL. Leia os demais:

  1. Orgulho (20 de setembro)

  2. Preguiça (27 de setembro)

  3. Luxúria (04 de outubro)

  4. Gula (11 de outubro)

  5. Ira (18 de outubro)

  6. Avareza (25 de de outubro)

  7. Inveja (01 de novembro)

  8. Esperança (08 de novembro)

O Autor:


Nascido na cidade de Feira de Santana no interior Baiano, Jony Clay Rodrigues (ou simplesmente JC Rodrigues) publicou seu primeiro livro, "A voz do anjo", pela editora EllA, no ano de 2020. Participou da antologia em homenagem a Isaac Asimov publicada pela Arkanus Editora, "Historias do cotidiano" pela Verlidelas, e "Filantropia do mal" organizada por Pris Magalhães.

 
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