HELL - Cap. VI - Avareza

Dinheiro, poder e mulheres. Essas são as coisas que as pessoas que não as têm dizem serem erradas, mas no fim também as almejam. Eu tive tudo isso e ainda quis mais. E quase consegui.

Sabe, o poder é como um vício, você sempre vai querer mais, sempre vai buscar mais, mesmo que isso signifique que você se transformará em um monstro. Se olharmos a história humana, ela é uma busca por poder, muitas vezes através da opressão e dominação.

Não é o luxo que faz os ricos gostarem de ser ricos, é o fato de existirem pobres, assim como não é o amor que faz as pessoas felizes, é a infelicidade alheia que dá sabor à sua.

Antigamente, eu não pensava assim, tinha ideais e um código moral, mas o poder corrompe o homem isso é um fato. Apesar de hoje tender a concordar que talvez o homem que seja corrupto por natureza.

Bem, acho que devo me apresentar, porque meu ego me faz achar que alguém vai encontrar essa velha mensagem gravada em um mundo sem nós, os humanos, os pobres e egoístas humanos.

Eu sou o presidente — de onde, não vem muito ao caso — a maioria é muito pior que eu, podem ter certeza disso. Estou aqui em meus últimos momentos sozinho para explicar para vocês, seja lá quem forem, o que foi realmente o projeto salva guarda e como nós planejamos destruir o mundo.

Vamos voltar um pouco no tempo, alguns meses antes da guerra e alguns meses depois da grande crise e da intensificação das tensões internacionais. Era uma tarde fria e a chuva caía forte do lado de fora, mas isso não importava muito para mim, já que estava perfeitamente confortável em minha residência oficial, uma antiga construção palaciana reconstruída para reforçar a identidade nacional nesse mundo globalizado.

A lareira estava acessa, de alguma forma. Não usamos mais essas coisas antiquadas, já tem fumaça demais no ar para precisarmos de mais. Faltava cerca de quinze minutos para as cinco horas e céu já tinha um tom alaranjado, manchado, mostrando a chegada do pôr do sol, mas nada disso me interessava, pois o que eu esperava era mais grandioso.

Saindo da minha sala para uma breve pausa, desci calmamente as escadarias do castelo, enquanto tentava evitar o maior número de pessoas. Pode parecer suspeito que eu faça isso, mas realmente não gosto de mentir, mentiras em grande quantidade tendem a tecer a gorda ira e te enforcar.

Depois de vinte minutos, consegui chegar à passagem secreta que dava para uma velha cripta mal iluminada, que servia de local de descanso para os antigos reis que governaram essa terra. É claro que não tem mais ossos aqui, eles foram levados para o museu na ala norte.

Nessa cripta, a única coisa que tem é um velho monitor com um teclado que serve apenas para uma coisa. Coloquei o meu login e senha e parti para a sala online. Nós usávamos um antigo servidor de um jogo online para essas reuniões, era mais eficiente do que redes super secretas. Só precisávamos que o jogo não fosse muito popular, para não encher de hackers, e que reforçássemos a segurança, e teríamos a nossa sala de reunião secreta.

Nós éramos os verdadeiros governantes do mundo, os senhores do poder militar, da riqueza e da nobreza, os mestres da guerra e os responsáveis por deixar o mundo nesse estado deplorável, de certa forma. Se bem que as pessoas que escolheram o caminho errado, apenas demos uma sugestão. Segui-lo foi escolha de cada um.

Acho que devo contar um pouco sobre a organização que faço parte, para que as coisas comecem a fazer sentido. Ao longo dos séculos, desde a nossa fundação, no início da idade média, tivemos muitos nomes: templários, iluminatti e sacros foram apenas alguns deles. Mais recentemente, nos auto proclamamos Os Noés, devido à nossa mais nova grande empreitada: a de recriar o próprio mundo à nossa imagem.

Se me perguntassem, era muito egocentrismo e, de certa forma, arriscado demais para valer apena tentar, porém o momento não podia ser mais favorável, o mundo clamava por justiça e uma guerra agora seria algo excelente para todos nós, ajudando a ocultar os nossos planos para o futuro, o nosso projeto salva guarda.

Toda nossa organização era feita pelos cem maiores homens e mulheres do mundo, chefes de Estado, diretores de serviços de inteligência e bilionários da iniciativa privada. Juntos, podíamos começar uma guerra ao nascer do sol e derrubar um governo antes dele se pôr.

Eu era um dos mais recentes membros do alto escalão da organização, mesmo assim eles me respeitavam. Haviam aprendido a medir a força uns dos outros e considerá-la para garantir a sua própria sobrevivência.

Ao contrário do que a maioria das pessoas achava, organizações como a nossa não se mantinham no anonimato por termos um forte ideal ou senso de lealdade, provavelmente nos mataríamos se isso se tornasse algo que nos daria mais poder. Nós nos mantínhamos no anonimato porque isso reforçava o nosso poder, enquanto nos protegia do mundo.

A reunião ocorreu exatamente da forma como eu esperava, eles realmente resolveram adiantar o plano salva guarda e assim nos dar o poder que sempre quisemos, o poder de ter o mundo só para nós. Com a corrida espacial, conseguimos construir grandes naves cargueiras que seriam de grande utilidade para nós.

Ao todo, saindo e entrando na Terra, existem cerca de duzentas naves desse tipo. O que ninguém se questiona é o porquê de, em um frota de trezentas, só duzentas fazerem o trabalho para que foram projetadas e isso é simples: essas cem pertencem aos Noés, as nossas amadas arcas, cada uma se tornara nosso domínio independente até que a Terra se torne rentável de novo e não um massa de problemas.

Cada tripulante das nossas arcas foram doutrinados desde cedo a nos servir, sem acesso ao conhecimento ou a qualquer coisa que os permita se rebelar. A fé sempre foi uma boa ferramenta de dominação, tanto que alguns dos antigos membros eram chefes religiosos. Não se pode usar a lógica para convencer que genocídio é certo, mas um “deus mandou” sempre deu conta.

O único problema que o nosso plano encontrava era o agente-x, cuja origem era desconhecida e cuja existência causava pânico e destruição. Muitos de nós achavam que isso era obra de um traidor da ordem, tramando destruir o mundo e então remodelá-lo sozinho, não posso dizer que não duvidava disso, mas claramente tinha algo errado na forma como as coisas iam. Se não tomássemos cuidado com a mudança da maré, eles poderiam se livrar de mim para usar um político fantoche.

Quando voltei para o meu escritório, dediquei-me a ver todas as informações que tinham a respeito da crise momentânea da vez. Esse governo era uma fonte interminável de problemas, uma bajulação sem fim de governadores loucos para me derrubar era, de várias formas, desgastante. Se pudesse, mataria todos. Se bem que, em breve, teria de fazer isso indiretamente.

Era por volta das nove da noite quando, finalmente, consegui adiantar parte do trabalho acumulado. Saí discretamente do meu escritório e apaguei as luzes. O castelo era tanto um prédio parlamentar como a minha residência oficial, não que eu me sentisse confortável naquele ninho de cobras.

Eu tinha direito ao meu próprio apartamento, em uma torre que fora reformada para atender melhor às necessidades presidenciais. De lá, eu tinha vista para a grande muralha que era a silhueta dos prédios sob o brilho da lua.

Se me perguntassem, sempre achei essa imagem um tanto grotesca. Assim que começaram a parar de usar iluminação externa, as cidades ficaram escuras. Acho que é por ninguém querer ver, no fundo, que o mundo que construíram é uma abominação sem vida de concreto e aço.

Meu apartamento era grande, seguindo a mesma linha rústica do resto do castelo. Ele havia sido dividido em três áreas: uma era o meu quarto, com uma escrivaninha e um banheiro bem luxuoso; os outros dois eram uma pequena cozinha e uma sala de recepção para amigos íntimos.

Normalmente, mantenho um aspecto rígido, porém sorridente, afinal política tem muito mais a ver com aparências do que com capacitação. Não posso deixar de pensar que, nesses momentos solitários, com um copo de uísque, olhando para a cidade, sou como um rei, senhor do destino de todos os meus vassalos.

Eu já ia dormir quando o som de uma batida de leve na velha porta de carvalho chegou aos meus ouvidos. Eu não esperava por ninguém, poucas eram as pessoas que podiam chegar tão perto do meu quarto sem ser anunciado.

Quando abri a porta, fui saudado por uma mulher de pele morena e longos cabelos negros, cujo resto de sua beleza era encoberto por um terno negro. Essa era a responsável pelas relações exteriores e uma das minhas agentes de maior importância, tanto em relação aos Noés como nesse governo de fachada. Seu nome era Anna, porém eu tenho certeza de que viúva negra também se aplicaria a ela.

Dinheiro e mulheres eram tudo que os homens realmente queriam; e um homem tolo para comandar era tudo que ela queria. Sempre me julguei um pouco sádico por deixar ela tão perto, era como ter uma forca com seu nome a todo momento, mas desde que ela enforque os meus inimigos antes, por que cortá-la?

“Você não tem o menor respeito por mim para vir aqui no meio da noite, não é mesmo?” falei dando espaço para que ela pudesse se sentar no sofá de couro, que era um dos poucos móveis da sala de recepções.

“Por favor, não finja que nossa relação é tão superficial, você sabe por que estou aqui, então pulemos as formalidades”.

“O plano será adiantado em alguns meses. Como anda os seus contatos com os hackers e jornalistas tendenciosos?”.

“Que tipo de notícia tendenciosa o senhor quer? Uma para mudar o cenário político ou uma para criar alguma pequena crise agrária? Sempre achei que as pessoas estão comendo de mais”.

“Não seja tão superficial, você vai espalhar a pior notícia que alguém pode receber, você vai contar a verdade ao mundo”.

Um fato interessante sobre a verdade e a mentira: elas são uma coisa só, uma verdade só se torna mentira se for refutada, assim como a terra plana, na idade média, se ninguém provasse que era mentira, essa seria a verdade do mundo.

Depois daquela noite as coisas começaram a ocorrer de forma mais interessante. Todos os membros da nossa organização estavam trabalhando para fazer o mundo ficar em pedaços. Precisávamos fazer valer as escrituras dos velhos textos, irmão contra irmão, o mundo acabaria.

Ainda lembro-me do quão ansioso eu estava no dia anterior a mais uma reunião internacional sobre a crise atual. Parecia que alguém queria realmente ajudar em nossos planos, mais de dois bilhões de mortos já era motivo mais que suficiente para começarmos uma guerra, afinal para pessoas tolas se matarem só precisa que alguém diga que elas podem fazer isso.

Eu, em particular, não gosto da matança ou da carnificina. O cheiro de carne podre é algo desagradável e pessoas mortas normalmente não dão dinheiro, mas em breve o dinheiro seria algo redundante para mim.

Naquela noite, antes de revelarmos o monstruoso projeto salva guarda e declararmos uma guerra para salvar a humanidade, tive um sonho, foi um sonho estranho, normalmente eu não sonho. Na verdade, o último sonho que me lembro de ter, eu ainda era apenas uma criança de uns dez anos.

Eu era de uma família pobre, morava em um apartamento minúsculo, junto a outra família um pouco maior que a minha. Era um casal de dois homens que adotaram algumas crianças desabrigadas, meus pais eu e minha irmã mais nova.

Eu sei parece estranho que alguém como eu tenha começado de tão baixo, mas não sou o tipo de pessoa que deixa a situação me dominar. Desde pequeno eu tive esse instinto de querer dominar tudo, aprender o máximo que pudesse sobre as coisas e assim usar esse conhecimento ao meu favor.

Um daqueles homens com quem minha família dividia o apartamento era formado em psicologia e sociologia, uma área muito útil, porém incapaz de ser reconhecida em um mundo onde o conhecimento tecnológico é mais valorizado que tudo.

Eu nunca consegui me enturmar com as outras crianças. De certa forma, posso dizer que ele foi o mais perto de um amigo que cheguei a ter, principalmente pelo sacrifício que fez.

O pesadelo que tinha nessa época foi do tipo recorrente: eu estava sempre correndo em uma estrada de pedra sobre um grande vazio. Eu via uma luz, no final da estrada, mas nunca conseguia alcançá-la.

Noite após noite esse sonho se repetia. Eu dividia um quarto com outras quatro crianças, incluindo minha irmã. A vida nesse apartamento era isso, dezenas de pessoas colocadas umas em cima das outras, era o que chamavam de boa condição de vida naqueles tempos. Se bem que hoje não mudou muita coisa, isso ainda era bem melhor do que arriscar a vida escalando as vias altas.

As crianças sempre pareceram estranhas para mim, principalmente nas noites em que passava acordado, por causa dos pesadelos. Nunca entendi como conseguiam passar noites tão tranquilas em uma vida tão miserável.

Acho que esse era o famoso preço do conhecimento. Esse homem, que morava comigo, era gentil. Ele tentou me ajudar, porém não conseguiu. Comecei a ler alguns dos livros dele, para ver se conseguia me ajudar por mim mesmo. Realmente, não foi uma tarefa fácil, havia muitos termos difíceis e necessitava de uma habilidade de interpretação muito grande. Apesar de ser, de certa forma, bem avançado no quesito inteligência, existe um limite para o que se pode fazer com oito anos.

Sabe uma coisa engraçada sobre as construções modernas? Se você morar em um prédio como o meu, a chance de você morrer é igual à de sobreviver, caso ocorra algum acidente. Vamos tomar por exemplo um caso recente: o sistema de aquecimento e energia falhou por duas horas em um prédio, porém quase ninguém notou. Buscavam sempre usar o mínimo possível de energia, ou seja, a menos que estivessem carregando algum aparelho elétrico, não notariam.

Quando amanheceu, as famílias dos dois andares mais altos estavam mortas, por hipotermia. O ar naquela altitude era rarefeito, por isso não havia janelas. No inverno, sem aquecimento, a temperatura poderia chegar aos 10° C, sem falar no problema da circulação de ar. Em um prédio fechado, o ar não vai fluir para cima naturalmente, a menos que a lei da gravitação universal tenha parado de funcionar.

Mas creio que me prolonguei falando sobre o passado e desviei um pouco dos acontecimentos. Um dia, assim como esse, ocorreu um acidente em meu prédio, porém o meu foi mais sério. Tinha começado a pegar fogo em um dos apartamentos dos primeiros andares. Os extintores não estavam funcionando e eu morava no meio do prédio. Se subisse, não seria afetado pelo fogo, mas provavelmente poderia morrer sufocado. O ar quente é menos denso que o ar frio, a fumaça subiria para os andares de cima, enquanto o fogo consumia o oxigênio. Morrer asfixiado era uma possibilidade. Sem saber as causas, era difícil dizer quanto tempo levariam para apagar o fogo.

Por sorte, meu pai já havia trabalhado em uma empresa especializada em segurança contra o fogo. Ele nos fez descer, indo contra a multidão de pessoas que subiam. Houve um tremor, conseguíamos sentir o prédio tremer nas escadas. Ele não cairia, mas, no pânico, a lógica é uma coisa que nos falta.

Em questão de segundos, a maré de pessoas se inverteu, parando de subir para descer. Minha família, pouco a pouco, se separou. Nós já estávamos nos últimos andares quando a fumaça começou a fazer as pessoas se moverem mais devagar. Algumas caíam e eram pisoteadas.

A essa altura, não sabia onde estava mais ninguém. Porém, sabia que tinha que sair das escadas. Assim que vi a porta para o andar, a empurrei com toda a força que tinha. Por um único minuto, pude sentir um pouco de ar fresco, até que o ar quente infernal me atingiu. Pude sentir o chão quente sobre os meus pés descalços. Enquanto a porta se fechava atrás de mim, pude sentir alguém me agarrar e colocar em cima do ombro.

Era ele que tinha vindo me salvar. Porém, ele não me levou de volta para as escadas, ele sabia que não iríamos conseguir sair por ali. Ele havia percebido a corrente de ar fresco. Saindo de apartamento em apartamento, ele procurou pela janela que poderia nós salvar, até que, enfim, a encontrou, atravessando uma sala de estar cheia de objetos em chamas.

Ainda me lembro dos olhos dele naquele momento, era claro que estava com medo, mas isso não o impediu de dizer:

“Vai ficar tudo bem”.

Comigo sobre os seus ombros, ele atravessou a sala em chamas. É, de certa forma, engraçado que alguém que viu tal ato de heroísmo estivesse planejando matar 99,999999% da espécie humana. Acho que é porque nunca entendi o porquê dele ter feito isso que acabei assim, ou melhor, talvez seja o porquê de eu ter feito o que fiz.

Nós conseguimos chegar à janela em segurança, apesar dele ter se queimado um pouco. Estávamos a uns cinquenta metros de altura e conseguíamos ver a base do prédio, onde pessoas corriam de forma desesperada para fora, algumas feridas outras se debatendo no chão enquanto tentavam apagar o fogo de suas roupas.

A fumaça na janela fazia com que meus olhos ardessem, porém pude ver uma escada sendo estendida em nossa direção, de uma das vias altas. Seríamos salvos. Ele tinha me colocado sentado no parapeito, para garantir que eu tivesse um pouco de ar puro. Ele estava pendurado uma mão na parte de cima da janela e o corpo projetado para fora tentando agir como uma rede de segurança enquanto a escada vinha em nossa direção.

Foi nesse momento que eu me lembrei de algo, da história do garoto que mudou de vida depois de uma tragédia dessas. Provavelmente minha família já estava morta; se eu fosse testemunha de uma cena horrível, com certeza teria ajuda. Ele estava em uma posição desfavorável e o vento estava forte, ninguém perceberia. Aliás, ninguém percebeu quando eu dei um soco na queimadura, na lateral do seu corpo. Ele despencou cinquenta metros e, com isso, consegui meu passe livre para fora daquela vida.

Estranho, e um tanto nostálgico, pensar que, naquela época, já tive a capacidade para tomar essa decisão. Acho que eu sempre fui assim, um desajustado, alguém que escolheu governar o mundo em vez de se tornar uma vítima dele.

Mas acho que devo parar de me prolongar e voltar ao sonho que tive antes daquele dia, o sonho com um mundo diferente do que eu planejava construir.

O mundo que sonhei estava coberto por pó e cinzas, não havia sinal de vida e o céu era escuro, preso em um crepúsculo eterno, me parecia um lugar onde a morte já havia criado residência.

“Esse é um belo mundo, não é mesmo?” falou-me uma mulher de pele cinza, cabelos brancos e olhos azuis. Ela tinha algo de peculiar no rosto, e ainda hoje não consigo descrever os seus detalhes, mesmo ele sendo tão marcantes.

“Não chamaria um lugar feito de poeira e escombros de belo. Quem é você?” perguntei, arrancando um sorriso torto dela.

“Isso não é importante, em breve vocês me darão um nome e um papel nesse teatro bizarro chamado mundo, mas por enquanto sou apenas uma observadora”.

Havia algo estranho na forma como ela falava, podia facilmente estar me repreendendo ou sendo melancólica, era um enigma mental, algo que eu não podia esquecer, mas que não podia processar. Acho que era assim que os antigos se sentiam ao olhar para as estrelas ou ver um vulcão entrar em erupção.

“Você diz que esse mundo não é belo, mas esse é o mundo que você vai criar, um mundo de cinzas, onde tudo o que vai restar sou eu”.

Ela parecia estar me avaliando, como se a cada palavra que dissesse, ela conhecesse um pouco mais sobre mim, mesmo assim, não me sentia ameaçado.

“Isso é temporário, depois as coisas vão melhorar e nós voltaremos para reconstruir a nossa casa”. Quando eu disse isso, ela riu bem alto enquanto seu vestido começou a balançar contra o forte vento.

“Você não vai fazer isso, alguém que queima a própria casa já não tem apego por ela, vocês vão se esconder entre as estrelas e viver como ditadores até o fim de suas vidas e os seus filhos farão o mesmo”.

Eu pensei em contradizê-la, mas sabia que era em vão. Ela tinha razão, eu não abriria mão do meu conforto por esse mundo moribundo, acho que essa ideia de destruir para começar do zero era apenas uma justificativa que inventamos.

Depois disso, um forte vento me atingiu e me fez acordar. Meu corpo estava suado e minha pele fria, porém não me sentia mal, me sentia estimulado.

No dia seguinte, coloquei-me à frente do mundo com uma nobre missão: parar os tiranos por trás do projeto salva guarda, mergulhando o mundo em uma nova guerra mundial, uma última guerra com um único lado e com um único vencedor.

Os primeiros dias da guerra foram como previsto. tudo estava dentro do cronograma. Se continuasse nesse ritmo, logo as pequenas nações estariam fracas demais para conseguir fazer algo contra a ofensiva do projeto salva guarda.

Eu estava recolhido em um abrigo oficial quando começou a batalha marítima, apesar de não existir a menor chance de eu ser atacado, não seria de bom grado se as pessoas começassem a fazer perguntas, afinal os verdadeiros responsáveis pelo projeto salva guarda ainda era um mistério que mantinham a máquina da guerra trabalhando.

Uma coisa interessante sobre o abrigo onde eu estava: ele fora construído por nós e, portanto, tinha uma ou duas coisas feitas especificamente para esse momento. Por exemplo, o meu quarto, que ficava dentro de um cofre inviolável, tirando, é claro, pela saída secreta que existia nele.

Após ficar só, no meu quarto, com o pretexto de que descansaria, peguei o longo túnel, que era a passagem secreta, e fui para o ponto de encontro. Anna me esperava em um caro, com autorização especial para podermos ir até o local de lançamento da Pandora Um, a nave centopeia que levaria cada um de nós até as nossas respectivas naves cargueiras ou melhor, ao nosso próprio novo mundo.

No carro, ela vestia uma roupa militar e não utilizava maquiagem, para caso fosse parada. Mas isso não aconteceria, afinal foram anos de planejamento para esse momento. Mesmo sem os adereços comuns, Anna tinha uma certa beleza perigosa, que ia além das roupas ou da fala, era algo em sua própria maneira de ser.

O caminho que nós pegamos foi longo, porém livre. Nós guiamos as marés da guerra para que rotas seguras fossem criadas, para que cada um dos cem, mais seus acompanhantes, chegassem ao seu destino. Levaria cerca de quatro horas até que alguém se desse conta de que os maiores líderes do mundo haviam sumido, que as mensagens de inteligência cessaram e que a guerra estava sem comando.

Sei que isso parece estranho de se ouvir, mas desde que ninguém diga para as pessoas “parem de se matar, isso é errado”, elas vão continuar fazendo isso com um pouco mais de vontade do que no seu dia a dia. As pessoas não são boas, apenas sabem que se todos forem maus, não sobrará nada.

Os bons e os fracos existem para que os fortes possam sobreviver: o leão só pode sobreviver porque a gazela não é rápida o suficiente. A natureza é uma mãe cruel. Esperar que seus filhos não fossem também seria muito estranho.

Depois de algumas horas, havíamos chegado á plataforma de lançamento Destino. A nave centopeia se encontrava pronta para decolar. Nós nos atrasamos, mas ainda tínhamos alguns minutos até o lançamento. A nave centopeia tinha esse nome pois, após sair da atmosfera e chegar ao espaço, se dividiria em cem outras pequenas naves pré-programadas para levar cada um a uma das cem arcas.

Enquanto pegava a minha mochila, que estava no carro, Anna veio até mim. Ela tinha aquele ar conspirador de sempre, mas duvidava que estivesse tramando algo. Com um beijo repentino, ela me imobilizou. Eu tinha me certificado de que ela não possuía nenhuma arma que pudesse usar desde que saímos e ela não me mataria por ser o único conhecendo a localização da nave centopeia. Porém, cometi um erro fatal: não verifiquei os seus lábios.

Uma toxina aplicada sobre um tecido sintético foi o truque que ela usou, meu corpo foi paralisado em instantes.

“Você foi muito tolo. Eu realmente gosto de jogar com homens, mas você não é bom para isso, é esperto demais. Não se preocupe, isso não vai matá-lo, o seu sonho de riqueza sim, isso, de certa forma, é uma despedida poética, depois de tantos anos juntos nossa parceria acaba aqui. Adeus!”.

Caído no chão, pude ver a nave centopeia partir enquanto era tomado pelo ódio. Mas o que aconteceu depois, com todos eles, de certa forma, me reconforta nesses últimos segundos de vida, pois o que eles encontram no espaço foi o mais puro desespero.

Este é apenas um capítulo de HELL. Leia os demais:

  1. Orgulho (20 de setembro)

  2. Preguiça (27 de setembro)

  3. Luxúria (04 de outubro)

  4. Gula (11 de outubro)

  5. Ira (18 de outubro)

  6. Avareza (25 de de outubro)

  7. Inveja (01 de novembro)

  8. Esperança (08 de novembro)

O Autor:


Nascido na cidade de Feira de Santana no interior Baiano, Jony Clay Rodrigues (ou simplesmente JC Rodrigues) publicou seu primeiro livro, "A voz do anjo", pela editora EllA, no ano de 2020. Participou da antologia em homenagem a Isaac Asimov publicada pela Arkanus Editora, "Historias do cotidiano" pela Verlidelas, e "Filantropia do mal" organizada por Pris Magalhães.

 
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