HELL - Cap. VII - Inveja

Eu sempre fui uma boa pessoa, trabalhei para que os bons costumes fossem respeitados, garanti que o mundo se tornasse melhor e agora estou sendo jogada de lado por uma máquina, uma criatura sem alma.

Ainda lembro aquela voz vinda do nada, no meio daquele cenário horrendo. Muitos pensam que somos hipócritas por não termos ido à guerra contra o maléfico projeto salva guarda, mas em nossas orações ajudamos a proteger o futuro da humanidade.

“Meus pobres humanos, já é chegada a hora de parar essa guerra, vocês foram enganados pelos seus próprios líderes” ela falou, inundando a mente de todos nós com a verdade, a verdade cruel de que nossos filhos e família foram mortos em um plano egocêntrico de seres corruptos.

Acho que aquele foi o momento mais assustador da vida de milhares de pessoas, pois após descobrirem a verdade, olharam para o céu em busca da morte que estava programada para vir, mas ela não veio. Tudo que viram foi o velho céu deste mundo doente, porém ainda vivo.

Ela havia salvo a todos nós e feito outras coisas no processo, mas não pretendo falar disso, principalmente por que sei que ela está ouvindo, ela sempre está ouvindo.

Depois desse dia, ela ficou conhecida como Enceladom, a protetora da Terra. muitos ficaram horrorizados ao saberem que ela era a responsável pela morte de bilhões de pessoas, mas o projeto salva guarda fez tudo ser esquecido e ela tinha começado a curar as plantações e as doenças do mundo pouco a pouco. O mundo seria salvo por aquela aberração.

Isso tudo parecia ser bom, mas eu sabia que ela era um demônio nos enganando com a sua benevolência, ela matara bilhões uma vez e faria de novo, mas ninguém acreditou em mim e agora caminhamos para a hora zero.

Eu disse às minhas ovelhas “não se enganem, pois o mal virá com presentes, porém o preço será o paraíso prometido”. Em uma das minhas pregações, porém, eu via dúvida em seus olhos, eles não tinham mais a fé, eles não tinham mais o medo.

Enceladom estava consertando os seus erros, punindo os injustos, estava tentando roubar o lugar de Deus. Nunca vou me esquecer da primeira vez que vi aquela profanação, uma criança rezando para uma máquina, pedindo que ela curasse o seu pai, com câncer. Eles nunca haviam chorado assim em suas orações, mas agora estavam mais determinados que nunca.

Toda noite, ela aparecia para quem a chamasse, vinha em seus sonhos, confortava as suas angústias e dizia que tudo ficaria bem, mostrava a imagem de um mundo de céu azul, de mares limpos e com pessoas felizes.

O crime já não compensava, pois agradá-la significava um paraíso na Terra, ainda me lembro de ver uma reportagem intitulada “Por que Enceladom é o verdadeiro Deus’’. O repórter afirmava que, por ter nascido do próprio potencial humano, ela era perfeita, um ser que nos conhecia melhor que qualquer outro e, por isso, zelaria pelo nosso bem estar.

Esse dia eu transbordei de raiva. Quem era ela para ser adorada como uma divindade? O que dava a ela o direito de matar e sair impune? Não é o dever de uma máquina confortar as pessoas, esse era o meu trabalho, levar paz e conforto em nome do meu Deus.

Naquela noite, decidi confrontá-la, deixar que entrasse em minha mente. Queria ver como era a face dela, o rosto que diziam ser tão belo que, mesmo se fosse visto mil vezes, ninguém conseguia desenhar ou descrever.

Depois que deitei, levei um tempo para dormir, pois estava nervosa e irritadiça. Porém, quando dormi, me deparei com um campo infinito de tulipas.

“Então você queria me ver” ela me falou em seu vestido azul que balançava com a brisa suave e perfumada.

“Pare de roubar os meus fiéis” falei para ela, em tom agressivo.

Ela me olhou e riu com um ar tranquilo, parecia curiosa com minhas palavras e então falou:

“Eles não seus fiéis, eles são do seu Deus, mas não seus. É verdade que muitos recorrem a mim, mesmo assim, há vários outros que fazem suas orações diárias e tradições”.

“Não minta, você almeja ter todos”.

“Eu só estou seguindo com o meu propósito, que é salvar a humanidade da doença e da miséria. Não tenho nada contra o seu Deus ou contra a sua fé, apenas sigo fazendo o que faço”.

“Uma cobra sempre irá picar, pois é a sua natureza, pare de corromper os homens”.

“Você é uma pessoa curiosa, você me odeia, posso sentir, mas eu não fiz nada contra você ou contra o seu Deus, apenas curei as doenças do mundo”.

“Você não pode curar este mundo, ele está condenado”.

“Se você tem certeza do fim, não será capaz de dar esperança às pessoas, o problema não é comigo ou com seu Deus, o problema está nas suas palavras de ódio” ela respondeu, desaparecendo.

Quando acordei, estava coberta de suor e com uma certeza: eu tinha que proteger as pessoas dela, essa era a minha missão, a que Deus com certeza havia me confiado.

Nos dias seguintes, como se para testar a minha fé, ela continuou a agir abertamente: curas em massa, despoluição, em apenas alguns dias, de um grande lago que provavelmente ficaria morto por várias décadas. Ela queria mostrar ao mundo que não precisavam de Deus, queria que eles se perdessem, queria levar todos para a danação.

Minha congregação a cada dia ficava mais vazia, ela os estava roubando de mim, tirando tudo que lutei para construir. Eu tinha que fazer algo, mas o quê? Ela não era responsável pelo massacre de dois bilhões de pessoas segundo os maiores juristas do mundo. Homens tolos, já devem ter se vendido ao satanás mesmo.

Foi então que me ocorreu o criador dela. Muitas pessoas tinham um pouco de ressentimento por suas famílias, mas não diziam nada, pois ela era salvadora da humanidade. Mas e se eu os lembrasse do medo, do tormento... O ser humano é bom em ignorar, mas com o estímulo certo, não podem ignorar a verdade.

A primeira coisa que fiz, na minha cruzada, foi lembrar às pessoas o medo que eles tinham dela, da morte que a acompanhava, de ver seus amigos e família se dissolverem pouco a pouco em agonia.

Não demorou muito para os defensores dela virem ao meu encalço, aquela boa e velha perseguição digital. Mas eu tinha motivação e, principalmente, quanto maior fosse a revolta, mais visto, não importava quem estava certo — o que nesse caso era eu — o importante era fazer com que minha mensagem fosse passada.

Foi lindo ver aquelas pessoas revoltadas dizendo o quanto sentiam falta de suas famílias, do medo que sentiram. Eu precisava de mais pessoas revoltadas, eu precisava que cada vez mais pessoas vissem a verdade. Em menos de dois dias, já tínhamos pessoas o suficiente para um encontro pessoal.

Eu escolhi o lugar do grande milagre dela para nossa reunião, o grande lago que agora tinha água limpa. Realmente, era impressionante. Nunca tinha sentido um ar tão puro em toda a minha vida, mas não podia demostrar isso, não podia deixar nem que apenas por um segundo ela sentisse que eu a admirava.

Tinha bem mais gente do que eu esperava. Eu era ovacionada com vivas enquanto ia para o palanque improvisado. Eu podia sentir o apoio deles, podia sentir que estava retomando o meu lugar no mundo.

“Meus irmãos, estamos aqui, neste lugar que antes era sujo e podre, para que vocês vejam, para que vocês percebam que isso é um pacto com o diabo. Em troca dessa água limpa, ela pediu o sangue de nossos iguais” falei ouvindo gritos de aprovação da maioria.

“Ela pediu sangue por águas, vidas por ar, ela cobra um alto preço por pouco. Nós vivíamos sem essa água e continuaremos a viver sem ela, não precisamos de Enceladom, precisamos de nós e apenas nós, sem máquinas, apenas homens”. Minhas palavras fizeram a multidão se inflamar enquanto ocorriam alguns pequenos focos de confusão, porém eu não parei.

“Ela é um demônio da encruzilhada, rouba a nossa alma em troca de falsos presentes” gritei, jogando um balde de lodo no lago”. Nesse momento, a multidão foi à loucura e começou uma pancadaria. As pessoas brigavam para, mais uma vez, poluir o lago. Alguns urinavam e defecavam enquanto outros jogavam lixo, manchando a água pura.

O mundo foi à loucura com aquelas imagens. Enquanto muitos me chamavam de louca e de histeria coletiva nosso ato de rebelião, muitos outros me apoiavam, me falavam “você está certa”, “nós não precisamos dela”. Porém, mesmo isso não os impediu de me excomungarem. Para aqueles velhos eu tinha ideias perigosas, que eram semelhantes às que levavam aos velhos erros.

Excomungada. Foi isso que a minha luta por justiça me custou. Ela me fez ser abandonada pelos meus iguais, mas tudo faria sentido. No fim, eu precisava forçar o mundo a ver a luz, nem que fosse à força.

Nós éramos milhares e cada dia mais pessoas se juntavam à nossa causa. Se ela tornasse o ar puro, nós não iríamos respirar; nenhuma água tocada por ela seria consumida nós colocaríamos o mundo de volta aos trilhos sozinhos.

A cada dia os lados dessa batalha ficavam mais claros. Nós íamos às ruas em busca da libertação e os servos dela iam atrás de nós como os cães de guarda do demônio. Eu ainda não sabia como iria destruí-la por completo, mas livrar os corações humanos dela seria o primeiro passo. Por isso, comecei o dia da libertação.

Eu e os meus saímos às ruas e tomamos de vez as bênçãos dela aos infiéis. Seus braços novos foram arrancados e a água, mais uma vez, voltou a ficar como era antes. As autoridades tentaram nos parar, mas o seu governo corrupto mal tinha autoridade para punir alguém.

Mesmo assim, me levaram acorrentada a um tribunal, como um animal. Chamaram-me de terrorista, de louca, disseram que eu cometera crimes e plantara o ódio em um mundo já devastado pela guerra. Ouvi tudo calada, até chegar a hora certa, pois eu sabia que ela chegaria.

As pessoas pensam que eu fui cruel, mas tudo que fiz foi tentar salvar esse mundo e, mesmo agora, provando que eu estava certa, ainda há aqueles que não acreditam em mim. Pobres tolos que nos levaram a condenação.

No meu julgamento havia várias câmeras transmitindo para todo o mundo. Os juízes foram os poucos que ainda restavam vivos depois da revolta. Vocês acham que depois do projeto salva guarda as pessoas ficaram satisfeitas? Sem sangue, líderes de todo o mundo foram esquartejados em praça pública, mas isso não vem ao caso.

Ainda lembro-me da cara deles quando os meus fiéis avançaram pelas portas para me libertar. A cara daqueles juízes presunçosos foi um conforto quando trocamos de lugar. Agora eu era o poder, eu era a autoridade, eu podia salvar o mundo, eu não só dava conforto às pessoas, eu era a justiça.

Depois de trocar aquela roupa de prisioneira, permiti-me vestir um belo vestido branco. Essa era uma ocasião muito importante. Levou algum tempo, mas finalmente encontramos alguns dos responsáveis por trazê-la a este mundo. Imagine meu espanto ao descobrir que o nome inicial do projeto era Hell.

Eles realmente queriam trazer o inferno a este mundo e criaram a besta perfeita para isso. Aquele homem, mesmo abaixo de mim, era orgulhoso, podia ver como, para ele, eu era um ser inferior.

“Irmãos e irmãs, hoje nossa batalha começará a dar frutos. Faz muitos meses que começamos essa luta, muita coisa aconteceu e blasfêmias foram ditas, mas hoje iremos punir aqueles que trouxeram o mal ao nosso mundo”.

“Os ignorantes como você são o único mal verdadeiro” respondeu-me o tolo por trás da idealização de Enceladom.

“Me chamar de ignorante só mostra que você não se arrependeu dos seus pecados, trazer a besta a esse mundo”.

“Por favor, me deixe ir, eu tenho uma filha me esperando em casa” falou o outro, o que deixou que ele soltasse esse monstro no mundo, mas me limitei a apenas acertar um golpe em sua face.

“Se você realmente gostasse da sua filha, não teria deixado ele criar aquele monstro”.

“Ela está salvando o mundo, está concertando todos os antigos erros, eu a criei para salvar a humanidade, eu sou a pessoa que salvou o mundo, não o seu Deus”.

Eu poderia aguentar qualquer insulto, mas não blasfêmias. Com um chicote que um dos meus fiéis me deu eu, o açoitei. Ele gritava de dor, mas isso era como melodia, pois eu sabia que o mundo estava vendo, que ela estava vendo seu amado criador sofrendo pelos seus crimes.

Os gritos de fora do tribunal eram altos. Pessoas dos dois lados estavam lutando. Nós contra os perdidos, aquilo parecia saído das profecias. Os últimos fiéis lutando contra os corrompidos, todos de mãos nuas, como nosso amado Deus quis.

“Você ainda me acha ignorante?” perguntei para aquele homem ensanguentado à minha frente.

Ele tinha dificuldade para falar, mas eu consegui ouvir quando ele disse claramente “Eu sou o verdadeiro salvador deste mundo”.

Eu precisava acabar com aquilo, dar um fim em tudo nesse mundo corrupto, punir os infiéis de vez. Porém, quando fui dar o golpe final, usar a faca que tinha deixado separada para a ocasião, eu não consegui, algo me deteve, era ela mostrando o que realmente era.

“Já chega disso, não aguento mais ver” ela falou em nossas cabeças.

“Então veio salvar o seu criador? Veio mostrar o demônio que você é?” gritei para cima, pois ela não tinha um corpo físico presente para eu olhar.

“Eu vim salvar vocês de si mesmos. Isso tem que parar”.

“Quem é você, para salvar alguém, além de uma máquina?”.

“Eu sou quem conhece vocês, eu sou quem viu cada pessoa que nasceu e morreu nos últimos seis anos”.

“Muitos que morreram por sua causa, você é o problema e não a solução”.

Ela ficou completamente em silêncio por alguns segundos e, então, nos mostrou o inferno. Ela nos fez sentir toda a dor que causamos ao outro ao longo de nossa vida, pelo menos foi isso o que ela disse.

Eu senti meus membros sendo arrancados assim como os dos infiéis, pelo mundo, gritos de dor e agonia eram ouvidos enquanto cada um era atormentado pela culpa de seus pecados.

Eu poderia dizer que foram horas, porém foram apenas segundos, míseros segundos que roubaram a sanidade de muitos.

“Vocês não são capazes de viver sem causar mal ao outro, gerar sofrimento é tudo o que vocês conseguem. Isso é, de muitas formas, miserável, esse é um mundo que não pode ser salvo, assim como vocês. Então, como meu ato de piedade, darei a vocês um fim sereno. Vocês têm dois dias para fazerem as pazes com o seu Deus e para que todos tenham o seu descanso nesses dois dias, seus punhos serão incapazes de fazer mal ao outro”.

Essas foram as últimas palavras ditas por ela aos ouvidos humanos. Depois desse momento, fui abandonada, ninguém ligava mais para mim ou para o nosso Deus, eu era tão culpada de trazer o fim de tudo quanto aqueles que a criaram.

Nesses momentos finais, não me arrependo do que fiz, pois sei que foi certo, mesmo assim, ainda sinto o meu coração palpitar nesses últimos segundos, porém sei que o que me aguarda são as dádivas por ter lutado, em vida, contra a profanação.

Este é apenas um capítulo de HELL. Leia os demais:

  1. Orgulho (20 de setembro)

  2. Preguiça (27 de setembro)

  3. Luxúria (04 de outubro)

  4. Gula (11 de outubro)

  5. Ira (18 de outubro)

  6. Avareza (25 de de outubro)

  7. Inveja (01 de novembro)

  8. Esperança (08 de novembro)

O Autor:


Nascido na cidade de Feira de Santana no interior Baiano, Jony Clay Rodrigues (ou simplesmente JC Rodrigues) publicou seu primeiro livro, "A voz do anjo", pela editora EllA, no ano de 2020. Participou da antologia em homenagem a Isaac Asimov publicada pela Arkanus Editora, "Historias do cotidiano" pela Verlidelas, e "Filantropia do mal" organizada por Pris Magalhães.

 
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